HÓSPEDE

Abri as portas da minha casa
as portas do meu tempo
as portas do meu nada
a um hóspede com joelhos de areia
que me traz o pequeno almoço à cama
e faz amor comigo usando as palavras remotas
de todos os degelos passados.

Nada de sério,
um clique da memória,
efémero,
uma aventura adolescente
que não imporá quarentena.
Um assobio de regresso
e voltarei alegre,
porque alegres são os reencontros
e até as melancolias.

O hóspede cheira ao tabaco preto
dos meses do pós-guerra
– espessa-me o sangue, causa trombos –
perfila sombras contra a minha luz.
Cheira a lúpulo e ao despertar de agosto,
adelgaça a cintura das minhas tardes
e incita-me a beijar os lábios do tempo.

Este meu hóspede parece-se tanto com a ausência
– carta timbrada na cidade que um poeta inventou –
que essa certeza me deixa vazia.
A minha casa.
O meu tempo.
O meu nada.

 

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▪ Carmem Ruiz Fleta
( Espanha 🇪🇦 )

Mudado para português por — Maria Soledade Santos 🇵🇹  Poeta, tradutora e professora

QUE TEMPOS SÃO ESTES

Há um lugar entre dois renques de árvores onde a erva cresce colina acima
e a velha estrada revolucionária se desfaz em sombras
perto de uma capela abandonada pelos perseguidos
que desapareciam naquelas sombras.
Eu andei por lá colhendo cogumelos à beira do pavor, mas não se enganem
isto não é um poema russo, isto não está noutro lugar, mas aqui,
o nosso país aproximando-se da sua própria verdade e pavor,
as suas próprias maneiras de fazer as pessoas desaparecerem.
Não te vou dizer onde fica este lugar, onde a malha escura da floresta
encontra a súbita faixa de luz —
encruzilhada de fantasmas, paraíso de folhagem:
Já sei quem quer comprá-lo, vendê-lo, fazê-lo desaparecer.
E se não te vou dizer onde fica, porque estou então a falar
contigo? Porque tu ainda ouves, porque em tempos como estes
para que tu ouças, é necessário
falar de árvores.

 

 

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▪ Adrienne Rich
( E.U.A. 🇺🇲 )

Mudado para português por Jorge Sousa Braga

Na manhã seguinte Cesare Pavese não pediu pequeno almoço

Desceu sozinho do comboio,
atravessou a cidade deserta sozinho,
entrou sozinho no hotel vazio,
abriu o seu quarto solitário
e, surpreendido, ouviu o silêncio.
Diz-se que pegou no telefone
para ligar a alguém,
mas é mentira, completamente falso.
Não havia ninguém a quem telefonar,
não vivia ninguém na cidade, nem no mundo.
Bebeu a água, os pequenos comprimidos,
e esperou a chegada do sono.
Com algum medo da sua coragem
– afirmara pela primeira vez a sua existência –
curioso talvez, com um gesto cansado,
sentiu o peso das pálpebras a fecharem-se.
Horas mais tarde – um estranho sorriso desenhava-lhe os lábios –
anunciou a si próprio, teimosamente,
a única certeza que, por fim, adquirira:
não voltaria a dormir sozinho num quarto de hotel.

 
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▪ Juan Luis Panero
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho

UM HOMEM

Um homem
tinha sempre vontade
de irromper pelo palco
durante uma representação teatral
e fazer algo indecente.

Esse homem foi consultar
um psicólogo.
O psicólogo tinha um passatempo:
coleccionava moscas
e cabides roubados
em centros comerciais.

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▪ Jan Kaus
( Estónia 🇪🇪 )
Mudado para português por Vasco Gato

CAFÉ NA PRAIA

O café está aberto anda,
os mortos estão lá sentados
em cadeiras acorrentadas, bebendo vinho
À nossa custa. Há algumas casas –
Retiradas do mar – a ver.
Um pedinte recolhe moedas e
atira -as aos mortos como um sacrifício.
Do bar, estendendo-se até ao mar,
há uma estreita faixa de luz
pela qual os mortos se afastam,
sobre a água. Permanecemos, ali sentados,
até o dia esfregar os olhos.

 

 

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▪ Michael Krüger
( Alemanha 🇩🇪 )
in “ Deus escreveu demasiado”, edição do lado esquerdo,2022
Tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho

EIS TUDO QUANTO ME RESTA, ESTE DESEJO

Eis tudo quanto me resta, este desejo:
Que, no aconchego da noite,
Me deixem morrer
E serenamente dormir
O mais próximo possível de um bosque.
Desejaria para os meus pés,
Sob um claro céu deitado,
A imensa praia do mar.
Não exijo cortejo fúnebre
Nem um sumptuoso ataúde,
Que alguém me construa um leito,
Um leito de arbustos me basta.

Nada de lágrimas sobre o meu túmulo,
Que apenas alguém escute,
Na voz do outono e do vento,
O vagaroso rumor das folhas a cair.
Pelo murmúrio das fontes,
Passam a dulcíssima lua,
De cume em cume, resvaladiça
Por sobre os abetos,
E, agravado pelo estribilho
De chocalhos ao longe,
O frio vento da noite.
Que um amante da flor da tília
Se debruce sobre o meu leito.
Nunca serei um exilado
Para o futuro.
E carinhosamente, as reminiscências
Poderão vir a ocultar-me
De todo o ócio.
Protegidas pelos negros abetos,
As estrelas da tarde
Voltarão a sorrir-me.
E as paixões poderão bramir
No ávido suspiro do mar.
Solitário, serei terra,
Terra restituída à terra.

 

–
▪ Mihai Eminescu
( Roménia 🇹🇩 )
in “Transversões, Poemas Reescrito Para Português”, por Zetho Cunha Gonçalves
Editora Contracapa, 2021

OS MEUS MESTRES

 

Os meus mestres não são infalíveis.
Não se trata de Goethe, que só conseguia
adormecer quando ao longe
gemiam os vulcões, nem de Horácio,
que escrevia na língua dos deuses
e dos sacerdotes. Os meus mestres
pedem-me conselhos. Vestindo macios
sobretudos deitados velozmente
por cima dos sonhos, ao romper dia, quando o vento
fresco interroga os pássaros, os meus
mestres falam por sussurros.
Consigo ouvir a sua voz trêmula. 

 

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▪ Adam Zagajewski
( Polónia 🇵🇱 )
in “Sombras de sombras”, Tinta da China
Mudado para português por  Marco Bruno