I’m coming home

O tempo corre nas paredes livremente
mas não toma a direcção da morte: ela esteve aqui
desde o princípio, uma vocação adormecida
debaixo do estuque.

A manhã nasce viciada nos brandos venenos
que os móveis destilam, haverá pombas
sobre o parapeito, o senhorio arrastará o chinelo
sob um eco que caminha pelo tecto.
Nada poderá perturbar a fluência da penumbra
nos cantos para onde se varre a casa
aos domingos. A pele respira tenuamente mas não posso falar
em tristeza. Este é o meu endereço, um lugar composto
para a submergência.

 

▪ Rui Pires Cabral
( Portugal 🇵🇹 )
in “música antológica & onze cidades”, Editorial Presença, Lisboa, 1997

Ruas da Palestina

As ruas da minha cidade não têm nome.
Se um palestiniano for morto por um franco-atirador ou por um drone,
damos o nome dele à rua.
As crianças aprendem melhor os números
quando elas podem contar quantas casas ou escolas
foram destruídas, quantas mães e pais
foram feridos ou atirados para a prisão.
Os adultos na Palestina usam apenas os seus documentos de identidade
para não esquecer
quem eles são.

 

_
▪ Mosab Abu Toha
(Palestina-Israel 🇯🇴)

ANO NOVO

Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.

Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento

 

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▪ Fernando Pessoa
( Portugal 🇵🇹 )

O MESTRE

Onde o poeta pára, o poema
começa. O poema só pede
que o poeta saia do caminho.

O poema se esvazia
para se preencher.

O poema está mais perto do poeta
quando o poeta lamenta
que ele sumiu para sempre.

Quando poeta desaparece
o poema se torna visível.

Que pode o poema escolher
de melhor para o poeta?
Escolherá que o poeta
não escolha por si.

_
▪ Donald Hall
(EUA 🇺🇲 )
Mudado para português do brasil por António Cícero

ALGUNS POEMAS PORTÁTEIS

 

vivo numa cidade onde a polícia se ocupa
sobretudo de vigiar pedintes
e se à noite passearmos pelas artérias principais
as cenas que se repetem são as de homens em farrapos
sozinhos com os seus cães
cobrindo as cabeças com as mãos
enquanto as carrinhas da polícia passam lentamente

eles mantêm o seu silêncio
e eu lembro-me que foi adrienne rich quem escreveu
que eu vivo num país onde os poetas não são presos
por serem poetas
são presos por serem negros, mulheres, pobres

revejo versões desta cena todas as noites
quando regresso a casa depois do trabalho
e conheço-a bem porque tenho vivido
o mesmo dia durante os últimos sete meses
e presto atenção espero pela carrinha da polícia
a dumka nos meus ouvidos não me permite negar
que o mundo é uma bola de vidro
que a estabilidade de cada peça depende
de a rotação total do globo
não ultrapassar uma certa velocidade

e penso que sou responsável sobretudo
por estas horas em que me cruzo com gente na rua
em que paro de ser um agente
ao serviço de uma corporação cujo deus
é previsivelmente de um verde monótono e jamais
cometeria o erro de um grande final vermelho

eu estou viva quieta e sou responsável
por escrever estas palavras
a caneta contra o papel
o frio na cara
o som de um violoncelo nos ouvidos
que segredo pode ser encontrado na quietude?

que temos existido exaustos
do lado de fora de paisagens previsíveis
quando a minha cara deixa de poder ser reconhecível
e reparo que nos últimos meses

a minha letra mudou
munch pintou «o grito» depois
de um ataque de pânico numa ponte em paris
um ataque sofrido na companhia de amigos

ele dizia que «o grito»
não representava um homem a gritar
mas um homem a tentar conter
como as barreiras fazem com os rios
o grito de tudo o que o rodeia

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▪ Tatiana Faia
( Portugal 🇵🇹 )
De Um Quarto em Atenas, Tinta da China, 2018

Havia o bule a tarde o postigo

Havia o bule a tarde o postigo
(um sobrolho nocturno a sonam-
bular pela casa) os bêbados e os
loucos na taberna sempre bêbados
e sempre loucos a sonambularem
pela passagem de nível enquanto lhes
perdurasse a loucura e a bebedeira
de que nunca se curavam. Havia azeite
nas lamparinas naperons de renda e
mandalas bordadas flores murchas em
salobras jarras de água centros de mesa
e o teu sobrolho-postigo (centro de tudo)
a darem para a linha do comboio. Havia
a cancela que subia e descia consoante
as vogais das máquinas campainhassem
a desoras. Havia os carrinhos de rolamentos
(havia descarrilamentos) a guiarem sozinhos
empurrados pelo vento distraído ao volante.
Não havia o verso___ havia o inverso__ o
avesso do poema. Havia o teu lenço negro
(havia tudo em ti negro) e o teu xaile sobre
o espaldar oblíquo das costas. Havia um
arquipélago de réplicas de santos e santas
processo de multiplicar idades
de entardecer o rosto num
crescendo cujo auge se situa
prestes ao raiar do fim. A tarde
cinde noite e dia __meio-termo
sem término sem fim sem terminação. A
tarde: infância da noite que determina
a feição da claridade ___noite rubra a
amadurecer no cavo fusco da lareira. A
tarde à beira-lume: destroço da manhã.

 

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▪ Miguel Alexandre Marquez
(Portugal 🇵🇹)
in “Anuário de Poesia de autores não publicados”, Assírio & Alvim, 2015