UMA FOLHA DE ERVA

Pedes-me um poema.
Ofereço-te uma folha de erva.
Dizes que não chega.
Pedes-me um poema.

Eu digo que esta folha de erva basta.
Vestiu-se de orvalho.
É mais imediata
Do que alguma imagem minha.

Dizes que não é um poema.
É uma simples folha de erva e a erva
Não é suficientemente boa.
Ofereço-te uma folha de erva.

Estás indignada.
Dizes que é fácil oferecer uma folha de erva.
Que é absurdo.
Qualquer um pode oferecer uma folha de erva.

Pedes-me um poema.
E então escrevo uma tragédia àcerca
De como uma folha de erva
Se torna cada vez mais difícil de oferecer

E de como quanto mais envelheces
Uma folha de erva
Se torna mais difícil de aceitar.

 

–
▪Brian Patten
( Inglaterra 🇬🇧 )
Mudado para português por Jorge Sousa Braga

EU QUERIA ESCREVER MAS

Eu queria escrever mas
porque é que se tem de organizar tudo

tão exactamente

As coisas não são tão rigorosas

A estrada do tinteiro à página
é comprida demais e além disso
é preciso segurar a pena de uma
maneira especial como eu fazia quando tinha seis anos e
a língua pousava no – era o canto esquerdo
da boca? e eu aprendi tudo o que
quer que foi
que eu aprendi

Agora aprendi algo diferente

Despejo o tinteiro no papel
Dá uma imagem do que eu quero dizer
Dá uma imagem perfeitamente clara
de tudo o que aprendi

 

__

▪ Lars Forssell
(Suécia  🇸🇪 )
Mudado para português por Vasco da Graça Moura

UM HOMEM E UMA PORTA

Um homem carrega uma porta
pela rua fora.
Procura a sua casa.

Ele sonhou
com a mulher, filhos e amigos,
a entrarem através daquela porta.
Agora vê o mundo todo,
a entrar através da porta
da sua casa ainda por construir:
homens, veículos, árvores,
animais, pássaros, tudo.

E a porta, o seu sonho
erguendo-se acima da terra,
anseia ser a porta dourada do paraíso.
Imagina nuvens, arco-íris,
demónios, fadas e santos
passando através dela.

Mas é o senhor do inferno
quem guarda a porta.
E agora deseja apenas ser uma árvore
cheia de folhas,
ondulando na brisa,
para providenciar alguma sombra,
ao seu carregador sem abrigo.

Um homem carrega uma porta
ao longo da rua.
Um homem e uma estrela.

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▪ K. Satchidanandan
( Índia 🇮🇳)
Mudado para português por Jorge Sousa Braga

PADRE

O Tio Knut era padre.
Era um homem prático, mas para ele
o Latim era Grego.
Morreu depois da reforma, estava
a escavar o local para a sua casa nova
quando o coração deu de si.

Mais um electricista
que um pregador, começava sempre a homilia
dizendo: “Não sou muito de discursos”
e quanto a isso estava certo.

Realmente não tinha muito a ensinar
aos paroquianos, eles tinham seus próprios problemas
com os nascimentos, o amor, com as mortes,
e ele não possuía palavras para tais coisas.

Mas aprendera como consertar
fios eléctricos e visitava as gentes em suas casas
e reparava curtos-circuitos e caixas
de fusíveis com defeito, atarraxava lâmpadas no sítio

e onde quer que ele tivesse estado, havia luz.

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▪ Knut Ødegård
(Noruega 🇳🇴)
Mudado para português por João Luis Barreto Guimarães

POEMA PARA UMA FILHA

“Eu acho que a vou ter!”
disse eu, brincando entre as dores.
A parteira enrolou com competência
as mangas nos braços leitosos e corpulentos.
“Querida, tu nunca a vais ter,
mas sim pari-la”.
Um juízo que os anos revelaram ser verdadeiro.
Com certeza, eu nunca te tive,
como tu ainda me tens, Caroline.
Por que é que uma mãe precisa de uma filha?
Uma agulha no coração, refém da sorte,
o fim da liberdade. No entanto, nada é mais perfeito
do que aquele balido, aquele choro em forma de lâmina
que uma mãe passa ao seu bebé.
A pinça do cordão que segura
as suas esferas. A pequena
criança, sozinha, cria a mãe.
A vida de uma mulher é sua
até que lhe seja levada
por um primeiro e particular choro.
Então ela deixa de estar só
e passa a fazer parte das premissas
de tudo o que existe:
um tempo, uma tribo, uma guerra.
Só quando pertencemos ao mundo
nos tornamos no que somos.

 

_

▪ Anne Stevenson
(E.U.A. 🇺🇲 / U.K 🇬🇧)
Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga

 

O COMITÉ AVALIA

Digo a minha mãe que
ganhei o Prémio Nobel.

De novo? diz ela. Em qual
categoria desta vez?

É uma brincadeira
que fazemos: eu finjo

que sou alguém, ela
finge que não está morta.

 

_

▪ Andrea Cohen
(E.U.A. 🇺🇲)
Mudado para português por _ Nelson Santander

 

*

 

The Committee Weighs In

 

I tell my mother
I’ve won the Nobel Prize.

Again? she says. Which
discipline this time?

It’s a little game
we play: I pretend

I’m somebody, she
pretends she isn’t dead.

 

_

▪ Andrea Cohen
(U.S.A. 🇺🇲)
in “Nightshade”, Four Way Books, 2019