UM FIGO

Deixou cair a fotografia
um desconhecido correu atrás dela
para lha entregar
ela recusou-se a pegar na fotografia
mas a senhora deixou cair isto
eu não posso ter deixado cair isto
porque isto não é meu
não queria que ninguém
e sobretudo um desconhecido
suspeitasse que havia uma relação
entre ela e a fotografia
era como se tivesse deixado cair
um lenço cheio de sangue
porque era ela quem estava na fotografia
e nada nos pertence tanto como o sangue
por isso quando uma pessoa se pica num dedo
leva logo o dedo à boca para chupar o sangue
o desconhecido apercebeu-se disso
é um retrato da senhora
pode ser o retrato de alguém muito parecido comigo
mas não sou eu
o desconhecido por ser muito bondoso
não insistiu
e como sabia que os mendigos
não têm dinheiro para tirar fotografias
deu a fotografia a um mendigo
que lhe chamou um figo

 

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▪ Adília Lopes
( Portugal 🇵🇹 )

CINZAS EM FLOR

Uma rosa nasceu de um ninho de espinhos.
Enquanto ela chora de pétalas fechadas,
atravessa a luz mais alva das margens.

Ela é a aurora do espelho das águas:
Dá o corpo lunar aos mortos do mar.

E sem a colher, de asas imensas,
a Noite desabrocha num espelho em flor.

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “A casa da Memória”

Bedford street

Ela deu-me a faca e disse: crava-a
No segundo espaço intercostal.
Onde é? perguntei-lhe. abriu a blusa
E assinalou, risonha, um ponto: aqui.

Algo devia haver naquela viagem
Que a fazia diferente. mais intensa.
Viam-se mais coisas. ascendíamos
A inéditos sons e raras cores.

Não havia confusão. até o detalhe
Mais ínfimo nos era compreensível.
Sugeri: por que não com barbitúricos?
É lento, retorquiu. já experimentei.

E o ácido gástrico é horrível
Como um trauma, porém, físico.
Substituí o seu dedo pelo meu
E ali apoiei a faca suavemente.

E cravei-a de repente. Não fosse
Mudar de ideia, se eu fosse lento.

 

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▪ José María Fonollosa
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por Luís Costa

COMO CORTAR UMA ROMÃ

“Nunca”, disse o meu pai,
“nunca cortes o coração
de uma romã. Vai chorar sangue.
Trata-a com delicadeza, com respeito.
Basta cortar a casca em quatro quartos.
É uma fruta mágica,
quando a abrires, está preparada
para que as joias caiam,
mais preciosas do que granadas,
mais lustrosas do que rubis,
como se iluminadas por dentro.
Cada joia contém uma semente viva.
Separa um cristal.
Segura-o para captar a luz.
Por dentro é um universo inteiro.
Nenhuma joia vulgar te pode dar isso”.
Já tentei fazer colares
de sementes de romã.
O sumo de um carmesim brilhante jorrou
e manchou os meus dedos, depois a minha boca.
Não me importei. O sumo tinha o gosto de jardins
que nunca tinha visto, a volúpia
da murta, do limão, do jasmim,
vivo com asas de papagaio.
A romã recordou-me
que em algum lugar tive outra casa.

 

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▪ Imtiaz Dharker
( Reino Unido 🇬🇧 )
Mudado para português por Jorge Sousa Braga