Não é preciso explicar nada a uma criança. É preciso enfeitiça-lá.
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▪ Marina Tsvetaeva
( Rússia 🇷🇺 )
Não é preciso explicar nada a uma criança. É preciso enfeitiça-lá.
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▪ Marina Tsvetaeva
( Rússia 🇷🇺 )
Eu não fiz nada de errado
e a morte veio para metade da minha família.
Três mães e uma amiga. Eu não fiz nada de errado.
Eu não fiz nada de errado
e perdi o meu bebé no chão.
Eu perdi metade da minha mente
na sala de espera do hospital. Eu não fiz nada de errado.
Eu não fiz nada de errado.
e eu perdi você.
Ferida estranha e complicada.
Acumulação de todas as perdas que vieram antes.
Eu só estava tentando proteger.
Eu não fiz nada de errado.
Eu sei que a minha vida é de ouro.
Eu sei que, com ajuda, lutei muito.
Não sei como gravar a marca d’água nos calcanhares,
como impedir que meus membros recuem.
Como sentir metade de alguma coisa. E recuse educadamente a outra peça.
Como me manter em um só lugar. Eu não fiz nada de errado.
Como estancar o sangramento, em todas as circunstâncias, no chão.
Eu não fiz nada de errado.
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▪ Elizabeth M. Castillo
( Inglaterra 🇬🇧 )
Tu não terás outra morada senão teu coração;
Pois sobre a Terra, onde somos viajantes,
Ninguém construirá sua morada permanente:
Tu não terás outra morada senão teu coração.
Então, ao redor dele, na atmosfera ardente,
Que nasce dele, que o envolve e que aspira
Todos os raios vindos das coisas que ele deseja,
Evoca o silêncio e o divino silêncio;
A forma que reveste a primeira hipostase,
Obedecendo a quem a espera com poder,
Levar-te-á sobre as quatro asas do êxtase.
A vida interior é feita de silêncio.
Ela é o palácio cuja base é o silêncio.
Ela é a flor de fogo: o silêncio é o vaso,
O silêncio é o vaso onde bebes a beleza.
Tu que aqui passas, é certo, mas indeciso
Entre tua vida real e tua vida aparente,
Tua vida real, tenebrosa e veemente
Como a paixão, o trovão e a morte,
Cobre com um véu de sombra e de noite o tesouro
Dessa vida interior, que mede
Entre tuas almas a melhor e a mais pura,
A fim de que nada atente contra seu mistério intenso,
E que sua força virgem, integral, se empregue
A vestir a ocupação em que as mãos do silêncio
Se incumbirão de tecer o tecido da tua alegria.
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▪Victor-Émile Michelet
( França 🇨🇵 )
No final de um corredor, ao mesmo tempo
iluminado e escuro, havia um
palhaço sorrindo para mim.
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▪ Juan Eduardo Cirlot
( Espanha 🇪🇦 )
São golpes silenciosos: nada se ouve.
Um é a incompreensão, outro é o desprezo,
outro é a humilhação, outro são os maus-tratos,
repetidos em ritmos desiguais.
O meu sofrimento tornou-se incandescente.
Como sinto o martelo, e como
vibra esta bigorna, a dura solidão,
e as pinças do Ferreiro doem.
E não sei qual será a minha forma…
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▪ Mário Miguez
( Espanha 🇪🇦 )
Abri as portas da minha casa
as portas do meu tempo
as portas do meu nada
a um hóspede com joelhos de areia
que me traz o pequeno almoço à cama
e faz amor comigo usando as palavras remotas
de todos os degelos passados.
Nada de sério,
um clique da memória,
efémero,
uma aventura adolescente
que não imporá quarentena.
Um assobio de regresso
e voltarei alegre,
porque alegres são os reencontros
e até as melancolias.
O hóspede cheira ao tabaco preto
dos meses do pós-guerra
– espessa-me o sangue, causa trombos –
perfila sombras contra a minha luz.
Cheira a lúpulo e ao despertar de agosto,
adelgaça a cintura das minhas tardes
e incita-me a beijar os lábios do tempo.
Este meu hóspede parece-se tanto com a ausência
– carta timbrada na cidade que um poeta inventou –
que essa certeza me deixa vazia.
A minha casa.
O meu tempo.
O meu nada.
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▪ Carmem Ruiz Fleta
( Espanha 🇪🇦 )
Mudado para português por — Maria Soledade Santos 🇵🇹 Poeta, tradutora e professora
Há um lugar entre dois renques de árvores onde a erva cresce colina acima
e a velha estrada revolucionária se desfaz em sombras
perto de uma capela abandonada pelos perseguidos
que desapareciam naquelas sombras.
Eu andei por lá colhendo cogumelos à beira do pavor, mas não se enganem
isto não é um poema russo, isto não está noutro lugar, mas aqui,
o nosso país aproximando-se da sua própria verdade e pavor,
as suas próprias maneiras de fazer as pessoas desaparecerem.
Não te vou dizer onde fica este lugar, onde a malha escura da floresta
encontra a súbita faixa de luz —
encruzilhada de fantasmas, paraíso de folhagem:
Já sei quem quer comprá-lo, vendê-lo, fazê-lo desaparecer.
E se não te vou dizer onde fica, porque estou então a falar
contigo? Porque tu ainda ouves, porque em tempos como estes
para que tu ouças, é necessário
falar de árvores.
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▪ Adrienne Rich
( E.U.A. 🇺🇲 )
Mudado para português por Jorge Sousa Braga
Desceu sozinho do comboio,
atravessou a cidade deserta sozinho,
entrou sozinho no hotel vazio,
abriu o seu quarto solitário
e, surpreendido, ouviu o silêncio.
Diz-se que pegou no telefone
para ligar a alguém,
mas é mentira, completamente falso.
Não havia ninguém a quem telefonar,
não vivia ninguém na cidade, nem no mundo.
Bebeu a água, os pequenos comprimidos,
e esperou a chegada do sono.
Com algum medo da sua coragem
– afirmara pela primeira vez a sua existência –
curioso talvez, com um gesto cansado,
sentiu o peso das pálpebras a fecharem-se.
Horas mais tarde – um estranho sorriso desenhava-lhe os lábios –
anunciou a si próprio, teimosamente,
a única certeza que, por fim, adquirira:
não voltaria a dormir sozinho num quarto de hotel.
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▪ Juan Luis Panero
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho
Um homem
tinha sempre vontade
de irromper pelo palco
durante uma representação teatral
e fazer algo indecente.
Esse homem foi consultar
um psicólogo.
O psicólogo tinha um passatempo:
coleccionava moscas
e cabides roubados
em centros comerciais.
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▪ Jan Kaus
( Estónia 🇪🇪 )
Mudado para português por Vasco Gato
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