O PRÍNCIPE DOS LÍRIOS

O príncipe dos lírios esta noite não vem
Não sei se o espero ainda se me calo até ti
ou me atravessa o passo só o porto onde embarque
rumo ao brilho dessa ilha em águas de ninguém
da manhã em que chegas enquanto a manhã parte
como partem as ilhas quando chega o navio

 

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▪ Miguel Serras Pereira
( Portugal 🇵🇹 )

 

CAIXA DE CHOCOLATES

Era uma desbragada comédia:
o pai oferecia caixas de chocolates
e a empregada de limpeza comia-os –

pensava-se que era uma oferta de amor,
mas ela ensinou-me que os presentes dos homens
servem para envaidecer o paladar da solidão

também eu os comi como se fossem para mim:
os doces cariavam as bonecas de porcelana
e doíam-me os seus olhos azuis de imobilidade

queria que sorrissem a minha boca suja
com as palavras que havia aprendido
quando encontrei os seus vestidos despenhados

num grande acidente doméstico, num grande
fim de aparelhos de cozinha que se avariavam
consoante o tempo passavam à espera de uma carta

foi assim que aprendi a limpar o silêncio,
à espera do tom certo para começar poemas
sobre essas vis atividades em que as mulheres

se despedem para continuarem a engrandecer as lides,
como se pudessem dizer adeus enquanto aquecem a panela:
e na mesa onde cabem muitos filhos genéticos

tiram-se os lugares suficientes para que o útero,
respire especiarias, um pouco de farinha branca
com que um dia fará as vezes de uma mãe a sós

e quando os créditos do filme passarem sob a sombra,
só a empregada se rirá do derradeiro presente:
o estômago estava cheio de um amor que não lhe era dedicado.

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▪ Lígia Reys
( Portugal 🇵🇹 )

Para os outros a bola era a meia

Para os outros a bola era a meia
altura, mas a ti batia-te na cara.
E ias muito zangado para dentro
de casa como se eu tivesse feito
de propósito e te tivesse atirado
a bola à cara. Eu era lá capaz de fazer
uma coisa dessas, também já fui
muito pequenino, sabes, chegaram
a levar-me ao psiquiatra, eu não
ia fazer uma coisa dessas. Quando
me apetece atirar a bola contra
alguém, atiro-a contra uma parede
ou uma árvore. O problema
é que nem sempre acerto na árvore
(na parede acerto sempre, porque
é grande) e às vezes, sem querer,
estás a ouvir, sem querer, acerto
em alguém que vai a passar.

 

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▪ Helder Moura Pereira
( Portugal 🇵🇹 )
in “Eu Depois Inventei o Resto”, Companhia das Ilhas, Açores, 2013

Qualquer coisa de intermédio

 

Se eu fosse o outro,
o do chapéu macio e do bigode
eternizado em cúbico arremedo,
angústia dividida em tantas partes
e óculos redondos,
podia-te contar eu guardador e sonhos

Se eu fosse o outro,
o delicado e bêbedo génio de nós todos,
o que amou estranho e sabia dizer
coisas enormes numa pequena língua
e fraco império,
se eu fosse aquele inteiro
ditado de exageros e exclusões,
falava-te de tudo em ingleses versos

E mesmo se não foi ele quem disse
(e podia até ser, que eram amigos
e o século a nascer arrepiava como já não
o fim) há razão nessa história do pilar
e do tédio a escorrer de um
para o outro

 

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▪ Ana Luísa Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Minha Senhora de Quê”, Quetzal Editores, Lisboa, 1999

X

 

doutora, hoje enviei o poema para a consulta, porque tenho a vida hasteada a meia altura. isto de ser eu, de cara destapada, já inundou muitos dedos na sede. muitas paredes enrugadas. durante a respiração, morre-me outra primavera nos braços e no sono e não sei o que fazer ao pássaro. a ligadura debaixo da pele vai segurando o corpo. e vou-me habituando à dor como árvore corcunda. doutora, eu sou os juros da ansiedade em estátua. o invisível em espaço farto, vazado pelo espírito levado aos bocados. cada pessoa, lugar, beijo, verso. coisa outra acontecida e tardia pela fala. a doação desmembrada, a rotura nos ligamentos pensados, o cansaço à queima-roupa. e esta linguagem toupeira, sem legendas, à procura. continuo a ensaiar no estúdio arcaico da solidão, repetidamente. há nódoas negras no ritmo, mas o casulo dilata o tronco. porque eu prefiro jantar com a morte do que a peste debaixo do tapete. porque a doutora sabe que a cidade da alegria está cheia de polícias contra o azul. em breve darei notícias. em tempo de hemorragia, falar é hospital

 

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▪ Diogo Costa Leal
( Portugal 🇵🇹 )

in “a depressão fala o fogo”, Edições Humus,2023

Manhã de Agosto

Nesta manhã de Agosto
encontrei o papel onde tinha escrito
a idade em que Blaise Cendrars
perdeu a mão direita
e fiquei a sentir a dor
que me atormentava. Não tomei aspirina
nem esqueci a tua carta
de ontem, aquele momento
em que dizes eu querer
arrastar-te comigo “para esse universo
onde a vida é trocada por palavras”.

Tenho lido os poetas
da minha geração. Conheço
o primeiro poema, aquele que inaugurou
a vida, também em mim.
Cansada de ir à praia, à piscina,
procuro livros, uma emoção linguística,
o verso desconhecido.
Guardei uma frase de Musil, na caixa
onde tenho os selos, um minúsculo relógio
que decidi não usar.

Não posso viver sem a música de Schubert,
ou aquela peça de Brahms – tudo isto
são palavras, a vida passa-se lá fora,
o Inverno há-de vir e não poderei
totalmente fugir ao desconforto.

Falava-se de As Túlipas
e começo a entender. Esta música,
estas palavras, a morte na dobra do lençol,
meu frio corpo na penumbra, no paraíso inicial
da anestesia. Perdida a razão no inferno
da dor, a cabeça irreal, meu poema
esquecido na margem do sono. A morfina,
as enfermeiras, tudo o que pudesse
polir o tormento.

E hoje acabei
por tomar aspirina, gastar o rosto,
permanecer em casa.

 

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▪ Isabel de Sá
( Portugal 🇵🇹 )
In “ O Duplo Dividido”, &etc Editora, Lisboa, 1993

DA DIFICULDADE DA BELEZA

A beleza é difícil.

Queria ensaiar uma magia menor
com a consciência de que cada homem tem a sua porção de paraíso
mesmo nos lugares mais adversos.

Mas a minha adversidade é uma paisagem
povoada de medos e de cinzas.
Vejo morte e sofrimento lá longe
e o que me comove está mais perto e é inapreensível.

Penso naquele pátio medieval de uma aldeia da Beira Interior
onde ontem assisti ao prelúdio de uma noite de verão.
O poço negro dos céus. A hera baloiçando ao vento. O cortejo das estrelas.
Um rumor de insectos roendo os interstícios do silêncio.

Poderia enumerar todas as coisas que então preencheram os meus sentidos
e reduzir essa expressão de coisas que desfilam, recebem nomes,
a um falhanço sem limites.

Retomo a pedra fria em que estive sentado naquela noite.
Toco-a com o pensamento até à falaz eloquência da realidade.

Falhar é seguir, novamente, a estrada da atrocidade quotidiana.

Penso em Ungaretti nas trincheiras
recordando os seus rios: o Isonzo, o Nilo, etc.
Há uma fuga nesta indiferença.
São nobres os exemplos
e exemplar a responsabilidade do alheamento.

Vejo um campo devastado dentro de mim,
a torre da Canção erguendo-se sobre as ruínas da tranquilidade
que me cerca.

A beleza é difícil.

Procuro a noite e a solidão num pátio medieval.
Procuro na minha memória esta noite e essa solidão.
É preciso salvar o momento, penso.
E distante no tempo, um outro o salva:
um poeta nomeia os seus rios
numa frente de combate.
A morte envolve-o. Porém, ele assume a ventura da beleza.
Assina o seu rosto junto ao sofrimento.

Com o início desse conhecimento
escrevo: «A beleza é difícil. Pode derrubar-nos, entretanto.»

 

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▪ Luís Quintais
( Portugal 🇵🇹 )
in “A Imprecisa Melancolia”, Editorial Teorema, Lisboa, 1995