EU QUERIA VIVER CONTIGO

 

… Eu queria viver Contigo,
numa pequena cidade
onde o crepúsculo é eterno
e o repicar dos sinos também.
Num modesto hotel rural –
com o som minimamente audível
de um antigo relógio – como gotinhas de tempo.
Por vezes, a meio da tarde, vinda de qualquer sótão –
a melodia de uma flauta
e o flautista junto à janela,
grandes tulipas nas varandas
e entretanto é possível que Tu
nem nunca me tenhas amado…

_________

No meio da sala – uma lareira de azulejos,
em cada azulejo – um desenho:
uma rosa – um coração – um barco. –
E na única janela –
neve, neve, neve.

Tu estarias deitado – como gostava de ver-te:
preguiçoso, indiferente, descuidado.
Uma vez por outra o raspar
de um fósforo.

O cigarro arde e apaga-se,
na sua ponta treme,
como um poste consumido – a cinza.
Dá-Te preguiça sacudi-la –
o cigarro inteiro atravessado pelo fogo.

 

10 de Dezembro 1916

–

▪ Marina Tsvetáieva
( Rússia 🇷🇺 )
Mudado para português por _ Diogo Vaz Pinto (a partir de tradução para espanhol de Natalia Litvinova)
 

TELEFONA-ME PARA O SILÊNCIO

Telefona-me para o silêncio
Do meu coração, o som
Baterá no que resta ainda dos cristais
Nos recantos vazios da noite

Esta noite
Preciso da luz apagada
Da minha estrela
Chamo-te quando vem o silêncio
Desse lado do fio, do frio
Deste telefone público sem respostas
Na profundidade dos teus ouvidos
Caem as minhas chamadas
Há um grito
No limite das sombras
A perder-se no abismo.

 

–

▪ J. T. Parreira
( Portugal 🇵🇹 )

NATÁLIA CORREIA

 

NATÁLIA CORREIA

 

Floriu imensa. E até a divindade a viu
Beber da Fonte ouro e estrelas: pérolas
Encantadas, da noite, que cobriu,
Coroadas de estrelas e de auréolas.

Partiu p’ rás Índias no azul imenso
Das águas ou do céu, mão do Ocaso;
Partiu com «lírios e feras», intenso
Fado onde havia pérolas num vaso.

E no esplendor das mesas penteava
Sonhos, ondas, séculos de cristais:
Verdes sombras verdes que transformava

Em clarões, poeiras, risos de adegas,
Que no calendário das águas musicais
Servia a morte com magias cegas.

 
 

–

▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “O último Rei de Portugal”, Fundação Lusíada, 1992”

 

Natália de Oliveira Correia nasceu nos Açores, na ilha de S. Miguel, a 13 de Setembro de 1923 e faleceu em Lisboa em 1993).No poema Mãe Ilha, Natália Correia revela quão cedo se apercebeu portadora de um dom, o dom da poesia: «Parti p’rás Índias do meu estranho caso» escreve neste poema Natália Correia. Tendo, como legado, no coração da ilha o vaso cheio de pérolas dos sonhos maternos, teve a consciência da dificuldade de cumprir o enigma da sua singularidade pois entendia que cumpria à atividade poética uma missão histórica sagrada pelo seu ofício de profecia. O seu tempo era um tempo em que a palavra se refugiava na escrita. A fala era um lugar de disfarce e desencontro, tudo era subentendido, falar era estabelecer territórios, hierarquias. Á volta do carisma de Natália Correia se acolhia todos os que amavam a Literatura. Natália Correia dava à vida das pessoas a noção de sentido perdido , achado ou por achar. Para se cumprir isolou-se como Herberto Helder mas de outra maneira: mantendo-se, como os taoistas chineses , só no meio dos homens e das suas tempestades. O que lhe não foi dado no amor com que sonhou seja dado à sua memória.

MÃE ILHA

No coração da ilha está um vaso
Cheio das pérolas que p’ra mim sonhaste,
Ó mãe completa da manhã ao ocaso,
Pastora dos meus sonhos, minha haste.

Parti p’rás Índias do meu estranho caso
— ó danos que dos versos sois o engate! —
E com maus fados se entendem ao acaso
Lírios e feras do meu vão contraste.

Ave exausta, o retorno quem me dera,
Vou no canta dos órfãos soletrando
O âmbar da manhã que ali me espera.

Feridas asas, enfim ali fechando
Ao pasto e á onda me unirei sincera,
Ilha no manso azul de mãe esperando.

–
Natália Correia, Antologia Poética, Publicações Dom Quixote
(Texto de Joana Ruas)

O MEU MAIOR MEDO

O meu maior medo
é o de transformar-me em “uma poeta”…
Ficar trancada no quarto
olhando o mar
e esquecer…
Medo de que os pontos em minhas veias cicatrizem
e que, em vez de ter uma vaga memória dos noticiários de TV,
eu passe a rabiscar papéis e vender “meus pontos de vista”…
Medo de que os que passaram por cima de nós possam me aceitar
para poderem me usar.
Medo de que meus gritos virem um murmúrio
para fazer o meu povo dormir.
Medo de aprender a usar métrica e ritmo
e ficar presa dentro deles
ansiando que meus versos se tornem canções populares.
Medo de vir a comprar binóculos para ver de perto
as ações de sabotagem das quais não estarei participando.
Medo de cansar-me — uma presa fácil para padres e acadêmicos —
e com isso transformar-me em uma mulherzinha covarde
Eles têm seus métodos…
Podem utilizar a rotina com que nos acostumamos,
já nos transformaram em cães:
nos deram a vergonha por não trabalhar…
depois o orgulho por estarmos desempregados…
É assim que é.
Psiquiatras astutos e policiais deploráveis
esperam por nós nas esquinas.
Marx…
É outro medo
Eu não o esqueço também…
Esses filhos da puta … a culpa é toda deles…
Eu não consigo — merda — nem terminar de escrever isso
Talvez… hum?… talvez um outro dia…

 

–

Katerina Gógou (1940-1993) foi uma poeta grega anarquista e figura representativa do radicalismo político e da cena cultural dos anos 1980 em Exarchia. Katerina nasceu em Atenas e os primeiros anos de sua vida foram marcados pela fome, a ocupação nazista, a resistência e a guerra civil. Participou de mais de 30 filmes gregos. Sua poesia de forte impacto está fincada na condição humana e na rebeldia revolucionária de conteúdo anarco-comunista. Katerina cometeu suicídio aos 53 anos com overdose de barbitúricos.

 
“Escreva alguma coisa, mesmo que seja apenas um bilhete de suicídio.”

GORE VIDAL
*

–
▪ Katerina Gógou
( Grécia 🇬🇷 )
Mudado para português ( brasil ) por Maira Parula a partir da versão em inglês de G. Chalkiiadakis

2 POEMAS DE ALBA FLORES ROBLA


Onde vives, qual o número do teu telemóvel

onde vives, qual o número do teu telemóvel
qual é o teu prato favorito
lês ou preferes jogos de vídeo
o que gostarias que te oferecesse no aniversário
onde costumas passar as férias na praia ou na montanha
doce ou salgado
o que causa alergia
de que flores gostas
quantos beijos deste quantas bocas beijaste
alguma vez choraste a ver um filme
de que tens medo
escolhe sol ou lua rio ou piscina cabelo curto ou comprido
dormes mal de noite
preferes o verão
que fazes quando não tens nada que fazer
o que achas
maquilhas-te saltos altos ou sapatilhas
olhos claros olhos escuros
que amigos tinhas em miúda que querias ser quando
fosses grande
quais eram os teus sonhos
o que sabes sobre as estrelas podes encontrar o norte
seguindo-as
gostas de animais

alguma vez partiste uma costela
quem foi o teu primeiro amor onde foi o teu primeiro
amor
como queres que os teus filhos se chamem
queres ter filhos quantos
por que te puseram esse nome
que fizeste como começou quantos anos tinhas
achas que alguma vez chegarei a conhecer-te como se te
tivesse conhecido sempre

*

Coisas prestigiantes

Adoro que faças coisas prestigiantes,
que tenhas um mestrado e um doutoramento
numa coisa que eu não sei o que quer dizer,
que viajes pelo mundo inteiro fazendo conferências
de ponteiro laser na mão
e de gravata à volta do pescoço.
Que te aplaudam

e tires dúvidas com received pronunciation* e
sorriso perfeito,
que façam os teus pais parar na rua
e se possam comprar online os teus livros sobre
coisas prestigiantes
que eu não sei o que significam.

*Pronúncia considerada tradicionalmente como
norma para o inglês britânico (Wikipedia).

_
▪ Alba Flores Robla
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por _Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹

AMANHÃ, VOU SER OPERADA

A morte veio e ficou ao meu lado.
Eu disse: estou pronta.
Estou deitada numa cama da Clínica Cirúrgica de Cracóvia.
Amanhã
vou ser operada.
Há muita força em mim. Posso viver,
posso correr, dançar e cantar.
Tudo isso está em mim, mas se for necessário,
partirei.

Hoje
faço contas à minha vida.
Eu era uma pecadora,
batia com a cabeça contra a terra,
implorava à terra e ao céu
que me perdoassem.

Eu era bonita e feia,
sábia e estúpida,
muito feliz e muito infeliz,
frequentemente tinha asas
e flutuava no ar.

Percorri mil caminhos ao sol e na neve,
dancei com o meu amigo sob as estrelas.
Eu vi amor
em muitos olhos humanos.
Comi com prazer
a minha fatia de felicidade.

Agora estou deitada numa cama da Clínica Cirúrgica de Cracóvia.
Ela está comigo.
Amanhã
vão-me operar.
Pela janela as árvores de maio, lindas como a vida,
e em mim, humildade, medo e paz.

 

_
▪ Anna Swir
( Polónia 🇵🇱 )
Mudado para prtuguês por Jorge Sousa Braga

(O poema foi escrito enquanto estava no leito da morte.)

MORTO DAS NOVE ÀS CINCO NOS DIAS ÚTEIS

Às vezes tenho desejos
de me aproximar serenamente
da linha dos eléctricos
e estender-me sobre o asfalto
com a garganta pousada no carril polido.
Estamos cansados
e inquietam-nos trinta e um
problemas desencontrados.
Não tenho coragem de pedir emprestado
os duzentos escudos
e suportar o peso de todas as outras cangas.
Também não quero morrer
definitivamente.
Só queria estar morto até que isto tudo
passasse.
Morrer periodicamente.
Acabarei por pedir os duzentos escudos
e suportar todas as cangas.
De resto, na minha terra
não há eléctricos.

 

–

▪ Rui Knopfli
( Portugal 🇵🇹 )

Antologias de Poesia 1951 a 1963 CEI Mocambique_UCCLA