DA DIFICULDADE DA BELEZA

A beleza é difícil.

Queria ensaiar uma magia menor
com a consciência de que cada homem tem a sua porção de paraíso
mesmo nos lugares mais adversos.

Mas a minha adversidade é uma paisagem
povoada de medos e de cinzas.
Vejo morte e sofrimento lá longe
e o que me comove está mais perto e é inapreensível.

Penso naquele pátio medieval de uma aldeia da Beira Interior
onde ontem assisti ao prelúdio de uma noite de verão.
O poço negro dos céus. A hera baloiçando ao vento. O cortejo das estrelas.
Um rumor de insectos roendo os interstícios do silêncio.

Poderia enumerar todas as coisas que então preencheram os meus sentidos
e reduzir essa expressão de coisas que desfilam, recebem nomes,
a um falhanço sem limites.

Retomo a pedra fria em que estive sentado naquela noite.
Toco-a com o pensamento até à falaz eloquência da realidade.

Falhar é seguir, novamente, a estrada da atrocidade quotidiana.

Penso em Ungaretti nas trincheiras
recordando os seus rios: o Isonzo, o Nilo, etc.
Há uma fuga nesta indiferença.
São nobres os exemplos
e exemplar a responsabilidade do alheamento.

Vejo um campo devastado dentro de mim,
a torre da Canção erguendo-se sobre as ruínas da tranquilidade
que me cerca.

A beleza é difícil.

Procuro a noite e a solidão num pátio medieval.
Procuro na minha memória esta noite e essa solidão.
É preciso salvar o momento, penso.
E distante no tempo, um outro o salva:
um poeta nomeia os seus rios
numa frente de combate.
A morte envolve-o. Porém, ele assume a ventura da beleza.
Assina o seu rosto junto ao sofrimento.

Com o início desse conhecimento
escrevo: «A beleza é difícil. Pode derrubar-nos, entretanto.»

 

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▪ Luís Quintais
( Portugal 🇵🇹 )
in “A Imprecisa Melancolia”, Editorial Teorema, Lisboa, 1995

DÍVIDA ETERNA

Um dia descerão do céu
os novos anjos com as suas asas
e gravatas
as suas pastas com títulos e ações
do céu
em alta.

Descerão
ouvindo música pop
nos seus auscultadores de prata
e entrarão no templo
a trautear canções
e a exigir-nos os juros
de tudo quanto devemos.

A nós que tudo devemos.

Aqui na terra
como no céu.

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▪ António Quintas Mendes
( Portugal 🇵🇹 )

Apontamento para poesia generativa

fecham-se as cortinas
dos sentidos
desfaço-me no pensamento
e talvez um piano seja o espaço ideal
para uma palavra que não me cabe agora
¿que riso de criança alastrada é este?
a ecoar
entre a saudade de mim
e a morte
brincando ao baloiço arcaico da vida:
alma-sobe
alma-desce
alma-sobe
alma-desce
alma-sobe e um gato na minha língua
a querer saber porque é que nunca prevê as pancadas
alma-desce
e os pés da nudez
descalços
nas arcadas da saudade

és tu?
és tu
quota parte enigmática de mim
na persiana aberta do amanhã
à minha espera
de mão nua
ambos separados por este inverno granítico de ser
dentro do próprio verão de amar,
o palato da substancia crua das coisas
e o piano entre as mãos como cântaro
para a lama do coração na memória esquecida
– amei até enterrar-me com as sementes
e quem me colhe são as cruzes adiantadas
nos expoentes.

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▪ Diogo Costa Leal
( Portugal 🇵🇹 )

DONS DO AMANTE

 

Voz | Dizedor

 

Sobre a tua cabeleira hei-de pôr, para as núpcias,
uma coroa de borboletas com suas
asas pintadas.

Terás de volta ao pescoço flores de abóbora,
em prata,
e a lua que para ti noites e noites forjei.

Andarás pelo povo sobre um cavalo em turquesa.
Um cavalo ardente e leve, animado
pelo meu fogo de amor.

E a teus pés eu lançarei uma pedra quente quente:
o coração onde correm
milhões de gotas de sangue.

 

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▪Herberto Helder
( Portugal 🇵🇹 )

 

O Trabalho da Formiga

 


Poema e Voz | Diogo Costa Leal
Guitarra | João Canedo

 

As formigas são eussociais
Pequenas reticências terrestres

As formigas são a força mais coesa esquecida pelos homens

Cada pequena formiga
segura as suas gerações inteiras num único ninho de abundância secreta
cada pequena formiga
cuida de patas dadas alastradas a uma só unidade
a prole insuperável, porque longe das coroas maiores que as formigas.
Cada pequena formiga divide e ausculta a sua minúscula indispensável tarefa
Cada pequena formiga é reprodutora
E outra é operária
Todas na sua tarefa sanguínea da sabedoria do verbo mais contínuo
Suor longevidade impenetrável inquestionável sob os nossos pés
E nós
Os monstros homens
A atropelarmo-nos a cada novo dia
Como grandes e tenebrosas formigas amnésicas
Homens ausentes dos próprios homens
Pisando os homens como quem pisa a negligência com o ombro que esbate na pressa
De um outro homem passado.

Vejo uma pétala sozinha a caminhar.
Não. É uma formiga que a leva.
A pétala é bem maior que a formiga e a formiga não se detém:
Chama mais uma formiga e outra e outra
Mil formigas a não descansar enquanto a pequena grande pétala não for levada
Para dentro de um pequeno buraco
Porta para uma grande vida geral.

Uma nova formiga sobe a minha mão
Faz-me amar a coerência perfeita da sua espécie…
Quem me dera que ela me chamasse as amigas
E me servisse pétalas à sua mesa..

Escrevo sobre o prolongamento invisível das formigas

Ah formigas pequenos deuses da derradeira coesão inquebrável

E nós, os homens
Essa longa interrogação egoexcêntrica
Cantamos quando devíamos suar.
Suamos demais quando devíamos cantar

Desço a mão
E uma formiga regressa a casa

E fica-me um formigueiro nos dedos
Prontos enfim
Para uma escrita de novo mais animal mais incansável
Uma escrita que leve um pequeno grão de areia
Ou uma pequena pétala
Ao amor abandonado da humanidade.

 

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▪ Diogo Costa Leal
( Portugal 🇵🇹 )

 

CHUVA

Chove uma grossa chuva inesperada,
Que a tarde não pediu mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
Duma vida que é chuva e não parece.
Chove, grossa e constante,
Uma paz que há-de ser
Uma gota invisível e distante
Na janela, a escorrer…

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▪Miguel Torga
( Portugal 🇵🇹 )

Não preciso que me digam que é impuro o que escrevo

Não preciso que me digam que é impuro o que escrevo
vê-se pelas cicatrizes nos dedos da mão direita (a calosidade
amarelada de nicotina no dedo anelar é trabalhinho escravo)
também a espinha lixada e a falta de dentes o mostram bem
não tenho biografia não a procurem no canto mal cheiroso
no medo da noite (o catecismo não é igual para todos não é?)
a minha biografia se quiserem começa e acaba no registo civil
em mil novecentos e cinquenta e quatro também tive direito
a nascer numa geração rasca a de pais anónimos e mães solteiras
o que escrevo é impuro como os sangues menstruais e o mijo
a destilarem amoníaco a federem como as fábricas da cuf
na outra margem onde se escrevia em peles curtidas pelo silêncio
ou como o sangue coagulado dos mortos na guerra colonial
pestes é que não têm faltado na minha vida…
deambulo pelos sonhos onde me perco extenuado e amanheço
quase sucumbindo ao ar excessivo que me invade os pulmões
desremelo os olhos e a esbracejar inauguro o dia saído da noite
onde se pesca palavras e outros excrementos da alma.

 

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▪ Carlos Alberto Machado
( Portugal 🇵🇹 )
in “ Registo Civil. Poesia Reunida”, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010

O HÓSPEDE

Perguntava-te tarde na outra noite
de onde brotam as violências do mundo
e tu abriste os teus olhos de farol em repouso
e convidaste-me a hospedar-me no teu silêncio.

Há tantas coisas, amor, que não entendi,
mas a tua hospitalidade não é uma delas.

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▪ Juan Gabriel Vásquez
( Colômbia 🇨🇴 )
Mudado para português por Nuno Júdice