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ABRO LIVROS, ENCONTRO ESPELHOS — ABRO LIBROS, ENCUENTRO ESPEJOS
Maria Azenha
[Traducción]
José Ángel Cilleruelo
Edição bilíngue
.
DISPONÍVEL em https://abrir.link/HDlet

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ABRO LIVROS, ENCONTRO ESPELHOS — ABRO LIBROS, ENCUENTRO ESPEJOS
Maria Azenha
[Traducción]
José Ángel Cilleruelo
Edição bilíngue
.
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A chuva de primavera cai na estação de Bupyeong.
Na paragem de autocarros do bairro,
uma mulher que coxeia
envolta em plástico branco,
vende flores até altas horas da noite,
dizendo a todos para se transformarem em primavera,
para se transformarem em flores enquanto a vida continua.
Entrega timidamente
ao jovem funcionário da estação de serviço
o último ramo de frésias amarelas,
e sai a coxear
em direção à chuva de primavera que cai branca
no meio das luzes amarelas ao longo da plataforma.
Embarca no último comboio para Incheon Oriental
apertando firmemente a mão
do filho com Síndrome de Down.
_
▪ Jeong Ho-Seung
( Coreia do Sul 🇰🇷)
Mudado para Português por Jorge Sousa Braga
As palavras começam a ficar velhas: têm
dores nas articulações e rangem, de vez
em quando, sem razão; reclamam óleos
e resinas, tempo e açucares mais lentos.
Mas também eu estou velha demais para
oficinas, tão cansada de livros e papéis,
morta por viver outras coisas — por amor,
talvez espreitasse de novo nas mangas do
mundo e escrevesse uma fiada de búzios
no pulso da areia. Mas quantos dos teus
beijos perderia? Perdoem-me os que
ainda esperam por mim. Não sei se volto.
_
▪ Maria do Rosário Pedreira
Ocupei o dia com pequenas tarefas
Para silenciar um pedido uma súplica
Pintei o velho alpendre consertei a cancela do jardim
Libertei o cão para que perseguisse os pássaros pelo bosque
Recusou-se a partir
Persiste onde não existe caminho
Ao meu lado
Esperando que um vento frio
Dispa de folhas todos os ramos.
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▪ Luís Falcão
( Portugal 🇵🇹 )
in “Pétalas Negras Ardem Nos Teus Olhos”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2007
A mãe gosta que lhe escrevam
quando chega o seu dia,
escrever é uma forma de impedir
a ruína da casa
A casa continua nítida apesar do tempo
e todas as coisas estão
nos seus lugares
A mãe caminha no meio dessas coisas
e tudo se mantém como sempre foi
já faltam algumas telhas,
isso é verdade
mas a casa permanece intacta
A mãe assoma à porta
e olha não se sabe para onde,
em que pensará a mãe
quando assoma à porta?
Nesse momento
tudo é feito de silêncio,
só assim a mãe é visível
duma forma tão nítida
Se houvesse qualquer barulho
a mãe não seria vista
tenho a certeza,
a mãe vê-se tão bem no silêncio
Eu acho que acontece o mesmo
com tudo o que é importante
_
▪ Nuno Higino
( Portugal 🇵🇹 )
Não chores, rapariga, é boa a guerra.
Lá porque o teu rapaz ergueu as mãos ao céu
E a galope o cavalo se perdeu,
Não chores, não.
É boa a guerra.
Tambores de regimento rufam roucos,
E esta gente sequiosa de lutar
Nasceu para a recruta e p’ra morrer.
A inexplicada glória os sobrevoa,
É grande o deus da guerra, e é seu reino
Um campo com milhares a apodrecer.
Não chores, criancinha, é boa a guerra.
Porque o teu pai tombou na lama da trincheira,
Esfacelado o peito e já sem vida,
Não chores, não.
É boa a guerra.
Bandeiras crepitando esvoaçantes,
Águias douradas, rubras! Esta gente
Nasceu para a recruta e p’ra morrer.
Mostrai-lhe as eficácias do massacre,
Dizei-lhe a excelência de matar,
De um campo com milhares a apodrecer.
Mãe cujo amor é qual botão mesquinho
Na esplêndida mortalha do teu filho,
Não chores, não.
É boa a guerra.
Stephen Crane
in Poesia do Século XX, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena,
Eles comem com as mãos cheias,
mastigam cifras, engolem promessas,
enxugam a boca com páginas de leis.
Nos copos, brindam ao progresso,
enquanto o povo com fome,
troca dignidade por migalhas.
Os bolsos são profundos,
os discursos, vazios.
Quando a conta chega,
não há culpados—
é o povo que paga.
Ana Soares
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