░ Silêncio

O meu pai costumava dizer
“Pessoas superiores nunca fazem visitas demoradas,
não precisam que se lhes mostre o túmulo de Longfellow
nem as flores de vidro em Harvard.
Independentes como o gato —
que leva a presa para a sua intimidade,
a cauda frouxa a cair da boca como um atacador —
têm prazer por vezes na solidão e podem ficar sem palavras
roubadas por outras que os encantaram.
O sentimento mais profundo revela-se no silêncio;
não no silêncio, mas na contenção”.
Nem faltava à verdade quando dizia “Façam da minha casa a vossa estalagem.”
Estalagens não são residências.

 

_
▪ Marianne Moore
(E.U.A, 1887 – 1972)
– Poema de domínio público –

Mudado para português por _Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░ Silence

 

My father used to say,
“Superior people never make long visits,
have to be shown Longfellow’s grave
nor the glass flowers at Harvard.
Self reliant like the cat —
that takes its prey to privacy,
the mouse’s limp tail hanging like a shoelace from its mouth —
they sometimes enjoy solitude,
and can be robbed of speech
by speech which has delighted them.
The deepest feeling always shows itself in silence;
not in silence, but restraint.”
Nor was he insincere in saying, “Make my house your inn”.
Inns are not residences.

 

_
▪ Marianne Moore
(E.U.A, 1887 – 1972)
– This poem is in the public domain –

 

░ SERENIDADE

 

A Martin Heidegger

Há somente duas coisas: meu rosto desfigurado
e a dureza da pedra.
A consciência somente se acende
quando o ser está contra ela:
é assim que todo conhecimento
e a matriz de toda figura
é uma ferida,
e somente é imortal
o que chora.
A noite, mãe da sabedoria
tem a forma inacabada do pranto.

***

A luz, a luz
quando estava muito perto do mar
limite do deserto
do deserto em que florescem as rosas cruéis
famélicas do homem.

***

As palavras
constroem o bosque
uma árvore é somente uma árvore
quando tocada pelo poema.

***

Os sinos varrem o som
anunciam letra a letra o deserto
em que uma flor apodrece entre as mãos murchas
de uma velha
que chora por haver perdido seu nome.

 

_
▪ Leopoldo María Panero
(Espanha, n. 1948 – 2014)
in “Orfebre” – Poesía Completa (1970-2000), Visor Libros, Madrid ESP, 1994

Mudado para português por _Gustavo Petter_(Araçatuba/SP, Brasil). Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



Versão original /Versión original

 

░ SERENIDAD

A Martin Heidegger

Sólo hay dos cosas: mi rostro desfigurado
y la dureza de la piedra.
La conciencia sólo de enciende
cuando el ser está contra ella:
y es así que todo conocimiento
y la matriz de toda figura
es una herida,
y sólo es inmortal
lo que llora.
Y la noche, madre de la sabiduría
tiene la forma inacabable del llanto.

***

La luz, la luz
cuando estaba demasiado cerca del mar
límite del desierto
del desierto en que florecen las rosas crueles
hambrientas del hombre.

***

Las palabras
construyen el bosque
un árbol es sólo un árbol
cuando lo toca el poema.

***

Las campanas barren el sonido
enuncian letra a letra el desierto
en que una flor se pudre entre las manos ajadas
de una vieja
que llora de haber perdido su nombre.

 

_
▪ Leopoldo María Panero
(España, n. 1948 – 2014)
in “Orfebre” – Poesía Completa (1970-2000), Visor Libros, Madrid ESP, 1994

 

░ Número 8

Era uma cara que a escuridão podia matar
num instante
uma cara que o riso ou a claridade
podiam igual e facilmente ferir

‘À noite pensamos de forma diferente’
disse-me uma vez
recostando-se languidamente

e citava Cocteau

‘Sinto que há um anjo em mim’, dizia,
‘que estou sempre a escandalizar’

Depois ria, desviava o olhar,
acendia-me um cigarro,
suspirava, levantava-se

e alongava
a sua doce anatomia

deixava cair uma meia

 
_
▪ Lawrence Ferlinghetti
(E.U.A, n. 1919)
in “Pictures of the Gone World: 60th Anniversary Edition”, City Lights Books, United States, 2015
Mudado para português por _Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░ Number 8

 

It was a face which darkness could kill
in an instant
a face as easily hurt
by laughter or light

‘We think differently at night’
she told me once
lying back languidly

And she would quote Cocteau

‘I feel there is an angel in me’ she’d say
‘whom I am constantly shocking’

Then she would smile and look away
light a cigarette for me
sigh and rise

and stretch
her sweet anatomy

let fall a stocking

 

_
▪ Lawrence Ferlinghetti
(E.U.A, b. 1919)
in “Pictures of the Gone World: 60th Anniversary Edition”, City Lights Books, United States, 2015

 

░ Pode ser, que o terrível não tenha explicação

Pode ser, que o terrível não tenha explicação
E que a luz seja só a presença de silêncio.
Pode ser.

Pode ser que letra a letra se construa
O veneno insuficiente da palavra
De todo já perdida para a vida.
Pode ser.

Pode ser que eu seja peixe fora d’água
Sufocado na areia tonta de uma praia
Pode ser.

Pode ser que eu não passe
De cometa sossobrante
Num buraco escura da galáxia.
Pode ser.

Mas o que será que agora,
Para quem julgue ver-me,
Pareço neste instante ?

 

_
▪ Adalberto Alves
(Lisboa, n. 1939)
in “Os indícios da palavra”, Editora Althum.com, Lisboa, 2017

░ O tempo anterior

Chego de noite A casa é como um rio
arrasta corpos em surdina vozes
que só podemos escutar na

água, sonhos velozes
Chego de noite Sei que está presente
esse tempo total Nada esqueci

mesmo que não o lembre Oh como estende
as asas sobre mim A sua cor
incerta reconheço

 

__
▪ Gastão Cruz
(Faro, n. 1941)
in “Poemas de Gastão Cruz”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005

░ A HERANÇA

há uma loucura perturbadora nas sílabas dos móveis
em cuja vastidão há palavras que se perdem
mas dar-te-ei um lance neste jogo de cartas
aliviando-te do fundo da colina em que se juntam

mas será preciso que tudo se revolva como um fósforo
a forma e o ferrolho na fronteira da erva
a grande colecção dos soluços da coruja
com tubos musicais pelas veias telefónicas

dar-se-á então um truque no real pela espiral das nuvens
a fronteira e o núcleo na face das perguntas
onde os livros aí estão com sílabas imóveis
de raízes apontadas para o haxixe das dúvidas.
e pelos nomes das veias da mistura das estradas
onde viajam os números os rebanhos do futuro
passearemos juntos pelo teorema de pitágoras
em imagens na avenida pelas sílabas da chuva

 

_
▪ Alexandra Kräft
(Londres, n. 2025)
Heterónimo de Maria Azenha
in “Concerto para o Fim do Futuro”, Hugin – Editores, Lda, Lisboa, 1998

░ A ÁRVORE DAS RAÍZES

a minha infância tem uma árvore
assombrosa. é uma bela história de amor
entre as nossas mãos pequeninas
e aqueles seus braços enormes, bravos e
loucos como o riso das mães,
que faziam abrandar o medo e a tarde.

oito, nove, dez: virávamo-nos à procura dos outros
pelo labirinto de grutas cavado nas raízes,
ao abrigo do vento e da solidão que não tardaria
a descobrir o nosso esconderijo.

ao parar, há dias, na Deslocação do Labirinto,
imaginei que talvez Vieira da Silva
tivesse sonhado a minha árvore.
ou vice-versa. dois seres mágicos do mesmo elemento
engendrando-se um ao outro nas raízes do mundo:

azuis e verdes com riscos ferozes
onde a vista se afunda para depois
nos libertar. assim é, entre o céu da memória
e a erva húmida destes dias,
a árvore da minha infância.

 

_
▪ Renata Correia Botelho
(Açores, n. 1977)
in “Small Song”, 2.ª edição, Editora Alambique, Lisboa, 2015

░ A FAMÍLIA DE DORIAN GRAY

A minha mãe é socialista.
O meu pai ao fim desta rua cortando à direita.
Suspensa de uma lua em forma de bolacha,
vejo passar mendigos, oiço cruzar as sombras
dos que escrevem versos para a Academia.
A minha educação sentimental é um barco de papel
no tanque dos livros, as luvas do avesso de Wilde,
as alegres comadres do ambíguo Shakespeare.
Não quero dar a volta ao mundo,
por menos que isso cortaram a cabeça ao Rei Sol.
Eu tenho outra paixão, toda a gente tem outra paixão,
tem-na o girassol, a bandeira do meu país tem uma estrela,
os miúdos judeus têm um violinista no telhado,
a cor negra tem paixão pelas formigas.
O verão tardará a chegar, a minha família inventou o outono,
o meu pai no jardim há-de varrer as folhas,
a minha mãe vai contemplar a neve,
eu acenderei outra fogueira.
É assim a vida, razões para arder,
o clube de Dorian Gray, o céu, as estrelas.

 

_
▪ Alexandra Domínguez
(Chile, n. 1956)
in “La conquista del aire”, Colección de Poesía de la Fundación Juan Ramón Jiménez, Huelva – ESP, 2000

Mudado para português por – Maria Soledade Santos (Poeta e Tradutora). Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto, 2011). Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

LA FAMILIA DE DORIAN GRAY

 

Mi madre es socialista.
Mi padre al final de esta calle torciendo a la derecha.
Colgada de la luna con forma de galleta
veo pasar mendigos, oigo cruzar las sombras
de los que escriben versos hacia la Academia.
Mi educación sentimental es un barco de papel
en el estanque de los libros, los guantes del revés de Wilde,
las alegres comadrejas del ambiguo Shakespeare.
Yo no quiero dar la vuelta al Mundo,
por menos al Rey Sol le cortaron la cabeza.
Tengo otra pasión, todo el mundo tiene otra pasión,
el girasol la tiene, la bandera de mi país tiene una estrella,
los muchachos judíos tienen un violinista en el tejado,
el color negro tiene pasión por las hormigas.
El verano tardará en llegar, mi familia inventó el otoño,
mi padre en el jardín barrerá las hojas,
mi madre mirará la nieve,
yo encenderé otra hoguera.
Así es la vida, razones para arder,
el club de Dorian Gray, el cielo, las estrellas.

 

_
▪ Alexandra Domínguez
(Chile, n. 1956)
in “La conquista del aire”, Colección de Poesía de la Fundación Juan Ramón Jiménez, Huelva – ESP, 2000

 

░ Da capo

Pegue no coração gasto como se fosse um seixo
e atire-o para longe.

Pouco tempo depois não haverá nada.
Em pouco tempo a última onda cansar-se-á
nas ervas daninhas.

Tendo regressado a casa, corte cenouras, cebolas às rodelas e aipo.
Ao lume envolva em azeite antes de juntar
as lentilhas, água e ervas aromáticas.

As castanhas tostadas a seguir, um pouco de pimenta, o sal.
Para terminar, o queijo de cabra e salsa. Sirva-se.

Pode fazer isto, digo-lhe eu, é permitido.
Comece a história da sua vida novamente.

 

_
▪ Jane Hirshfield
(E.U.A., n. 1953)
in “The Lives of the Heart”, Published by Harper Perennial, E.U.A., 1997

Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

Da Capo

 

Take the used-up heart like a pebble
and throw it far out.

Soon there is nothing left.
Soon the last ripple exhausts itself
in the weeds.

Returning home, slice carrots, onions, celery.
Glaze them in oil before adding
the lentils, water, and herbs.

Then the roasted chestnuts, a little pepper, the salt.
Finish with goat cheese and parsley. Eat.

You may do this, I tell you, it is permitted.
Begin again the story of your life.

 

_
▪ Jane Hirshfield
(E.U.A., b. 1953)
From “The Lives of the Heart”, Published by Harper Perennial, E.U.A., 1997