LAMENTO

Pátria sem rumo,minha voz parada
Diante do futuro!
Em que rosa-dos-ventos há um caminho
Português?
Um brumoso caminho
De inédita aventura,
Que o poeta,adivinho,
Veja com nitidez
Da gávea da loucura?

Ah, Camões, que não sou, afortunado!
Também desiludido,
Mas ainda lembrado da epopeia…
Ah, meu povo traído,
Mansa colmeia
A que ninguém colhe o mel!…
Ah, meu pobre corcel
Impaciente,
Alado
E condenado
A choutar nesta praia do Ocidente…

 

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▪Miguel Torga
( Portugal 🇵🇹 )
in Diário XII, 136.

NAQUELA MANHÃ / THAT MORNING

 

NAQUELA MANHÃ

Ao funeral de meu pai não assistiu ninguém
não chegou uma coroa de flores
nem padre
nem irmãos

nem as nuvens quiseram saber
da piscina dos meus olhos

foi terrível chorar com o corpo acima da terra
compor a dor
antes da primavera

passava um comboio
os carris tinham o nome dos anjos
exalavam um perfume a óleo
levavam o meu choro banhado a ouro

 

( Maria Azenha )

 

THAT MORNING

No-one came to my father’s funeral
no wreath of flowers appeared
no priest
no brothers

not even the clouds wanted to know
about the lake in my eyes

terrible, to weep over the body not buried
to gather up the pain
before spring

a train went past
the carriages bore the name of angels
they exhaled their diesel-fragrance
they took my weeping and bathed it in gold

(translated by Lesley Saunders)

TINDER

Preenche o vazio com cartas guardadas em caixas
para que recordes que dizer adeus é normal;

Ouve a Petula Clark por um momento
e enche-te dessa felicidade pré-fabricada:
“ when you’re alone and life is making you lonely
you can alaways go downtown “

liga-te de novo
aos apps, aos desconhecidos noite afora,
nada tem maior significado do que a tristeza
com que encho os lábios para distribuir beijos
vermelhos, rosa, hálito fresco a solidão

passeio agora os vestidos que despias,
devia ser proibido seguir sempre a razão
arriscar o tudo por um pouco de sossego
e agora vou de novo atrás de quem saiba
puxar o laço e abrir o fecho às verdades
que dissemos na escuridão.

 

Lígia Reys
( Portugal 🇵🇹 )
in ”Amantes ocasionais”

 

PALAVRAS, ACTOS

A ironia ensina a sabotar uma frase
como se faz a um motor de automóvel:
Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres
no verbo ou numa letra do substantivo,
a frase trágica torna-se divertida,
e a divertida, trágica.
Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me,
desde novo, daquilo que ainda hoje receio: transformar
a linguagem num Deus que salve, e cada frase num anjo
portador da verdade. Tirar seriedade ao acto da escrita
aprendi-o na infância, tirar seriedade aos actos da vida
comecei a aprender apenas depois de sair dela, e espero
envelhecer aperfeiçoando esta desilusão.

 

▪ Gonçalo M. Tavares
( Portugal 🇵🇹 )

Amor peixe e outras loucuras

Amor peixe e outras loucuras
é um processo extenso de recuperação. Recuperar de anos mergulhada na doença mental; recuperar de uma ideia de amor (que no fim era outra coisa qualquer); recuperar de um término doloroso e injusto. A melhor parte do Amor peixe, é que realmente se tratou de uma cura, de um testemunho que deixei pela causa da saúde mental, mas também de uma última conversa que nunca teve lugar.

Fui o Diabo de alguém a troco de compulsivo
Amor nos braços de outrem. Queixava-se do tempo
que tinha o corpo trocado com o inferno
vestidos de Lolita, uma ninfeta sem amparo —
e um pacto quebrado que impede os sobrelimites
da escrita – e do andamento nefasto da morte:
do consumo exasperado de literatura a troco
de umas poucas moedas de vida. Banalidades
que desaprendo com a virtude de desconhecer
a mão perversa que guia todos os poemas:
Sou-o por mim e de mais ninguém, alegras-me,
solidão de memória, inventada para todas as ocasiões
tal qual o vestido negro que dispo perante
Anjos Caídos, figuras celestiais à coca
de paranoias inventadas – redenções e outros
desgostos vívidos da fantasia que teima a vigilância
do demónio Maior Amor, Corpo torpe que cai-cai
e brilha a música que preenche o vazio e é
orquestra de espirito sem maestro.

Lígia Reyes
( Portugal 🇵🇹 )

TELEFONA-ME PARA O SILÊNCIO

Telefona-me para o silêncio
Do meu coração, o som
Baterá no que resta ainda dos cristais
Nos recantos vazios da noite

Esta noite
Preciso da luz apagada
Da minha estrela
Chamo-te quando vem o silêncio
Desse lado do fio, do frio
Deste telefone público sem respostas
Na profundidade dos teus ouvidos
Caem as minhas chamadas
Há um grito
No limite das sombras
A perder-se no abismo.

 

▪ J. T. Parreira
( Portugal 🇵🇹 )

NATÁLIA CORREIA

 

NATÁLIA CORREIA

 

Floriu imensa. E até a divindade a viu
Beber da Fonte ouro e estrelas: pérolas
Encantadas, da noite, que cobriu,
Coroadas de estrelas e de auréolas.

Partiu p’ rás Índias no azul imenso
Das águas ou do céu, mão do Ocaso;
Partiu com «lírios e feras», intenso
Fado onde havia pérolas num vaso.

E no esplendor das mesas penteava
Sonhos, ondas, séculos de cristais:
Verdes sombras verdes que transformava

Em clarões, poeiras, risos de adegas,
Que no calendário das águas musicais
Servia a morte com magias cegas.

 
 

▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “O último Rei de Portugal”, Fundação Lusíada, 1992”

 

Natália de Oliveira Correia nasceu nos Açores, na ilha de S. Miguel, a 13 de Setembro de 1923 e faleceu em Lisboa em 1993).No poema Mãe Ilha, Natália Correia revela quão cedo se apercebeu portadora de um dom, o dom da poesia: «Parti p’rás Índias do meu estranho caso» escreve neste poema Natália Correia. Tendo, como legado, no coração da ilha o vaso cheio de pérolas dos sonhos maternos, teve a consciência da dificuldade de cumprir o enigma da sua singularidade pois entendia que cumpria à atividade poética uma missão histórica sagrada pelo seu ofício de profecia. O seu tempo era um tempo em que a palavra se refugiava na escrita. A fala era um lugar de disfarce e desencontro, tudo era subentendido, falar era estabelecer territórios, hierarquias. Á volta do carisma de Natália Correia se acolhia todos os que amavam a Literatura. Natália Correia dava à vida das pessoas a noção de sentido perdido , achado ou por achar. Para se cumprir isolou-se como Herberto Helder mas de outra maneira: mantendo-se, como os taoistas chineses , só no meio dos homens e das suas tempestades. O que lhe não foi dado no amor com que sonhou seja dado à sua memória.

MÃE ILHA

No coração da ilha está um vaso
Cheio das pérolas que p’ra mim sonhaste,
Ó mãe completa da manhã ao ocaso,
Pastora dos meus sonhos, minha haste.

Parti p’rás Índias do meu estranho caso
— ó danos que dos versos sois o engate! —
E com maus fados se entendem ao acaso
Lírios e feras do meu vão contraste.

Ave exausta, o retorno quem me dera,
Vou no canta dos órfãos soletrando
O âmbar da manhã que ali me espera.

Feridas asas, enfim ali fechando
Ao pasto e á onda me unirei sincera,
Ilha no manso azul de mãe esperando.


Natália Correia, Antologia Poética, Publicações Dom Quixote
(Texto de Joana Ruas)

MORTO DAS NOVE ÀS CINCO NOS DIAS ÚTEIS

Às vezes tenho desejos
de me aproximar serenamente
da linha dos eléctricos
e estender-me sobre o asfalto
com a garganta pousada no carril polido.
Estamos cansados
e inquietam-nos trinta e um
problemas desencontrados.
Não tenho coragem de pedir emprestado
os duzentos escudos
e suportar o peso de todas as outras cangas.
Também não quero morrer
definitivamente.
Só queria estar morto até que isto tudo
passasse.
Morrer periodicamente.
Acabarei por pedir os duzentos escudos
e suportar todas as cangas.
De resto, na minha terra
não há eléctricos.

 

▪ Rui Knopfli
( Portugal 🇵🇹 )

Antologias de Poesia 1951 a 1963 CEI Mocambique_UCCLA

A Divisão de Cristo

Dividamos o mundo em duas partes iguais:
uma para portugueses, outra para espanhóis.
Vêm quinhentos mil escravos no bojo das naus:
a metade morreu na viagem do oceano.

Dividamos o mundo entre as pátrias.
Vêm quinhentos mil escravos no bojo das guerras:
a metade morreu nos campos de batalha.

Dividamos o mundo entra as máquinas.
Vêm quinhentos mil escravos no bojo das fábricas:
a metade morreu na escuridão, sem ar.

Não dividamos o mundo.
Dividamos Cristo:
todos ressuscitarão iguais.

 
 

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▪ Jorge de Lima
( Brasil 🇧🇷 )