AMANHECER

Que se faz na hora de morrer? Volta-se
a cara contra a parede?
Agarra-se pelos ombros o que está perto e ouve?
Deita-se cada um a correr, como o que tem
as roupas incendiadas, para chegar ao fim?

Qual é o rio desta cerimónia?
Quem vela a agonia? Quem puxa o lençol?
Quem afasta o espelho por embaciar?
Porque a esta hora não há mãe nem parentes.

Já não há soluço. Nada, mais que um silêncio atroz.
Todos são uma face atenta, incrédula
de homem de outra margem.

Porque o que sucede não é verdade.

 

 

_
▪ Rosario Castellanos
( México 🇲🇽 )
in “Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001
Mudado para português por _ José Bento _ 🇵🇹 _ Poeta e tradutor

TRÊS POEMAS DE RYSZARD KRYNICKI

I can’t help you

 

Poor moth, I can’t help you,
I can only turn out the light.

 

*

Não te consigo ajudar

 

Pobre traça, não te consigo ajudar,
posso apenas apagar a luz.

 

*

We can destroy

 

We can destroy
all our evidence and still
even the mute rings of trees,
even our mute bones will tell
what times we lived in.

 

*

Podemos apagar

 

Podemos apagar
todos os nossos vestígios e contudo
até os anéis mudos das árvores
até os nossos ossos mudos dirão

em que tempos vivemos.

 

*

You’ve climbed high

 

You’ve climbed high, my little snail,
To the black lilac’s highest leaf!

But remember: September’s nearly over.

 

*

Subiste alto

 

Subiste alto, meu pequeno caracol,
até à folha mais alta do lilás negro!

Mas lembra-te: Setembro está quase a acabar.

 

_
▪ Ryszard Krynicki
( Polónia 🇵🇱 )


Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _  Poeta, Tradutor e Matemático 🇵🇹 a partir da versão inglesa de Stanislaw Baranczak & Clare Cavanagh

 
 

COMPREENDER

Das canções de embalar que as mães cantam
_______________Até às notícias que o locutor lê
Vencer no mundo a mentira, esteja onde estiver
No coração, dentro do livro, no meio da rua.
Que sorte fantástica seria compreender
Compreender o que passou e o que vem aí.

 

1948

 
_
▪ Nâzim Hikmet
(Turquia 🇹🇷)
in “Poemas da Prisão e do Exílio”, & etc, Lisboa, 2000
Mudado para português por _ Rui Caeiro _ (Poeta, Tradutor e Editor)
 

BOSQUE

Atravessa-lo ao crepúsculo.
O ar
quase tens de o separar com as mãos,
de tão denso, tão impenetrável.
Caminhas. Não deixam pegadas
os teus pés. Centenas de árvores
sustêm a respiração sobre
a tua cabeça. Um pássaro, ignorando
a tua presença, solta o canto
longo até ao outro lado da paisagem.
Altera-se a cor do mundo: é como o eco
do mundo. Eco distante
que tu abalas, atravessando
as últimas fronteiras da tarde.

 

_
▪ Ángel González
(Espanha 🇪🇸 )
in “Áspero mundo”, M., Col. Adonais, 1956.(Accésit Premio Adonáis 1955). 2ª ed. Ediciones Vitruvio, 2012.

*

Mudado para português por — Maria Soledade Santos — Poeta, tradutora e professora.
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.

Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/


VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

BOSQUE

 

Cruzas por el crepúsculo.
El aire
tienes que separarlo casi con las manos
de tan denso, de tan impenetrable.
Andas. No dejan huellas
tus pies. Cientos de árboles
contienen el aliento sobre tu
cabeza. Un pájaro no sabe
que estás allí, y lanza su silbido
largo al otro lado del paisaje.
El mundo cambia de color: es como el eco
del mundo. Eco distante
que tú estremeces, traspasando
las últimas fronteras de la tarde.

 

_

▪ Ángel González
(Espanha 🇪🇸 )
in “Áspero mundo”, M., Col. Adonais, 1956.(Accésit Premio Adonáis 1955). 2ª ed. Ediciones Vitruvio, 2012.

ESTA TARDE E A SUA CHUVA

O dia está claro e seguro, agora. Choveu.
Há uma vaga lembrança da chuva no ar.
As folhas grandes conservam dela as pequenas ruínas
— Inúmeros olhos claros, gotas limpas e frágeis —
Mas já o céu está singelamente azul
(É verdade que também há grandes nuvens brancas
Que ondulam o orgulhoso algodão e sorriem),
E o ar e a sua lembrança reclinam-se e adormecem.
Nesta tarde e sua chuva, pensei nos teus olhos.
Esta chuva pensei na tua pele, e esta tarde,
Com seu céu e suas nuvens, pensei nos teus olhos.

Uma destas tardes, disse para comigo, choverá frescamente,
Choverá nas nossas flores, choverá nas nossas folhas,
A nossa casa será regida pela chuva.
(Cujos fios longos, de cristal muito fino
Talvez se enredem nos nossos passos.)

Numa tarde tão clara como esta,
Choverá em nossa casa.
É por isso que hoje, inexplicavelmente,
Enquanto na sua rede sem peixes descia a chuva,
Enquanto as grandes flores aproximavam os lábios
Para esse longo beijo, pensei nos teus olhos
Tão tristes como meus, e nas tuas mãos, e em ti,
E numa outra tarde, quase como esta.

 

_
▪ Roberto Fernández Retamar
(Cuba 🇨🇺)
in “Patrias, 1949-1951”, La Habana, 1952

Mudado para português por _ Maria Soledade Santos _ (Poeta, tradutora e professora).
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011). Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/



VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

░  Esta tarde y su lluvia

 

El día es claro y firme ahora. Ha llovido.
Hay un vago recuerdo de la lluvia en el aire.
Las grandes hojas guardan sus minúsculas ruinas
—Múltiples ojos claros, gotas limpias y débiles―
Pero ya el cielo está sencillamente azul
(También, es cierto, hay grandes nubes blancas
Que ondean su orgulloso algodón y sonríen),
Y el aire y su recuerdo se recuestan y duermen.
Esta tarde y su lluvia, he pensado en tus ojos.
Esta lluvia he pensado en tu piel, y esta tarde,
Con su cielo y sus nubes, he pensado en tus ojos.

Una tarde, me he dicho, lloverá frescamente,
Lloverá en nuestras flores, lloverá en nuestras hojas,
Nuestra casa será regida por la lluvia.
(Allí sus hilos largos, de cristal delgadísimo,
Se enredarán quizá en nuestros propios pasos.)
Una tarde tan clara como esta misma tarde,
Lloverá en nuestra casa.
Por eso hoy, inexplicablemente,
Mientras su red sin peces descendía la lluvia,
Mientras las grandes flores acercaban sus labios
Hacia ese largo beso, yo pensaba en tus ojos
Tan tristes como míos, y en tus manos, y en ti,
Y en otra tarde casi como ésta.

 

_
▪ Roberto Fernández Retamar
(Cuba, n. 1930)
in “Patrias, 1949-1951”, La Habana, 1952

 

Um Chagall e uma folha de árvore

Gastei as minhas poupanças todas numa litografia de Chagall e coloquei-a junto
a uma folha de carvalho que apanhara na estrada —
uma coisa a que podemos dar um preço
e outra a que não —

algo que uma mão e um coração humanos fizeram
e algo feito pela natureza.

O Chagall é maravilhoso.
A folha de carvalho também.

Levanto-me e preparo chá,
com o sol suave da tarde a cair sobre a mesa.

Ao olhar para o Chagall,
voltam até mim aqueles dias passados com ela.

Quando olho a folha de carvalho
penso na delicadeza do criador.

Uma folha e o Chagall —
ambos insubstituíveis e preciosos

O som de Ravel ao piano eleva-se.
Hoje e a eternidade em uníssono.

O coração e o corpo misturam-se com o céu azul para lá da janela.
…… De onde vêm estas lágrimas?

 

_
▪ Shuntarō Tanikawa
(Japão 🇯🇵 )
in “A Chagall and a Tree Leaf”

Mudado para português por _Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático) com base em traduções para inglês de William I. Elliott & Kazuo Kawamura.



– Version by William I. Elliott and Kazuo Kawamura –

 

░  A Chagall and a Tree Leaf

 

I spent all my savings on a Chagall lithograph and placed it beside
an oak leaf I had picked up on the road —

something we can put a price on
and something we can’t —

something that human heart and hand have produced
and something that nature has.

The Chagall is beautiful.
The oak leaf is also beautiful.

I get up and make tea,
with soft afternoon sunlight falling on the table.

Looking at the Chagall,
those days spent with her come back to me.

When I look at the oak leaf
I think of the creator’s delicacy.

A leaf and the Chagall —
both are irreplaceably precious.

The sound of Ravel on the piano heightens.
Today becomes one with the eternity.

Heart and body melt into the blue sky beyond the window.
…… Where do these tears come from?

 

 

_
▪ Shuntarō Tanikawa
(Japan, 🇯🇵 )
in “A Chagall and a Tree Leaf”, Translated from the Japanese by William I. Elliott and Kazuo Kawamura

OS MEUS LIVROS

Livros, ó mudos livros das estantes frias,
vivos no seu silêncio, ardentes na sua calma;
livros, os que consolam, veludos da alma,
e que sendo tão tristes nos dão alegria!

Ao dia afadigado as minhas mãos renderam-se;
mas à noite lá fui procurá-los, amantes,
no côncavo do muro onde, como semblantes ,
me fitam, confortando-me, aqueles que viveram.

Bíblia, tão nobre Bíblia, horizonte estupendo
onde um dia fixei os olhos longamente,
tens sobre esses teus salmos as lavas ardentes
e no seu rio de fogo o coração acendo!

Nutriste a minha gente com o teu forte vinho,
ergueste-os vigorosos no meio dos homens
e eu ergo-me enérgica ao dizer teu nome,
porque é de ti que venho, quebrei o Destino.

Depois de ti, com o seu amplo alarido eterno,
atravessou-se o sangue o sumo Florentino.
Perante a sua voz, como um junco me inclino;
e fantástica avanço nesse rubro inferno.

E para refrescar sobre o musgo orvalhado
a boca, ainda a arder com as chamas dantescas,
fui em busca das Flores de Assis, sempre tão frescas,
e na felpa deitei o peito descansado!

Eu vi Francisco, aquele tão doce como as rosas,
pelo campo passar, mais leve que um suspiro,
beijando o peito em chama e o aberto lírio,
pra beijar o Senhor, que respira das coisas.

Poema de Mistral, cheiro de sulco aberto
de manhã exalado, inspirei-te embriagada!
Vi Mireia espremer a fruta ensanguentada
do amor, e correr pelo atroz deserto.

Recordo-te também, refrão de mil doçuras,
verso de Amado Nervo, com peito de pomba,
que me suavizaste o contorno das lombas
quando te estava a ler nas minhas manhãs puras.

Nobres livros antigos, de folhas sebentas,
sois lábios sempre prontos a animar os tristes,
amargura que veste um novo manto e insiste
desde Job até Kempis nessa voz dolente!

Pròs que, tal como Cristo em Via Dolorosa,
estreitaram esses versos contra as rubras feridas,
é lenço de Verónica a estrofe dolorida;
cada livro é purpúreo qual sangrenta rosa!

Eu amo-vos, ó bocas dos poetas idos
que ainda me consolam, desfeitas em poeira,
e que falam comigo à noite, à cabeceira,
junto ao meu candeeiro, em seus doces gemidos!

Afasto o meu olhar dessa página aberta,
ó mortos! E o meu sonho tece os seus semblantes:
as pupilas febris, os lábios anelantes
lentamente desfeitos na terra encoberta.

 

 
_
▪ Gabriela Mistral
(Chile 🇨🇱)
in “Antologia Poética”, Selecção, tradução e apresentação de Fernando Pinto do Amaral 🇵🇹, Editorial Teorema, Lisboa, 2002

À Ponte de Brooklyn

Em quantas madrugadas, arrefecidas pelo repouso ondulante,
As asas da gaivota hão-de imergi-la e voar em seu redor,
Espalhando anéis brancos de tumulto, erigindo bem no alto
Sobre as águas agrilhoadas da baía a liberdade —

Então, numa curva inviolada, deixarão os nossos olhos
Tão espectrais como veleiros que cruzam
Uma página cheia de parcelas a arquivar;
— Até que os elevadores nos libertem do nosso dia…

Sonho com cinemas, truques panorâmicos
Com multidões debruçadas sobre uma cena fulgurante
Jamais revelada, mas passada de novo à pressa,
A outros olhos prometida sobre o mesmo écran;

E TU, por cima do porto, ao ritmo da prata
Como se o sol te imitasse, embora deixasse
Um gesto nunca acabado no teu rasto, —
Implicitamente ficas com a tua liberdade!

De uma abertura no metro, de uma cela ou mansarda
Um louco precipita-se para os teus parapeitos,
Oscilando aí por momentos, a garrida camisa enfunada,
E um gracejo solta-se da multidão surpreendida.

Por Wall Street, escorre o meio-dia desde a viga mestra até à rua,
Um rasgão no acetilene do céu;
Toda a tarde os guindastes envoltos pelas nuvens giram…
Os teus cabos respiram ainda o Atlântico Norte.

E é obscura, como aquele céu dos judeus,
A tua recompensa… tu conferes o louvor
De um anonimato que o tempo não pode evocar:
Testemunhas uma indulgência e um perdão vibrantes.

Harpa e altar pelo furor unidos,
(Como pôde o simples trabalho alinhar as tuas cordas cantantes!),
Medonho limiar da promessa do profeta,
Prece de um pária, e grito de um amante, —

E de novo as luzes do trânsito que deslizam pelo teu idioma
Veloz e total, imaculado suspiro de estrelas
Ornando o teu caminho, condensam a eternidade:
E vimos a noite erguida nos teus braços.

Sob a tua sombra, esperei junto dos pilares;
Apenas na escuridão é a tua sombra nítida.
Os bairros flamejantes da cidade todos inacabados,
A neve submerge já um ano de ferro…

Ó Insone como o rio lá em baixo,
Em abóbada sobre o mar, erva sonhadora das pradarias,
Desce, vem até nós, os mais humildes,
E da tua curvatura empresta a Deus um mito.

 

_
▪ Hart Crane
(E.U.A. 🇺🇲)
in “A ponte”, Tradução de Maria de Lourdes Guimarães 🇵🇹, Relógio D´Água, Lisboa, 1995

O grafómano andante

O rio é o autor de um incansável
arquivo em páginas de água.
Anota o olhar das árvores
ribeirinhas. Examina
a ortografia na correspondência
que chega aos pilares
da ponte. Alegra-se
com a intensidade carinhosa
dos amantes entre juncos
escondidos.

Os amantes também
querem que o rio se demore
nas suas carícias
e lhes dedique muitas linhas.
Alguns substantivos, verbo, um único
adjetivo e interjeições várias.
Com isto se contentam. Embora saibam que o texto
depressa chegará ao oceano,
biblioteca de escribas
fluviais, onde todas as histórias
de amor se confundem.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Espanha 🇪🇸 )
in ‘Pájaros extraviados’, Prensas de la Universidad de Zaragoza, 2019

*

Mudado para português por — Maria Soledade Santos — Poeta, tradutora e professora.
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.
Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/

 



VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

░ EL GRAFÓMANO CAMINANTE

 

El río es el autor de un incansable
dietario en páginas de agua.
Anota las miradas de los árboles
de ribera. Examina
la ortografía en la correspondencia
que llega a los sillares
del puente. Se complace
con la intensidad afectuosa
de los amantes entre juncos
ocultos.

Los amantes también
quieren que el río se detenga
en sus caricias
y les dedique muchas líneas.
Algunos sustantivos, verbo, un único
adjetivo e interjecciones varias.
Con eso se contentan. Aunque sepan que el texto
llega pronto al océano,
biblioteca de escribas
fluviales, donde todas las historias
de amor acaban confundidas.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(España 🇪🇸 )
in ‘Pájaros extraviados’, Prensas de la Universidad de Zaragoza, 2019