A CASA ESTAVA SILENCIOSA E O MUNDO ESTAVA CALMO

A casa estava silenciosa e o mundo estava calmo
O leitor tornava-se no livro; e a noite de verão

Era como a essência consciente do livro.
A casa estava silenciosa e o mundo estava calmo.

As palavras eram pronunciadas como se não houvesse livro,
A não ser o leitor inclinado sobre a página,

A desejar inclinar-se, a desejar extremamente ser
O letrado para quem o seu livro é verdadeiro, para quem

A noite de verão é como uma perfeição de pensamento.
A casa estava silenciosa porque assim tinha de estar.

O silêncio fazia parte do sentido, parte do espírito:
Era a perfeição no seu acesso à página.

E o mundo estava calmo. A verdade num mundo calmo
No qual não há outro sentido, a própria verdade

Está calma, ela própria é verão e noite, ela própria
É o leitor em tardia vigília, inclinado, lendo.

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▪ Wallace Stevens
(U.S.A. 🇺🇲)
Mudado para português por David Mourão-Ferreira

ARTE POÉTICA

Entre tantos ofícios, exerço este que não é meu,
como um amo implacável
me obriga a trabalhar de dia, de noite,
com dor, com amor,
debaixo de chuva, na catástrofe,
quando se abrem os braços da ternura ou da alma,
quando a doença submerge as mãos

A este ofício me obrigam as dores alheias,
as lágrimas, os lenços acenantes,
as promessas no meio do outono ou do fogo,
os beijos do encontro, os beijos do adeus,
tudo me obriga a trabalhar com as palavras, com o sangue.

Nunca fui o dono das minhas cinzas, meus versos,
rostos obscuros os escrevem como disparar contra a morte.

 

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▪ Juan Gelman
( Argentina 🇦🇷 )

UM HOMEM E UMA PORTA

Um homem carrega uma porta
pela rua fora.
Procura a sua casa.

Ele sonhou
com a mulher, filhos e amigos,
a entrarem através daquela porta.
Agora vê o mundo todo,
a entrar através da porta
da sua casa ainda por construir:
homens, veículos, árvores,
animais, pássaros, tudo.

E a porta, o seu sonho
erguendo-se acima da terra,
anseia ser a porta dourada do paraíso.
Imagina nuvens, arco-íris,
demónios, fadas e santos
passando através dela.

Mas é o senhor do inferno
quem guarda a porta.
E agora deseja apenas ser uma árvore
cheia de folhas,
ondulando na brisa,
para providenciar alguma sombra,
ao seu carregador sem abrigo.

Um homem carrega uma porta
ao longo da rua.
Um homem e uma estrela.

_

▪ K. Satchidanandan
( Índia 🇮🇳 )
Mudado para português por Jorge Sousa Braga

TRÊS POEMAS

IL PESCE ROSSO PIÙ VERDE DEL MONDO

 

Il pesce rosso più verde del mondo
tutta la notte ha nuotato al mio posto
ma appena mi sono svegliato
si è nascosto

La parte di me che non dorme
l’ha visto sguazzare nel cielo
prima di trapassarlo
infilandosi nelle sue nuvole
come un tarlo

Se mi conosci lo sai
che un giorno sceglierò di non svegliarmi
e che mi perderò dietro due palpebre
sottili come sbarre
pur di non far scappare il pesce rosso
più verde del mondo

 

O PEIXE VERMELHO MAIS VERDE DO MUNDO

 

O peixe vermelho mais verde do mundo
toda a noite nadou no meu lugar
mas assim que acordei
escondeu-se

A parte de mim que não dorme
viu-o chafurdar no céu
antes de o trespassar
enfiando-se nas suas núvens
como uma térmite

Se me conheces sabes
que um dia escolherei não acordar
e me perder por trás de duas pálpebras
finas como grades
para não deixar fugir o peixe vermelho
mais verde do mundo

 

∟

 

TI HO DATO APPUNTAMENTO SENZA DIRTELO

 

Ti ho dato appuntamento senza dirtelo
e sono qui in anticipo da tanto
perché so che non verrai
ma non so quando

 

MARQUEI UM ENCONTRO CONTIGO SEM TE DIZER

 

Marquei um encontro contigo sem te dizer
e estou aqui adiantado há muito tempo
porque sei que não virás
mas não sei quando

 

∟

 

STAMATTINA HO PEDINATO UNA FORMICA

 

Stamattina ho pedinato una formica
Prima girava senza meta
poi si è vista con un’amica
Bisbigliavano talmente basso
che ho dovuto avvicinarmi
di qualche passo
e pure in quelle condizioni
non ho capito se parlassero di yoga
o di rivoluzioni
Sta di fatto che a un certo punto
erano cento
Blateravano di sviluppare ali
e diventare api
E poi ordigni atomici
e trasformarsi in uomini
Una sosteneva che voleva
creare un Dio
nero e piccolissimo
capace di far funzionare le cose
anche fuori dal Paradiso
Quando si sono separate
ho ripreso a seguire la mia formica Ma forse era l’amica

 

ESTA MANHÃ SEGUI UMA FORMIGA

 

Esta manhã segui uma formiga
Antes vagueava sem meta
depois encontrou-se com uma amiga
sussurravam tão baixo
que tive de me aproximar
de alguns passos
e até naquelas condições
não entendi se falassem de yoga
ou de revoluções
O facto é que a certa altura
eram cem
Tagarelavam de desenvolverem asas
e de se tornarem abelhas
E depois engenhos atômicos
e de se transformarem em homens
Uma alegava que queria
criar um Deus
preto e pequeníssimo
capaz de fazer funcionar as coisas
até fora do Paraíso
Quando se separaram
voltei a seguir a minha formiga
Mas talvez fosse a amiga

_
▪ Simone Consorti
( Itália 🇮🇹 )

*

Mudado para português por _ Daniela Di Pasquale 🇮🇹 _ tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.

PARA O ANO DOS LOUCOS UMA ORAÇÃO

Ó Maria, frágil mãe,
ouve-me, ouve-me agora
embora eu desconheça as tuas palavras.
O rosário negro com o seu Cristo de prata
permanece por benzer na minha mão
porque eu sou a descrente.
Cada conta redonda e dura entre
os meus dedos,
um pequeno anjo preto.
Ó Maria concede-me esta graça,
esta passagem,
embora eu seja feia,
submersa no meu próprio passado
e na minha própria loucura.
Embora haja cadeiras
eu estendo-me no chão.
Apenas as minhas mãos estão vivas,
a tocar contas,
palavra a palavra, eu tropeço.
Uma iniciada, sinto a tua boca tocar a minha.

Conto contas como ondas,
a baterem sobre mim,
estou doente com os seus números,
doente, doente, no calor do verão
e a janela por cima de mim
é a minha única ouvinte, o meu ser estranho
ela é uma larga recebedora, uma mitigadora.

A dadora de respiração
ela murmura,
exalando o seu largo pulmão como um peixe enorme.

Cada vez mais perto
vem a hora da minha morte,
enquanto eu rearranjo a minha cara, volta a crescer,
cresce por desenvolver e com o cabelo liso.
Tudo isto é morte.
Na memória há um beco estreito chamado morte
E eu movo-me nele
como se fosse água .
O meu corpo não tem utilidade.
Jaz, enrolado como um cão na carpete.
Desistiu.
Não há palavras aqui senão as meio aprendidas,
o Avé Maria e o cheia de graça.
Agora entrei no ano sem palavras.
Anoto a entrada estranha e a voltagem certa.
Sem palavras elas existem.
sem palavras podemos tocar no pão
e ser-nos-á entregue pão
sem som.

Ó Maria, terna médica
vem com pós e ervas
Porque eu estou no centro.
É muito pequeno e o ar é cinzento
como numa casa de máquinas.
Dão-me vinho como dão leite a uma criança.
É apresentado num copo delicado com um bojo redondo e uma borda fina.
O vinho tem cor de breu, bafiento e secreto.

O copo ergue-se sozinho em direcção à minha boca
E eu reparo nisto e percebo isto
Apenas porque aconteceu.
Tenho este medo de tossir
mas não falo,
um medo de chuva, do cavaleiro
que cavalga para a minha boca.
O copo inclina-se sozinho
E eu estou em chamas.
Vejo dois finos fios a
queimarem-me o queixo.
Fui cortada em dois.

Ó Maria, abre as tuas pálpebras.
Estou no domínio do silêncio,
o reino dos loucos e dos adormecidos.
Há sangue aqui
E eu comi-o
Ó mãe do ventre
vim apenas pelo sangue?
Ó pequena mãe,
estou na minha própria mente.
Estou trancada na casa errada.

 

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▪ Anne-Sexton
(Estados Unidos 🇺🇸)

Mudado Para Português por Maria Sousa

TESTEMUNHA DO TEMPO

Sou testemunha do tempo
as raízes que semeia a infância
no rosto dos que amamos
Um pedaço de frasco de guloseimas chega ao sol
com as suas grinaldas e o céu pressuroso
vem dar-nos resposta:
Nós somos já os outros que se foram
cheios de horizontes pela folhagem.
Naquele então, a infância dava
Um avanço ao tempo e ganhava-lhe.

 

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▪ Armando Romero
( Colômbia 🇨🇴 )
Mudado para português por Nuno Júdice

A CHOCAR DE NOVO

Pobres velhos sentados
num banco ao sol, as costas no muro,
o cabelo grisalho, as roupas escuras,
as faces pálidas, com os olhos cansados e bons
vendo a azáfama do trânsito
da estrada principal e dos comboios que passam,
pobres velhos mortiços e frouxos
que me olham como vagões parados
que esperam em carris já mortos.

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▪ Giovanni Bianconi
( Itália 🇮🇹 )
Mudado para português por Luís Filipe Parrado