OS PRIMEIROS MOMENTOS

Amo os primeiros momentos da manhã
aqueles momentos que ainda ninguém usou
tão limpos
que deves lavar os pés antes de os habitares
aqueles momentos que cheiram como pétalas de rosa e erva cortada
e encharcam a tua roupa com orvalho

Irás chocar com segredos
descobrir milagres cobertos habitualmente pelo fumo dos autocarros
escutarás puros ecos sussurros e corridas precipitadas

Amo os primeiros momentos da manhã
quando o sol tem um só olho aberto
e o dia é como uma camisa lavada
sem vincos e pronta a usar
aqueles momentos que prendem a tua atenção
por serem tão sossegados

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▪Coral Rumble
( Inglaterra 🇬🇧 )
Mudado para português por Jorge Sousa Braga

 

MISTÉRIOS, SIM

Na verdade, vivemos com mistérios demasiado maravilhosos
para serem entendidos.
Como pode a erva ser nutritiva
na boca dos cordeiros.
Como podem os rios e as pedras estar em permanente
aliança com a gravidade
enquanto nós ansiamos elevar-nos.
Como podem duas mãos ao tocar-se firmar laços
que nunca mais se quebram.
Como é que as pessoas, vindas do prazer ou
das cicatrizes dos golpes,
chegam ao conforto de um poema.

Deixem-me manter sempre a distância
dos que pensam ter todas as respostas.

Deixem-me ficar na companhia dos que dizem
“Olhem!” e riem de assombro
e inclinam reverentes a cabeça.

 

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▪ Mary Oliver
( E.U.A. 🇺🇲 )
Mudado para português por Soledade Santos

COMO LOBOS EM PERÍODO DE SECA

Como lobos em período de seca
crescemos por toda a parte
amamos a chuva
amamos o outono
um dia até pensamos
em enviar uma carta de agradecimento ao céu
com uma folha de outono como selo de correio
acreditávamos que as montanhas desapareceriam
os mares se dissipariam
apenas o amor seria eterno
de súbito separamo-nos
ela gostava de sofás compridos
e eu de longos navios
ela gostava de sussurrar e suspirar nos cafés
eu gostava de saltar e gritar nas ruas
e, apesar de tudo,
os meus braços vastos como o universo
estão à espera dela

 

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▪ Muhammad al-Maghut
(Síria 🇸🇾)
Poema mudado para português por Adalberto Alves

ANTIMATÉRIA

No outro lado de um espelho há um mundo ao contrário,
onde os loucos se curam; onde os ossos saem da
terra e recuam até ao sedimento inicial do amor.

E à noitinha o sol está a nascer.

Os amantes choram porque estão um dia mais novos, e em breve
a infância lhes roubará o prazer.

Nesse mundo há muita tristeza que, claro, é alegria.

 

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▪ Russell Edson
(E.U.A. 🇺🇸)
Poema mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho

EXERCÍCIOS REAIS

Eu não gostava de ser rei.
Os reis praticamente
não têm vida própria. Têm sempre
que ter juízo, têm sempre que
prestar atenção. E não se pode estar sempre
com atenção. Sempre a cumprimentar.
Máquina de cumprimentos. Máquina
de apertar mãos. Não pode calçar
quaisquer sapatos. Ele bem queria
os azuis. Mas não pode. Porque tem
de calçar os castanhos. Houve alguém
que inventou isto. Tomam conta
do rei. E também ele
toma conta de si. Para não
sujar a camisa. Tem logo que
vestir outra. Da reserva.
Camisas de serviço. Tem à mão
a reserva. Nem uma pedrinha
pode ter na sopa. No entanto,
uma vez encontrou uma
no puré de legumes. O cozinheiro
ficou tramado. Não o tramem. No fundo,
o rei sentiu-se feliz por encontrar
uma pedra no puré de legumes.
Não tinha ideia de encontrar
fosse o que fosse no puré de legumes.
E logo uma pedra! Até que enfim,
alguma coisa lhe aparecia na sopa.
Enfim, alguma coisa. Aconteceram
coisas. É certo que quase cuspiu
um dente. Esteve quase
para partir um dente. E
afinal não partiu. Ficou
a abanar, mas ficou lá.
Chamaram o cozinheiro.
Mostraram-lhe a pedra.
Dias a fio o pobre cozinheiro
andou mesmo desesperado.
Ainda bem que nada de mal
aconteceu. Rapidamente tudo
foi esquecido. Esqueceram.
Este caso também.
E não se falou mais nisso.

 

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▪️Endre Kukorelly
(Hungria 🇭🇺)
Mudado para português por Fernando Pinto do Amaral

POR DENTRO

A caminho de tua casa para uma festa de amor
a uma esquina vi
uma velha pedinte.

Peguei-lhe na mão,
beijei-lhe a face delicada,
falámos,
por dentro era como eu,
a mesma natureza,
percebi logo isso
como um cão conhece outro
pelo cheiro.

Dei-lhe dinheiro,
não conseguia afastar-me dela.
No fim de contas, precisamos
de alguém que nos seja próximo.

E depois não sabia já
por que estava a ir para tua casa.

 

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▪ Anna Swir
( Polónia 🇵🇱 )
Mudado para português por Francisco Craveiro de Carvalho,a partir da tradução inglesa de Czeslaw Milosz & Leonard Nathan