CONTRA A POESIA DE AMOR

Casamos no verão, trinta anos atrás. Desde esse dia que te amo
profundamente. Amei outras coisas também.
Entre elas, a ideia da liberdade das mulheres. Por que coloco estas
palavras lado a lado? Porque o casamento não é
liberdade. Porque cada palavra que escrevo é contra a poesia de amor.
A poesia de amor não pode fazer justiça a isto. Esta é a recordação de uma
história dentro de outra história distante: um grande rei perdeu uma guerra e os seus inimigos
obrigaram-no a desfilar acorrentado pela cidade. Provocaram-no. Trouxeram
a mulher e os filhos – e ele não demonstrou qualquer emoção. Trouxeram
os seus cortesãos – e ele não demonstrou qualquer emoção. Trouxeram
o criado mais velho – só então ele se descaiu e chorou. Não encontrei
a minha feminilidade nas servidões do costume. Mas vi a minha
humanidade ali a olhar para mim. É para assinalar as contradições diárias
do amor que escrevi isto. Contra a poesia de amor.

 

_
▪ Eavan Boland
( Irlanda 🇨🇮 )
in “Against Love Poetry”, W. W. Norton & Company, New York , 2001

*

Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga 🇵🇹 Poeta, Tradutor e Médico



 

AGAINST LOVE POETRY

 

We were married in summer, thirty years ago. I have loved you
deeply from that moment to this. I have loved other things as well.
Among them the idea of women’s freedom. Why do I put these
words side by side? Because I am a woman. Because marriage is not
freedom. Therefore, every word here is written against love poetry.
Love poetry can do no justice to this. Here, instead, is a remembered
story from a faraway history: A great king lost a war and was paraded
in chains through the city of his enemy. They taunted him. They
brought his wife and children to him—he showed no emotion. They
brought his former courtiers—he showed no emotion. They brought
his old servant—only then did he break down and weep. I did not
find my womanhood in the servitudes of custom. But I saw my
humanity look back at me there. It is to mark the contradictions of
a daily love that I have written this. Against love poetry.

 

_
▪ Eavan Boland
(Ireland 🇨🇮 )
From “Against Love Poetry”, W. W. Norton & Company, New York , 2001

 

QUARENTENA

Na pior hora da pior estação
do pior ano de todo um povo
um homem saiu do albergue com a mulher
e caminhou- caminharam os dois – para norte.

Ela estava doente com a febre da fome e não o conseguia acompanhar.
Ele levantou-a e colocou-a às costas.
E caminhou assim para oeste, para oeste e para norte,
até ao anoitecer, sob as estrelas geladas.

De manhã, os dois foram encontrados mortos.
De frio. De fome. Das toxinas de toda uma história.
Mas os pés dela apoiavam-se no esterno dele.
O último calor da sua carne foi o último presente para ela.

Que nenhum poema de amor jamais chegue a este limite.
Não há aqui lugar aqui para o impreciso
louvor da elegância e da sensualidade do corpo.
Apenas tempo para este inventário impiedoso:

A sua morte no inverno de 1847.
O que sofreram. E como viveram.
E o que existe entre um homem e uma mulher.
E em que escuridão se pode ver melhor.

 

_
▪ Eavan Boland
( Irlanda 🇨🇮 )
in “New Collected Poems”, Manchester, Carcanet Press, 2013

Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga 🇵🇹 Poeta, Tradutor e Médico



 

QUARANTINE

 

In the worst hour of the worst season
of the worst year of a whole people
a man set out from the workhouse with his wife.
He was walking—they were both walking—north.

She was sick with famine fever and could not keep up.
He lifted her and put her on his back.
He walked like that west and west and north.
Until at nightfall under freezing stars they arrived.

In the morning they were both found dead.
Of cold. Of hunger. Of the toxins of a whole history.
But her feet were held against his breastbone.
The last heat of his flesh was his last gift to her.

Let no love poem ever come to this threshold.
There is no place here for the inexact
praise of the easy graces and sensuality of the body.
There is only time for this merciless inventory:

Their death together in the winter of 1847.
Also what they suffered. How they lived.
And what there is between a man and woman.
And in which darkness it can best be proved.

 

_
▪ Eavan Boland
( Ireland 🇨🇮 )
From “New Collected Poems”, Manchester, Carcanet Press, 2013

 

PRIMAVERA DE GUERRA

Mas quando todos os rios abrangerem as suas margens
como uma recordação, os campos alarmando-se ao ruído
das cavalgadas do Sul,
Eis os lavradores, pesados artilheiros de capacete preto e
dourado, que vão espezinhar as calmas primaveras,
Eis os canhões lentos triando as quartas e as oitavas do
quadro rural. E as suas rodas irão gravar a dor do sulco.
A bateria no pequeno bosque romperá entre as grandes
nuvens de pinheiros-brancos e vai saltar pelos jardins com
as macieiras desabrochadas em direcção ao céu. E a queda
das suas granadas preencherá o nosso século.
As noites deixarão de ser descoradas peregrinas: as noites
sofrerão como tísicas que cospem desejando o sangue:
uma lava de obuses.
As estufas de túlipas ajoelhadas na Flandres terão lábios
vermelhos, dir-se-iam cocotes de Paris, pois todos os filhos
de burgueses do país dormiram nas suas camas.
E colunas azuis, colunas pretas sairão cantando do
recôncavo dos prados molhados: soldados de cinabre,
soldados de fogo morrerão abraçando a última Vida.

 

_
▪ Yvan Goll
( Franco-Alemão 🇫🇷🇩🇪 )
in “Elegias Internacionais – panfletos contra esta guerra (1915)”, Editora Língua Morta
Mudado para português por Diogo Paiva 🇵🇹
 

NO ANIVERSÁRIO DA MINHA MORTE

Todos os anos, sem me dar conta, passa o dia
Em que os últimos incêndios se despedem
E o silêncio se instala
Viajante incansável
Como os raios de luz de uma estrela já extinta

Então já não
Estarei nesta vida vestindo uma roupa estranha
Surpreendido na terra
Pelo amor de uma mulher
E a audácia dos homens
Escrevo hoje depois de três dias de chuva
e ouço a carriça a cantar e a tempestade cessar
E curvo-me sem saber perante o quê

 

_
▪ W. S. Merwin
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “The Second Four Books of Poems (Port Townsend)”, Washington, Copper Canyon Press, 1993

Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga 🇵🇹 Poeta, Tradutor e Médico



 

FOR THE ANNIVERSARY OF MY DEATH

 

Every year without knowing it I have passed the day
When the last fires will wave to me
And the silence will set out
Tireless traveler
Like the beam of a lightless star

Then I will no longer
Find myself in life as in a strange garment
Surprised at the earth
And the love of one woman
And the shamelessness of men
As today writing after three days of rain
Hearing the wren sing and the falling cease
And bowing not knowing to what

 

_
▪ W. S. Merwin
( U.S.A. 🇺🇲 )
From “The Second Four Books of Poems (Port Townsend)”, Washington, Copper Canyon Press, 1993

 

POEIRA

Alguém falou comigo ontem à noite,
disse-me a verdade. As palavras foram escassas,
mas reconheci-a.
Percebi que deveria arranjar maneira de me levantar,
anotá-la, mas era tarde,
e eu estava estafada do dia inteiro
a trabalhar no quintal, mudando pedras de lugar.
Agora, recordo apenas o sabor:
não doce nem picante, ao jeito da comida.
Algo mais próximo de um pó fino, de poeira.
E não fiquei exultante nem assustada,
mas meramente enlevada, ciente.
Por vezes sucede assim:
aparece-nos Deus à janela,
todo ele um clarão e asas negras,
e sentimo-nos demasiado cansados para a abrir.

 

_
▪ Dorianne Laux
( E.U.A. 🇺🇲 )
in “What We Carry”, BOA Editions, Ltd., 1994

Mudado para português por _ Vasco Gato 🇵🇹 Poeta e tradutor



🇺🇲

DUST

..

Someone spoke to me last night,
told me the truth. Just a few words,
but I recognized it.
I knew I should make myself get up,
write it down, but it was late,
and I was exhausted from working
all day in the garden, moving rocks.
Now, I remember only the flavor —
not like food, sweet or sharp.
More like a fine powder, like dust.
And I wasn’t elated or frightened,
but simply rapt, aware.
That’s how it is sometimes —
God comes to your window,
all bright light and black wings,
and you’re just too tired to open it.

.
.

_
▪ Dorianne Laux
( U.S.A 🇺🇲 )
in “What We Carry”, BOA Editions, Ltd., 1994

 

SOMBRA DOS DIAS POR VIR

 

A Ivonne A. Bordelois

Amanhã
hão-de me vestir de cinzas ao alvorecer,
encher-me-ão a boca de flores.
Vou aprender a dormir
na memória de um muro,
na respiração
de um animal que sonha.

 

_
▪ Alejandra Pizarnik
( Argentina 🇦🇷 )
Do livro “Os trabalhos e as noites”, Editora Língua Morta, Lisboa, 2013
Mudado para português por _ Diogo Vaz Pinto 🇵🇹 Poeta, Jornalista e Editor

 

DORMIR NA FLORESTA

Pensei que a terra
se lembrasse de mim, tão
carinhosamente me recebeu de novo, ajeitando
as saias escuras, com os bolsos
cheios de líquenes e sementes. Dormi
como nunca, uma pedra
no leito do rio, sem nada
entre mim e o fogo branco das estrelas
a não ser os meus pensamentos e estes flutuavam
leves como mariposas por entre os ramos
das árvores perfeitas. Ouvi
toda a noite os pequenos reinos a respirarem
à minha volta, os insectos e as aves
que trabalham na escuridão. Toda a noite
me levantei e caí, como se estivesse dentro de água, a lutar
com uma fatalidade luminosa. De manhã
tornara-me em alguma coisa melhor
umas doze vezes pelo menos.

 

_
▪ Mary Oliver
(EUA 🇺🇲 )
in “A Thousand Mornings”, Penguin Press, Nova Iorque, 2012
Mudado para português por – Francisco José Craveiro de Carvalho 🇵🇹 Poeta, Tradutor e Matemático



Original version / Versão original

 

░  SLEEPING IN THE FOREST

 

I thought the earth
remembered me, she
took me back so tenderly, arranging
her dark skirts, her pockets
full of lichens and seeds. I slept
as never before, a stone
on the riverbed, nothing
between me and the white fire of the stars
but my thoughts, and they floated
light as moths among the branches
of the perfect trees. All night
I heard the small kingdoms breathing
around me, the insects, and the birds
who do their work in the darkness. All night
I rose and fell, as if in water, grappling
with a luminous doom. By morning
I had vanished at least a dozen times
into something better.

 

_
▪ Mary Oliver
(EUA 🇺🇲 )
in “A Thousand Mornings”, Penguin Press, Nova Iorque, 2012

 

TRANSPARÊNCIAS

Há momentos em que a luz
só deseja transparências.
Passa horas nas bancas
de pigmentos, mistura e escolhe
os que sabiamente misturados
alcançam qualidade diáfana
no seu traço. Prescinde de cores,
tessituras, nem sequer a parede
branca em face da qual se inclina
a descansar a tarde lhe interessa.
Considera apenas o translúcido.
Artista que desenrola os novelos
de sedas sobre o real.
Estende-os sobre o que quer
pintar. Absorve-se nas suas pregas.
Aspira, como eu,
a contemplar o que não se mostra,
mas estou a ver.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Espanha 🇪🇸 )
in ‘Pájaros extraviados’, Prensas de la Universidad de Zaragoza, 2019

*

Mudado para português por — Maria Soledade Santos — Poeta, tradutora e professora.

Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.
Mantém os blogues de poesia e tradução: Metade do Mundo Mudanças & Cia


🇪🇸

TRANSPARENCIA

 

Hay épocas en que la luz
solo anhela las transparencias.
Se pasa horas en los puestos
de pigmentos, revuelve y selecciona
los que, sabiamente mezclados,
consigan cualidad diáfana
en su trazo. Prescinde de colores,
de urdimbres, ni siquiera la pared
blanca ante la que se reclina
a descansar la tarde le interesa.
Atiende solo a lo traslúcido.
Artista que despliega las bobinas
de sedas sobre lo real.
Las extiende ante todo cuanto quiera
pintar. Se ensimisma en los pliegues.
Aspira, como yo,
a mirar lo que no se muestra,
pero estoy viendo.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Espanha 🇪🇸 )
in ‘Pájaros extraviados’, Prensas de la Universidad de Zaragoza, 2019

 

POR UM INCUMPRIMENTO DO PRESSÁGIO

Não me envies dor. Já, minha vida,
me despedi há tempo do transtorno
que nos infundes chega. Muitos anos
o desejei supondo que ainda vinha.
Continuo a merecê-lo, mas agora
Gostaria de desistir de sua vinda.
Despedir-me do mundo, com a ventura
que suspende os olhos do amante
seria graça maior que ter nascido.
Mas débil ante a dor e conhecendo
a matéria desprezível de que és feita,
não pares ante meus anos os teus passos,
não me ofereças aquilo que arrebatam
de tuas mãos os jovens. Dá-lhes,
a eles, com seu sabor, conhecimento;
se são agradecidos, vão amar-te
para sempre. Eu quero que os corpos
deixem seu belo fogo entre meus braços,
em troca de moedas ou palavras.
Mas o que já vivi, fique vivido;
Estou desabitado; não me tentes
Para ser infeliz tão fora de horas.

 

_
▪ Francisco Brines
( Espanha 🇪🇸 )
in ”A Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro”, Assírio & Alvim, Porto, 2001
Mudado para português por José Bento 🇵🇹