POEMA DE AMOR

Há algo sempre a ser feito de dor.
A tua mãe faz malha.
Produz cachecóis em todos os tons de vermelho.
Eram para o Natal e aqueciam-te
enquanto ela se fartava de casar, levando-te
consigo. Como podia resultar
quando, naqueles anos todos, ela arrecadou o seu
____________________________[coração viúvo
como se os mortos voltassem.
Não surpreende que sejas como és,
com medo do sangue, parecendo as tuas mulheres
uma parede de tijolos após outra.

 

_
▪ Louise Glück
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “Descending Figure”, Ecco Press, Nova Iorque York, 1980

*

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹  Poeta, Tradutor e Matemático


LOVE POEM

 

There is always something to be made of pain.
Your mother knits.
She turns out scarves in every shade of red.
They were for Christmas, and they kept you warm
while she married over and over, taking you
along. How could it work,
when all those years she stored her widowed heart
as though the dead come back.
No wonder you are the way you are,
afraid of blood, your women
like one brick wall after another.

 

_
▪ Louise Glück
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “Descending Figure”, Ecco Press, New York, 1980

 

LAGOA

E o anjo disse então: vou revelar-te
o que pintam agora os mestres antigos. E
levou-me a outra sala e mostrou-me uma
paisagem: uma lagoa de águas verde-azuladas, com
vestígios de um naufrágio e uma multidão em cada
margem.
Quem são, perguntei; porque choram.
Os que nasceram no século da morte da
morte, respondeu; os que nunca mais poderão
atravessar para o outro lado.

 

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▪ Abraham Gragera
(Espanha 🇪🇸 )
in “El tiempo menos solo”, Editorial Pre-Textos, Valencia, 2013

*

Mudado para português por — Maria Soledade Santos 🇵🇹 Poeta, Tradutora e Professora.

Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.
Mantém os blogues de poesia e tradução: Metade do Mundo Mudanças & Cia


 
LAGUNA

 

Y el ángel dijo entonces: te enseñaré qué
pintan ahora los maestros antiguos. Y
me llevó a otra sala, y me mostró un
paisaje: una laguna de aguas verdiazules, con
huellas de un naufragio, y una multitud en cada
orilla.
Quiénes son, pregunté; por qué lloran.
Los que nacieron en el siglo de la muerte de
la muerte, respondió; los que ya nunca podrán
cruzar al otro lado.

 

_
▪ Abraham Gragera
(Espanha 🇪🇸 )
in “El tiempo menos solo”, Editorial Pre-Textos, Valencia, 2013

 

RECORDAÇÃO MAIS ANTIGA

Há muito tempo, eu estava magoada. Vivia
para me vingar
do meu pai, não
pelo que ele era—
por aquilo que eu era: desde o início,
na infância, pensava
que a dor indicava
que não me amavam.
Indicava que eu amava.

 

_
▪ Louise Glück
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “Ararat”, Ecco Press, Nova Iorque, 1990

*

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹  Poeta, Tradutor e Matemático



FIRST MEMORY

 

Long ago, I was wounded. I lived
to revenge myself
against my father, not
for what he was—
for what I was: from the beginning of time,
in childhood, I thought
that pain meant
I was not loved.
It meant I loved.

 

_
▪ Louise Glück
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “Ararat”, Ecco Press, New York, 1990

 

EU NUNCA FUI CAPAZ DE REZAR

Guia-me até ao porto
onde o farol jaz abandonado
e a lua range nas vigas de madeira.

Deixa-me ouvir o vento chamar por entre as árvores
e ver as estrelas irromperem, uma a uma,
como os rostos esquecidos dos mortos.

Eu nunca fui capaz de rezar,
mas deixa-me gravar o meu nome
no livro das ondas

e depois olhar intensamente a cúpula
de um céu que não tem fim
e ver a minha voz navegar pela noite dentro.

 

_
▪ Edward Hirsch
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “Trocando dólares por cêntimos” – Alguma poesia norte-americana – Versões de Luís Filipe Parrado 🇵🇹, Editora Contracapa, Amarante, 2020

 


 

I WAS NEVER ABLE TO PRAY

 

Wheel me down to the shore
where the lighthouse was abandoned
and the moon tolls in the rafters.

Let me hear the wind paging through the trees
and see the stars flaring out, one by one,
like the forgotten faces of the dead.

I was never able to pray,
but let me inscribe my name
in the book of waves

and then stare into the dome
of a sky that never ends
and see my voice sail into the night.

 

_
▪ Edward Hirsch
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “The Living Fire: New and Selected Poems, 1975-2010”, New York: Alfred A. Knopf, 2010

VIDA RETIRADA

não tenho pressa de sair da cama, agora não há nada a fazer em casa
não tenho nada em particular a iniciar, o sítio é pacífico
a luz dos bambus concentra a cor da paisagem
o reflexo da minha cabana move-se na corrente do rio
as minhas crianças não vão à escola, deixo-as preguiçar por aí
sempre pobre, a minha mulher preocupa-se
cem anos de preocupações, cem anos de delírio
há um mês sem me pentear

 

_
▪ Tu Fu
( China  🇨🇳 )
in “Entre Céu e Terra”, Editora Licorne, Évora, 2020

*

Transgressão de _ Manuel Silva-Terra 🇵🇹 Poeta e editor

Dentro de mil anos não restará nada

Dentro de mil anos não restará nada
do quanto se há escrito neste século.
Lerão frases soltas, rastros
de mulheres perdidas,
fragmentos de crianças imóveis,
teus olhos lentos e verdes
simplesmente não existirão.
Será como a Antologia Grega,
ainda mais distante,
como uma praia no inverno
para outro assombro e outra indiferença.

 

_
▪ Roberto Bolaño
(Chile, n. 1953-2003)
in “La Universidad Desconocida”, Editorial Anagrama, Barcelona ESP
Tradução – Gustavo Petter (SP-BR)

NÚMEROS

Gosto da generosidade dos números.
Do modo como, por exemplo,
desejam contar
alguma coisa ou alguém:
dois legumes em vinagre, uma porta para o quarto,
oito bailarinas vestidas de cisnes.

Gosto da domesticidade da adição —
adicione dois copos de leite e agite —
do sentido da abundância: seis ameixas
no chão, mais três
a cair da árvore.

E das multiplicações escolares
de peixes vezes peixes,
os seus corpos prateados aumentando
sob a sombra
de um barco.

Mesmo a subtracção nunca significa perda,
apenas soma em qualquer outro lugar:
de cinco pardais tiram-se dois,
os dois que estão agora
no jardim de alguém.

Há uma amplitude imensa na divisão,
dentro de uma caixa chinesa
abre-se uma caixa de papel,
dentro de cada biscoito dobrado
uma nova fortuna.

E nunca deixa de me surpreender
a dádiva de um excedente que resta,
liberto no fim de tudo:
quarenta e sete divididos por onze dá quatro,
e sobram três.

Três rapazes para além do chamamento das suas mães,
dois italianos livres do mar,
uma meia que nunca está onde a procuras.

 

_
▪ Mary Cornish
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “Trocando Dólares por cêntimos” / Alguma Poesia Norte-Americana, Editora Contracapa, 2020

*

Mudado para português por _ Luís Filipe Parrado  🇵🇹  Poeta, Tradutor e Professor



 

NUMBERS

 

I like the generosity of numbers.
The way, for example,
they are willing to count
anything or anyone:
two pickles, one door to the room,
eight dancers dressed as swans.

I like the domesticity of addition—
add two cups of milk and stir—
the sense of plenty: six plums
on the ground, three more
falling from the tree.

And multiplication’s school
of fish times fish,
whose silver bodies breed
beneath the shadow
of a boat.

Even subtraction is never loss,
just addition somewhere else:
five sparrows take away two,
the two in someone else’s
garden now.

There’s an amplitude to long division,
as it opens Chinese take-out
box by paper box,
inside every folded cookie
a new fortune.

And I never fail to be surprised
by the gift of an odd remainder,
footloose at the end:
forty-seven divided by eleven equals four,
with three remaining.

Three boys beyond their mother’s call,
two Italians off to the sea,
one sock that isn’t anywhere you look.

_
▪ Mary Cornish
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “Red Studio”, Oberlin College Press, 2007

 

CARIDADE

As dificuldades fizeram-lhe bem,
fizeram com que tudo para ela deixasse de ser banal,
deixasse de estar sempre a rir,
de brilhar na caça dos maridos das outras.

As dificuldades fizeram-na pensar;
puseram-na no seu lugar,
roubaram-lhe a confiança.
As dificuldades suavizaram o mau gosto.

Sob as nódoas negras ela parece mais merecedora:
alguém a quem lançar uma corda nos deixaria satisfeitos,
alguém a quem mandar as nossas blusas usadas
ou a fruta bichosa derrubada pelo vento.

 

_
▪ Connie Bensley
( Inglaterra 🇬🇧 )

Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹  Poeta, Tradutor e Matemático



 

CHARITY

 

Trouble has done her good,
trouble has stopped her trivializing everything,
giggling too much,
glittering after other people’s husbands.

Trouble has made her think;
taken her down a peg,
knocked the stuffing out of her.
Trouble has toned down the vulgarity.

Under the bruises she looks more deserving:
someone you’d be glad to throw a rope to,
somewhere to send your old blouses
or those wormy little windfalls.

 

_
▪ Connie Bensley
( England 🇬🇧 )