Mário Cesariny por Mário Viegas
Arquivo da Categoria: Poesia Portuguesa
CINZAS EM FLOR
Uma rosa nasceu de um ninho de espinhos.
Enquanto ela chora de pétalas fechadas,
atravessa a luz mais alva das margens.
Ela é a aurora do espelho das águas:
Dá o corpo lunar aos mortos do mar.
E sem a colher, de asas imensas,
a Noite desabrocha num espelho em flor.
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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “A casa da Memória”
UMA MULHER
Uma mulher vestida de negro num quintal.
Curvada arranca um dente, uma raiz,
arranca as horas perdidas.
Os outros pensam que apanha
batatas.
–
▪ Yannis Kondos
( Grécia 🇬🇷 )
Mudado para português por Luís Costa
QUADRA JÁ ANTIGA
A rapariga que esperava muito
as cartas do namorado
que lhe escrevia muito pouco
casou-se com o carteiro
_
▪ Adília Lopes
( Portugal 🇵🇹 )
in “A pão e a água de colónia “,1987
MINHA INFÂNCIA ERA ENTÃO UM LEQUE
“Minha infância era então um leque”
Do livro “O Coração dos relógios”- Poema de Maria Azenha na Voz de Eugénia Bettencourt
O POEMA QUE VOS OFEREÇO
Adormeço sobre o meu poema
e acredito na realidade
do meu sonho
Acredito nas palavras que aprendi
durante a viagem na floresta sombria
Acredito na chegada ___ sozinho
à praça das execuções
Acredito na visita a sucessivas
salas iguais umas às outras
descalço sobre o chão de vidro
Acredito na labuta para organizar
as palavras ___ todas ___ até
as que me foram negadas
Acredito então no despertar
sobre o meu poema
e na partilha
dos cânticos
dos desgostos
dos desencantos
de toda a substância
que agora vos ofereço no poema
como uma vela acesa na vossa noite.
_
▪ Luis Raimundo Rodrigues
( Portugal 🇵🇹 )
SAI DE CASA
Rasga este poema depois de o leres.
E depois espalha os bocados
Pelo vasto mundo
Ou então na tua rua, vai à aldeia, à praia,
Atira-o ao mar,deita-o ao lixo,
Para que venha o vento,o sol,a chuva,os homens do lixo,
Acabar com ele de vez.
Passado um dia,
Sai de casa e procura
Encontrá-lo de novo.
_
▪ Manuel Resende
( Portugal 🇵🇹 )
AGORA
Há um martelo de enigmas,
um martelo louco batendo nos nervos,
esmagando as fibras,
há um estrondo subterrâneo que sobe para as fontes,
mas não explode,
não explode esta cabeça vencida, caída sobre
a mesa,
sobre a toalha bordada entre o jejum e as
missas,
nas terras do pai.
Há um globo de magias em desuso que não
perturba quem chega, quem se senta
com as mãos abertas, com a faca atrás,
pelo lado das costas que lançam nas paredes
um vulto sinistro, em silêncio, à espera.
Eu sei porque veio, o que quer, o que faz aqui,
mas tu ergues os cálices,
tu olhas para ela e ofereces uma rosa e
repartes o pão,
e depois adormeces e entras no túnel que dá
para as colinas de Deus,
para os seus antigos.
_
▪ José Agostinho Baptista
( Portugal 🇵🇹 )
in “Biografia”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000
ÚLTIMO SOL NO ROCHEDO
Último sol no rochedo.
Último horizonte vigilante
de marés e tufões.
Lembrei-me de repente daquele deus marinho
…………………………………………………………de Camões
sem nenhuma nereida que lhe aqueça
a pele petrificada do desejo,
o corpo de ostras e camarões
– a cabeça coberta
com a casca
de um caranguejo.
Só a casca?
E o resto? Quem o comeu?
– gula de águia.
Talvez aquela nuvem além no céu
com bico de vapor de água.
_
▪ José Gomes Ferreira
( Portugal 🇵🇹 )
in “ Poesia VI”
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