CAFÉ NA PRAIA

O café está aberto anda,
os mortos estão lá sentados
em cadeiras acorrentadas, bebendo vinho
À nossa custa. Há algumas casas –
Retiradas do mar – a ver.
Um pedinte recolhe moedas e
atira -as aos mortos como um sacrifício.
Do bar, estendendo-se até ao mar,
há uma estreita faixa de luz
pela qual os mortos se afastam,
sobre a água. Permanecemos, ali sentados,
até o dia esfregar os olhos.

 

 

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▪ Michael Krüger
( Alemanha 🇩🇪 )
in “ Deus escreveu demasiado”, edição do lado esquerdo,2022
Tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho

EIS TUDO QUANTO ME RESTA, ESTE DESEJO

Eis tudo quanto me resta, este desejo:
Que, no aconchego da noite,
Me deixem morrer
E serenamente dormir
O mais próximo possível de um bosque.
Desejaria para os meus pés,
Sob um claro céu deitado,
A imensa praia do mar.
Não exijo cortejo fúnebre
Nem um sumptuoso ataúde,
Que alguém me construa um leito,
Um leito de arbustos me basta.

Nada de lágrimas sobre o meu túmulo,
Que apenas alguém escute,
Na voz do outono e do vento,
O vagaroso rumor das folhas a cair.
Pelo murmúrio das fontes,
Passam a dulcíssima lua,
De cume em cume, resvaladiça
Por sobre os abetos,
E, agravado pelo estribilho
De chocalhos ao longe,
O frio vento da noite.
Que um amante da flor da tília
Se debruce sobre o meu leito.
Nunca serei um exilado
Para o futuro.
E carinhosamente, as reminiscências
Poderão vir a ocultar-me
De todo o ócio.
Protegidas pelos negros abetos,
As estrelas da tarde
Voltarão a sorrir-me.
E as paixões poderão bramir
No ávido suspiro do mar.
Solitário, serei terra,
Terra restituída à terra.

 


▪ Mihai Eminescu
( Roménia 🇹🇩 )
in “Transversões, Poemas Reescrito Para Português”, por Zetho Cunha Gonçalves
Editora Contracapa, 2021

OS MEUS MESTRES

 

Os meus mestres não são infalíveis.
Não se trata de Goethe, que só conseguia
adormecer quando ao longe
gemiam os vulcões, nem de Horácio,
que escrevia na língua dos deuses
e dos sacerdotes. Os meus mestres
pedem-me conselhos. Vestindo macios
sobretudos deitados velozmente
por cima dos sonhos, ao romper dia, quando o vento
fresco interroga os pássaros, os meus
mestres falam por sussurros.
Consigo ouvir a sua voz trêmula. 

 

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▪ Adam Zagajewski
( Polónia 🇵🇱 )
in “Sombras de sombras”, Tinta da China
Mudado para português por  Marco Bruno

Justiça

Não importa do que estávamos falando,
perdidos no emaranhado sem saber aonde
escorar a cabeça, quando não na Espanha,
ou no nosso quintal envilecido, sobre o mapa
da África, ou no coração da Europa,
diante dos campos.

Éramos vários sentados à mesa
cuspindo argumentos;
era mais que uma cena do Dogma
como um cínico podia vê-la
à distância; porém não era um filme,
era um encontro de amigos em Caracas.

Impossível acalmar os ânimos.

Tão reais como abertas
as feridas
era o desejo de justiça.

 

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▪ Yolanda Pantin
(Venezuela 🇻🇪)
Mudado para português por  Gustavo Petter 



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

Justicia

 

No importa de qué estábamos hablando,
perdidos en marañas sin saber en dónde
sentar la cabeza, cuando no en España,
o en nuestro patio envilecido, sobre el mapa
de África, o en el corazón de Europa,
ante los campos.

Éramos varios sentados a la mesa
desgranando argumentos;
era más que una escena de Dogma
como un cínico podría verla
con distancia; pero no era una película,
era un encuentro de amigos en Caracas.

Imposible calmar los ánimos.

Tan reales como abiertas
las heridas,
era el deseo de justicia.

 

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▪ Yolanda Pantin

 

OS POEMAS MAIS BELOS

Os poemas mais belos
escrevem-se sobre pedras
com os joelhos em chagas
e as mentes aguçadas pelo mistério.
Os poemas mais belos escrevem-se
diante de um altar vazio,
rodeados de agentes
da loucura divina.
Assim, doido e criminoso como és,
ditas versos à humanidade,
os versos do resgate
e as profecias bíblicas
e és irmão de Jonas.
Mas sobre a Terra Prometida
onde germinam os pomos de ouro
e a árvore do conhecimento
Deus nunca desceu nem te amaldiçoou.
Mas tu sim, amaldiçoas
hora a hora o teu canto
porque desceste ao limbo,
onde inalas o absinto
de uma sobrevivência negada.

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▪ Alda Merini
( Itália 🇮🇹 )
Mudado para português por Clara Rowland

Vivi em amor e não no tempo

Quando a morte chegar e sussurrar:
“Os teus dias chegaram ao fim”,
vou dizer-lhe: “ Vivi em amor
e não no tempo.”
Se ela perguntar: “ E as tuas canções sobreviverão? “
Responderei: “ Não sei, mas de uma coisa tenho a certeza,
é que quando canto, encontro a minha eternidade.”

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▪ Rabindranath Tagore
( Índia 🇮🇳 )
Mudado para português por José Agostinho Baptista

QUANDO PELA PRIMEIRA VEZ

Quando pela primeira vez olhei uma pintura verdadeira
dei alguns passos atrás instintivamente
sobre os calcanhares
procurando o local exacto de
onde pudesse explorar sua profundidade.

Foi diferente com as pessoas:
Construi-as,
amei-as, mas não cheguei a amá-las plenamente.
Nenhuma chegou tão alto quanto o tecto azul.
Como numa casa inacabada, parecia haver uma folha de plástico por cima delas,
por vez do telhado
no princípio do outono chuvoso da minha compreensão.

 

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▪ Luljeta Lleshanaku
(Albânia 🇦🇱)
Poesia mudada para português por João Luis Barreto Guimarães

O PESSOPTIMISTA

Um dia um rapaz judeu que se tinha sentado ao meu
lado
surpreendeu-me com a pergunta: em que língua é
que estás a falar?
“Em árabe”.
“Com quem?”
“Com os peixes.”
“Os peixes percebem árabe?”
“Os peixes velhos sim.”
“E os peixes velhos também percebem hebraico?”
“Eles percebem hebraico, árabe e todas as línguas.
Os mares são vastos e fluem juntos. Não têm fronteiras,
e há espaço para todos os peixes.”
Dei-lhe um peixe pequeno. O rapaz falou para o
peixe, mas ele não respondeu. Ainda era muito novo.
Atirou-o de volta ao mar para que pudesse crescer e
aprender a falar.

 

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▪Emile Habibi
(Palestina-Israel 🇯🇴)
in “Antologia de Poesia Árabe”, Editora Contracapa
Versões de Marta Vidal e André Simões

A PALAVRA CERTA

Lá fora, à porta,
escondido pelas sombras,
está um terrorista.

A descrição está incorrecta?
Lá fora, àquela porta,
abrigando-se nas sombras,
está um combatente pela liberdade.

Não me exprimi bem.
Lá fora, à espera na sombra,
está um militante hostil.

As palavras não são mais
do que bandeiras que se agitam, titubeantes?
À sua porta,
vigilante na sombra,
está um guerrilheiro.

Deus me ajude.
Lá fora, desafiando todas as sombras,
está um mártir.
Vi o seu rosto.

Nenhumas palavras me podem ajudar agora.
Mesmo à porta,
perdido nas sombras,
está uma criança como as minhas.

Uma palavra para si.
À minha porta,
a mão bem firme,
os olhos muito duros,
está um jovem parecido com o seu filho, também.

Abro a porta.
Entra, digo-lhe.
Anda comer connosco.

O miúdo entra
e cuidadosamente, à porta,
tira os sapatos.

 

_
▪ Imtiaz Dharker
( Reino Unido 🇬🇧 )
in “The Terrorist at My Table”, Bloodaxe Books, Uk, 2006

*

Mudado para português por — Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹  Poeta, Tradutor e Matemático

Nota: Poema que integrou a “Revista LÓGOS – Biblioteca do tempo”. 



 

THE RIGHT WORD

 

Outside the door,
lurking in the shadows,
is a terrorist.

Is that the wrong description?
Outside that door,
taking shelter in the shadows,
is a freedom fighter.

I haven’t got this right .
Outside, waiting in the shadows,
is a hostile militant.

Are words no more
than waving, wavering flags?
Outside your door,
watchful in the shadows,
is a guerrilla warrior.

God help me.
Outside, defying every shadow,
stands a martyr.
I saw his face.

No words can help me now.
Just outside the door,
lost in shadows,
is a child who looks like mine.

One word for you.
Outside my door,
his hand too steady,
his eyes too hard
is a boy who looks like your son, too.

I open the door.
Come in, I say.
Come in and eat with us.

The child steps in
and carefully, at my door,
takes off his shoes.

 

_
▪ Imtiaz Dharker
( Uk 🇬🇧 )
From “The Terrorist at My Table”, Bloodaxe Books, Uk, 2006