Justiça

Não importa do que estávamos falando,
perdidos no emaranhado sem saber aonde
escorar a cabeça, quando não na Espanha,
ou no nosso quintal envilecido, sobre o mapa
da África, ou no coração da Europa,
diante dos campos.

Éramos vários sentados à mesa
cuspindo argumentos;
era mais que uma cena do Dogma
como um cínico podia vê-la
à distância; porém não era um filme,
era um encontro de amigos em Caracas.

Impossível acalmar os ânimos.

Tão reais como abertas
as feridas
era o desejo de justiça.

 

_
▪ Yolanda Pantin
(Venezuela 🇻🇪)
Mudado para português por  Gustavo Petter 



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

Justicia

 

No importa de qué estábamos hablando,
perdidos en marañas sin saber en dónde
sentar la cabeza, cuando no en España,
o en nuestro patio envilecido, sobre el mapa
de África, o en el corazón de Europa,
ante los campos.

Éramos varios sentados a la mesa
desgranando argumentos;
era más que una escena de Dogma
como un cínico podría verla
con distancia; pero no era una película,
era un encuentro de amigos en Caracas.

Imposible calmar los ánimos.

Tan reales como abiertas
las heridas,
era el deseo de justicia.

 

_
▪ Yolanda Pantin

 

OS POEMAS MAIS BELOS

Os poemas mais belos
escrevem-se sobre pedras
com os joelhos em chagas
e as mentes aguçadas pelo mistério.
Os poemas mais belos escrevem-se
diante de um altar vazio,
rodeados de agentes
da loucura divina.
Assim, doido e criminoso como és,
ditas versos à humanidade,
os versos do resgate
e as profecias bíblicas
e és irmão de Jonas.
Mas sobre a Terra Prometida
onde germinam os pomos de ouro
e a árvore do conhecimento
Deus nunca desceu nem te amaldiçoou.
Mas tu sim, amaldiçoas
hora a hora o teu canto
porque desceste ao limbo,
onde inalas o absinto
de uma sobrevivência negada.

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▪ Alda Merini
( Itália 🇮🇹 )
Mudado para português por Clara Rowland

Vivi em amor e não no tempo

Quando a morte chegar e sussurrar:
“Os teus dias chegaram ao fim”,
vou dizer-lhe: “ Vivi em amor
e não no tempo.”
Se ela perguntar: “ E as tuas canções sobreviverão? “
Responderei: “ Não sei, mas de uma coisa tenho a certeza,
é que quando canto, encontro a minha eternidade.”

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▪ Rabindranath Tagore
( Índia 🇮🇳 )
Mudado para português por José Agostinho Baptista

QUANDO PELA PRIMEIRA VEZ

Quando pela primeira vez olhei uma pintura verdadeira
dei alguns passos atrás instintivamente
sobre os calcanhares
procurando o local exacto de
onde pudesse explorar sua profundidade.

Foi diferente com as pessoas:
Construi-as,
amei-as, mas não cheguei a amá-las plenamente.
Nenhuma chegou tão alto quanto o tecto azul.
Como numa casa inacabada, parecia haver uma folha de plástico por cima delas,
por vez do telhado
no princípio do outono chuvoso da minha compreensão.

 

_

▪ Luljeta Lleshanaku
(Albânia 🇦🇱)
Poesia mudada para português por João Luis Barreto Guimarães

O PESSOPTIMISTA

Um dia um rapaz judeu que se tinha sentado ao meu
lado
surpreendeu-me com a pergunta: em que língua é
que estás a falar?
“Em árabe”.
“Com quem?”
“Com os peixes.”
“Os peixes percebem árabe?”
“Os peixes velhos sim.”
“E os peixes velhos também percebem hebraico?”
“Eles percebem hebraico, árabe e todas as línguas.
Os mares são vastos e fluem juntos. Não têm fronteiras,
e há espaço para todos os peixes.”
Dei-lhe um peixe pequeno. O rapaz falou para o
peixe, mas ele não respondeu. Ainda era muito novo.
Atirou-o de volta ao mar para que pudesse crescer e
aprender a falar.

 

_
▪Emile Habibi
(Palestina-Israel 🇯🇴)
in “Antologia de Poesia Árabe”, Editora Contracapa
Versões de Marta Vidal e André Simões

A PALAVRA CERTA

Lá fora, à porta,
escondido pelas sombras,
está um terrorista.

A descrição está incorrecta?
Lá fora, àquela porta,
abrigando-se nas sombras,
está um combatente pela liberdade.

Não me exprimi bem.
Lá fora, à espera na sombra,
está um militante hostil.

As palavras não são mais
do que bandeiras que se agitam, titubeantes?
À sua porta,
vigilante na sombra,
está um guerrilheiro.

Deus me ajude.
Lá fora, desafiando todas as sombras,
está um mártir.
Vi o seu rosto.

Nenhumas palavras me podem ajudar agora.
Mesmo à porta,
perdido nas sombras,
está uma criança como as minhas.

Uma palavra para si.
À minha porta,
a mão bem firme,
os olhos muito duros,
está um jovem parecido com o seu filho, também.

Abro a porta.
Entra, digo-lhe.
Anda comer connosco.

O miúdo entra
e cuidadosamente, à porta,
tira os sapatos.

 

_
▪ Imtiaz Dharker
( Reino Unido 🇬🇧 )
in “The Terrorist at My Table”, Bloodaxe Books, Uk, 2006

*

Mudado para português por — Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹  Poeta, Tradutor e Matemático

Nota: Poema que integrou a “Revista LÓGOS – Biblioteca do tempo”. 



 

THE RIGHT WORD

 

Outside the door,
lurking in the shadows,
is a terrorist.

Is that the wrong description?
Outside that door,
taking shelter in the shadows,
is a freedom fighter.

I haven’t got this right .
Outside, waiting in the shadows,
is a hostile militant.

Are words no more
than waving, wavering flags?
Outside your door,
watchful in the shadows,
is a guerrilla warrior.

God help me.
Outside, defying every shadow,
stands a martyr.
I saw his face.

No words can help me now.
Just outside the door,
lost in shadows,
is a child who looks like mine.

One word for you.
Outside my door,
his hand too steady,
his eyes too hard
is a boy who looks like your son, too.

I open the door.
Come in, I say.
Come in and eat with us.

The child steps in
and carefully, at my door,
takes off his shoes.

 

_
▪ Imtiaz Dharker
( Uk 🇬🇧 )
From “The Terrorist at My Table”, Bloodaxe Books, Uk, 2006

 

DEZ TANKA

the first wind
of autumn and
still no moon
to carry me
into winter

primeiro vento
de outono
e lua nenhuma
para me levar
até ao inverno

*

there you are
midway through a
dream, telling
me the moon is
made of paper

ali estás
a meio de um
sonho, dizendo-me
que a lua é
feita de papel

*

they play cards
on the floor of the
wet market,
sandwiched between
the cries of fish

jogam às cartas
no chão molhado
do mercado,
entre os gritos
dos peixes

*

twilight. . .
passersby paint
the walls of
the cemetery
with shadows

crepúsculo…
transeuntes pintam
com sombras
as paredes
do cemitério

*

she acts
as if darkness
was more than
a lover walking
on telephone lines

ela age
como se a escuridão
fosse mais do que
um amante a caminhar
por linhas telefónicas

*

the look she
gave me when i
handed her
a bag of peanuts
nailed to the sky

o olhar que ela
me deitou quando
lhe entreguei
um saco de amendoins
pregado ao céu

*

almost 60,
this gnarled tree reminds
me of an old
man riding a bicycle
in his underwear

quase 60,
esta árvore retorcida
lembra-me um velho
em roupa interior
a andar de bicicleta

*

this breeze
and the song sung
on limbs
by small leaves
pretending to be birds

esta brisa
e a canção cantada
nos ramos
por folhas novas
fingindo serem pássaros

*

a shooting
star races past
me on its
way to another
man’s pocket

uma estrela
cadente passa
por mim depressa
a caminho do bolso
de outro homem.

*
what is winter
to patients waiting
in line to
use the hospital
ward’s one toilet?

o que é o inverno
para os doentes na fila
à espera de usar
a única casa de banho
da enfermaria?

 

_

▪ Robert D Wilson
(U.S.A. 🇺🇲)
Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático)