O MESTRE

Onde o poeta pára, o poema
começa. O poema só pede
que o poeta saia do caminho.

O poema se esvazia
para se preencher.

O poema está mais perto do poeta
quando o poeta lamenta
que ele sumiu para sempre.

Quando poeta desaparece
o poema se torna visível.

Que pode o poema escolher
de melhor para o poeta?
Escolherá que o poeta
não escolha por si.

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▪ Donald Hall
(EUA 🇺🇲 )
Mudado para português do brasil por António Cícero

A CRIANÇA OLHA PELA JANELA

A criança olha pela janela para o celeiro vazio.
A mãe senta-se no telhado e acena para ela.
A avó canta para o fogão maravilhoso.

A criança guardou o seu Pequeno Fogão Marvel
porque a avó dela está a fazer pão verdadeiro.
A criança olha pela janela para o celeiro vazio.

As duas lá dentro estão a preparar o jantar para três.
(Se a mãe descer do telhado.)
A avó canta para o fogão maravilhoso

uma música sobre uma mãe em algum telhado
(provavelmente a mãe que é filha dela).
A criança olha pela janela para o celeiro vazio.

A criança cantarola enquanto fica de pé
a inspecionar o celeiro e a ouvir como
a avó canta para o fogão maravilhoso.

Ela desenhou pelo menos meia dúzia de celeiros hoje.
Ela deixa de cantarolar e canta a sua própria música.
Ela olha para a mãe no topo do celeiro vazio enquanto
a avó canta para maravilhar o fogão.

 

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▪ Kimiko Hahn
( E.U.A. 🇺🇲 )

 

A ÁGUA

“A água não opõe resistência. A água corre. Quando mergulhas uma mão na água vês só uma carícia. A água não é um muro, não pode parar. Vai para onde quer ir e nada se lhe pode opor. A água é paciente. A água que goteja consome uma pedra.
Lembra-te, minha filha. Lembra-te que metade de ti é água. Se não podes superar um obstáculo, vai à volta dele. Como faz a água.”

 

 

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▪ Margaret Atwood
(Canadá 🇨🇦 )

QUE TEMPOS SÃO ESTES

Há um lugar entre dois renques de árvores onde a erva cresce colina acima
e a velha estrada revolucionária se desfaz em sombras
perto de uma capela abandonada pelos perseguidos
que desapareciam naquelas sombras.
Eu andei por lá colhendo cogumelos à beira do pavor, mas não se enganem
isto não é um poema russo, isto não está noutro lugar, mas aqui,
o nosso país aproximando-se da sua própria verdade e pavor,
as suas próprias maneiras de fazer as pessoas desaparecerem.
Não te vou dizer onde fica este lugar, onde a malha escura da floresta
encontra a súbita faixa de luz —
encruzilhada de fantasmas, paraíso de folhagem:
Já sei quem quer comprá-lo, vendê-lo, fazê-lo desaparecer.
E se não te vou dizer onde fica, porque estou então a falar
contigo? Porque tu ainda ouves, porque em tempos como estes
para que tu ouças, é necessário
falar de árvores.

 

 

_
▪ Adrienne Rich
( E.U.A. 🇺🇲 )

Mudado para português por Jorge Sousa Braga

DEZ TANKA

the first wind
of autumn and
still no moon
to carry me
into winter

primeiro vento
de outono
e lua nenhuma
para me levar
até ao inverno

*

there you are
midway through a
dream, telling
me the moon is
made of paper

ali estás
a meio de um
sonho, dizendo-me
que a lua é
feita de papel

*

they play cards
on the floor of the
wet market,
sandwiched between
the cries of fish

jogam às cartas
no chão molhado
do mercado,
entre os gritos
dos peixes

*

twilight. . .
passersby paint
the walls of
the cemetery
with shadows

crepúsculo…
transeuntes pintam
com sombras
as paredes
do cemitério

*

she acts
as if darkness
was more than
a lover walking
on telephone lines

ela age
como se a escuridão
fosse mais do que
um amante a caminhar
por linhas telefónicas

*

the look she
gave me when i
handed her
a bag of peanuts
nailed to the sky

o olhar que ela
me deitou quando
lhe entreguei
um saco de amendoins
pregado ao céu

*

almost 60,
this gnarled tree reminds
me of an old
man riding a bicycle
in his underwear

quase 60,
esta árvore retorcida
lembra-me um velho
em roupa interior
a andar de bicicleta

*

this breeze
and the song sung
on limbs
by small leaves
pretending to be birds

esta brisa
e a canção cantada
nos ramos
por folhas novas
fingindo serem pássaros

*

a shooting
star races past
me on its
way to another
man’s pocket

uma estrela
cadente passa
por mim depressa
a caminho do bolso
de outro homem.

*
what is winter
to patients waiting
in line to
use the hospital
ward’s one toilet?

o que é o inverno
para os doentes na fila
à espera de usar
a única casa de banho
da enfermaria?

 

_

▪ Robert D Wilson
(U.S.A. 🇺🇲)
Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático)

MISTÉRIOS, SIM

Na verdade, vivemos com mistérios demasiado maravilhosos
para serem entendidos.
Como pode a erva ser nutritiva
na boca dos cordeiros.
Como podem os rios e as pedras estar em permanente
aliança com a gravidade
enquanto nós ansiamos elevar-nos.
Como podem duas mãos ao tocar-se firmar laços
que nunca mais se quebram.
Como é que as pessoas, vindas do prazer ou
das cicatrizes dos golpes,
chegam ao conforto de um poema.

Deixem-me manter sempre a distância
dos que pensam ter todas as respostas.

Deixem-me ficar na companhia dos que dizem
“Olhem!” e riem de assombro
e inclinam reverentes a cabeça.

 

_
▪ Mary Oliver
( E.U.A. 🇺🇲 )
Mudado para português por Soledade Santos

ANTIMATÉRIA

No outro lado de um espelho há um mundo ao contrário,
onde os loucos se curam; onde os ossos saem da
terra e recuam até ao sedimento inicial do amor.

E à noitinha o sol está a nascer.

Os amantes choram porque estão um dia mais novos, e em breve
a infância lhes roubará o prazer.

Nesse mundo há muita tristeza que, claro, é alegria.

 

_
▪ Russell Edson
(E.U.A. 🇺🇸)
Poema mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho