░ Candelária

Hoje saíram os vizinhos
com seus cães, os casais,
os velhinhos sem pensá-lo
com as flores.

Não há mortos que valham para eles,
tampouco para mim quando os vejo
vestidos os domingos nos parques.
Ai, esse rapaz com o dálmata!

Pode a beleza conquistar o dia
e acima do luto, ainda que doa
todavia: luz, candeia, candelária.

 

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▪ Yolanda Pantin
(Venezuela, n. 1954)
Do livro inédito “Bellas Ficciones”, 2016
Publicado com prévia autorização da autora
Mudado para português por – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil)
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

Candelaria

Hoy salieron los vecinos
con sus perros, las parejas,
los viejitos sin pensarlo
con las flores.

No hay muertos que valgan para ellos,
tampoco para mí cuando los veo
vestidos los domingos en las plazas.
¡Ay, ese muchacho con el dálmata!

Puede la belleza conquistar el día
y sobre el luto, aunque duela
todavía: luz, candela, candelaria.

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▪ Yolanda Pantin
(Venezuela, n. 1954)
Do livro inédito “Bellas Ficciones”, 2016

░ UMA OUTRA PRIMAVERA

Como andorinha que, em pleno Fevereiro,
chega do sul precipitadamente,
iludida por um dia prematuro
de Primavera, que rompeu a rotina
do frio e da chuva (mas não se repetirá) –

saio do esconderijo, solto-me no ar
e faço acrobacias, perseguindo
os poucos insectos que também
como a andorinha se equivocaram,
convocados por um sol que pouco dura.

Mas vem o dia seguinte e o inverno
com seu rol feroz de apoquentações
regressa nele e embarga-me o voo.

Então, contrariamente à andorinha
– que acha perfeitamente naturais
estes sobressaltos e embustes do tempo –,
proclamo a berros que fui ludibriado,
zango-me e mordo a língua.

Quando a espuma da ira se desfaz,
ponho-me atrás dos vidros como quem não quer
———————————            ———- ——-a coisa,
à espera de uma outra Primavera prometida,
menos fraudulenta e mais durável,
que um dia há-de vir, mas tarda tanto –
de novo recolhido, sedentário,
com a impaciência enroscada ao pescoço
como um langue pitão domesticado.

 

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▪ A. M. Pires Cabral
(Macedo de Cavaleiros, n. 1941)
in “Cobra-D’ Água”, Edições Cotovia, Ldª., Lisboa, 2011

░ COMO ESCREVO num idioma

COMO ESCREVO num idioma
que aprendi,
tenho de me levantar
enquanto os outros dormem.
Escrevo como quem recolhe água
dos muros,
inspira-me o primeiro sol
das paredes.
Acordo antes de todos,
mas levanto-me.
Escrevo antes do amanhecer,
quando quase ninguém acordou
e posso enganar-me
numa língua que aprendi.
Verso após verso procuro
adiantar-me à lição do dia
enquanto os outros dormem.
Oiço o ruído da bomba
que eleva a água aos reservatórios,
e enquanto a água sobe
e o prédio humedece,
desligo a outra língua
que no sono
me entrou nos sonhos,
e enquanto a água sobe,
desço verso a verso como quem
recolhe idioma das paredes
e chego tão fundo, às vezes,
tão belo,
que posso permitir-me
o luxo
de alguma recordação.

 
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▪ Fabio Morábito
(México, n. 1955 no Egipto )
in “Un Náufrago Jamás Se Seca” Antología, Ediciones Gog Y Magog, Argentina, 2011
 
Mudado para português por – Maria Soledade Santos (Poeta e Tradutora). Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto, 2011). Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░ PUESTO QUE escribo en una lengua

 

PUESTO QUE escribo en una lengua
que aprendí,
tengo que despertar
cuando los otros duermen.
Escribo como quien recoge agua
de los muros,
me inspira el primer sol
de las paredes.
Despierto antes que todos,
pero en alto.
Escribo antes que amanezca,
cuando soy casi el único despierto
y puedo equivocarme
en una lengua que aprendí.
Verso tras verso
busco la prosa de este idioma
que no es mío.
No busco su poesía,
sino bajar del piso alto
en que amanezco.
Verso tras verso busco,
mientras los otros duermen,
adelantarme a la lección del día.
Oigo el ruido de la bomba
que sube el agua a los tinacos
y mientras sube el agua
y el edificio se humedece,
desconecto el otro idioma
que en el sueño
entró en mis sueños,
y mientras el agua sube,
desciendo verso a verso como quien
recoge idioma de los muros
y llego tan abajo a veces,
tan hermoso,
que puedo permitirme,
como un lujo,
algún recuerdo.

 

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▪ Fabio Morábito
(México, n. 1955 no Egipto )
in “Un Náufrago Jamás Se Seca” Antología, Ediciones Gog Y Magog, Argentina, 2011

 

░ Vejo brilhar uma estrela que,

Vejo brilhar uma estrela que,
pelos vistos, já morreu – assim a
minha vida: luminosa e, porém,
assombrada pela escuridão. Sorte a

daqueles que só conhecem a morte
pelas mãos frias – toda a vida fiz luto
por corpos ainda sãos. A felicidade

faz-me, apesar de tudo, infeliz –
é sempre a ideia do fim que traz
a música certa para os meus versos.

 

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▪ Maria do Rosário Pedreira
(Lisboa, n. 1959)
in “Poesia Reunida”, 2ª. edição, Quetzal Editores, Lisboa, 2013

░ Still Life

Os livros
abandonados no apartamento de Jan falavam
línguas distintas. Podíamos ir pela estante
(colecionando fronteiras)
tentando adivinhar quem os teria legado
(quem sabe se em desagravo
pelo rumo da história)
suponho que: pelo desvelo que impele
à partilha. Cruzando o apartamento alugado
tantos anos saudei
nos livros esquecidos a experiência do mundo
(breves rasgões na lombada
testemunhando a viagem)
o olvido por companhia cedo demais
para morrer. Nessa idade em que uma mão (a
minha a
sua: leitor) podia da vida quieta
extrair vida ainda.

 

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▪ João Luís Barreto Guimarães
(Porto, n. 1967)
in “você está aqui”, Quetzal Editores, Lisboa, 2013

░ Em Roma, onde há artérias de flores e mármores

Em Roma, onde há artérias de flores e mármores que servem
de espelho às concubinas, ela caminha entre ecos de beleza
em busca do futuro. Abandonada à melancolia das ruinas
ao estremecimento do tempo que passa.

Em Roma, onde a lua se cobre de sangue e o ombro macio do
papel se transforma em amante antigo, ela aprende a durar.

 

_
▪ Maria Graciete Besse
(Almada, n. 1951)
in “Errâncias”, Escritor, Lisboa, 1992

░ Perguntando pelo caminho

Vós loucos que perguntais o que é deus
devíeis antes perguntar o que é a vida.
Descubram um porto onde floresçam limoeiros
Perguntem por sítios para beber no porto.
Informem-se sobre os bebedores.
Façam perguntas sobre os limoeiros.
Perguntem voltem a perguntar até nada mais haver para perguntar.

 

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▪ Ko Un
(Coreia do Sul, n. 1933)
Mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático) a partir da versão inglesa de Suji Kwock Kim e Sunja Kim Kwock.



Original version / Versão original

 

░ Asking the Way

 

You fools who ask what god is
should ask what life is instead.
Find a port where lemon trees bloom.
Ask about places to drink in the port.
Ask about the drinkers.
Ask about the lemon trees.
Ask and ask until nothing’s left to ask.

 

_
▪ Ko Un
(Coreia do Sul, n. 1933)
Translated from the Korean to Suji Kwock Kim and Sunja Kim Kwock

 

░ A morte de Beverly Hills

V

 

Nas cabines telefônicas
há misteriosas inscrições desenhadas com batom
São as últimas palavras de doces garotas loiras
que com o decote ensanguentado se refugiam ali para morrer.
A última noite sob o pálido neon, último dia sob o sol alucinante,
ruas recém regadas com magnólias, faróis amarelos dos carros
de polícia no amanhecer.
Te esperarei a uma e meia, quando saíres do cinema – e a
esta hora está morta no Depósito aquela cujo
corpo era um ramo de orquídeas.
Ferida nos tiroteios noturnos, encurralada nas esquinas
pelos refletores, esbofeteada nos night-clubs,
meu verdadeiro e doce amor chora em meus braços.
Uma última claridade, a mais afilada e nítida,
parece deslizar-se dos locais fechados:
esta luz que detém os transeuntes
e lhes fala suavemente de sua infância.
Música de outro tempo, canção ao compasso cujas velhas
—– notas conhecemos uma noite à la Ava Gardner,
garota envolta em um impermeável que beijamos
—– uma vez no elevador, na escuridão entre dois andares,
—– e tinha os olhos tão azuis, falava sempre em voz
—– muito baixa – se chamava Nelly.
Feche os olhos e escute o canto das sirenes pela noite
—– prateada de anúncio luminosos.
A noite tem cálidas avenidas azuis.
Sombras abraçam sombras em piscinas e bares.
No escuro céu combatiam os astros
quando morreu de amor,
—————————- e era como se recendesse devagar um perfume.

_
▪ Pere Gimferrer
(Barcelona ESP., n. 1945)
in “La muerte en Beverly Hills”, Editorial Ciencia Nueva,- Colección El Bardo, Madrid, 1968

Mudado para português por – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil). Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

La muerte de Beverly Hills

 

V

 

En las cabinas telefónicas
hay misteriosas inscripciones dibujadas con lápiz de labios.
Son las últimas palabras de las dulces muchachas rubias
que con el escote ensangrentado se refugian allí para morir.
Última noche bajo el pálido neón, último día bajo el sol alucinante,
calles recién regadas con magnolias, faros amarillentos de
los coches patrulla en el amanecer.
Te esperaré a la una y media, cuando salgas del cine -y a
esta hora está muerta en el Depósito aquélla cuyo
cuerpo era un ramo de orquídeas.
Herida en los tiroteos nocturnos, acorralada en las esquinas
por los reflectores, abofeteada en los night-clubs,
mi verdadero y dulce amor llora en mis brazos.
Una última claridad, la más delgada y nítida,
parece deslizarse de los locales cerrados:
esta luz que detiene a los transeúntes
y les habla suavemente de su infancia.
Músicas de otro tiempo, canción al compás de cuyas viejas
—– notas conocimos una noche a Ava Gardner,
muchacha envuelta en un impermeable claro que besamos
—— una vez en el ascensor, a oscuras entre dos pisos, y
—– tenía los ojos muy azules, y hablaba siempre en voz
—– muy baja- se llamaba Nelly.
Cierra los ojos y escucha el canto de las sirenas en la noche
—– plateada de anuncios luminosos.
La noche tiene cálidas avenidas azules.
Sombras abrazan sombras en piscinas y bares.
En el oscuro cielo combatían los astros
cuando murió de amor,
————————— y era como si oliera muy despacio un perfume.

_
▪ Pere Gimferrer
(Barcelona ESP., n. 1945)
in “La muerte en Beverly Hills”, Editorial Ciencia Nueva,- Colección El Bardo, Madrid, 1968

 

░ A BORDA

Terrível é a borda, não o abismo.
Na borda
há um anjo de luz no lado esquerdo,
um longo rio escuro no direito
e um estrondo de trens que abandonam os trilhos
rumo ao silêncio.
Tudo
quanto treme na borda é nascimento.
Somente da borda vê-se a luz primeira
o branco-branco
que nos cresce no peito.
Nunca somos mais homens
que quando a borda queima nossas plantas desnudas.
Nunca estamos mais solitários.
Nunca somos mais órfãos.

 

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▪ Piedad Bonnett
(Colômbia, n. 1951)
Poema inédito publicado com prévia autorização da autora.

Mudado para português por – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil)
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░ EN EL BORDE

 

Lo terrible es el borde, no el abismo.
En el borde
hay un ángel de luz del lado izquierdo,
un largo río oscuro del derecho
y un estruendo de trenes que abandonan los rieles
y van hacia el silencio.
Todo
cuanto tiembla en el borde es nacimiento.
Y sólo desde el borde se ve la luz primera
el blanco -blanco
que nos crece en el pecho.
Nunca somos más hombres
que cuando el borde quema nuestras plantas desnudas.
Nunca estamos más solos.
Nunca somos más huérfanos.

 

_
▪ Piedad Bonnett
(Colômbia, n. 1951)
Poema inédito publicado com prévia autorização da autora.