A beleza e angústia frente ao espelho

“À porta” por Paul Devaux ( 1897-1994, Belgium )
A beleza e angústia frente ao espelho

“À porta” por Paul Devaux ( 1897-1994, Belgium )
Porque agora o que mais nos inquieta
nesta funda ravina onde de rastos
o corpo declinamos suportamos onde o
canto dos pássaros se apresta ao exílio
capaz deste deserto porque agora
aquilo que nos faz voltar os olhos
e não ver além das cores o branco e
o silêncio além da música do sangue
pelos troncos e do frio nos ramos e
nas sebes que ornam o tempo ano a ano
aquilo que agora nos acode é sermos
a voz única que gravata nesta pedra
os sítios da memória os rituais
da espera porque agora reparamos e
nos frutos sentimos já os dentes com
a nova revolta chamada talvez resignação
porque temos é forçoso de aceitar que a
estação que vivemos agora e se eterniza
não é mais do que a única estação.
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▪ Nuno de Figueiredo
(Coimbra, n. 1943)
in “A Única Estação”, Quasi Edições, V.N. de Famalicão, 2003
Aquilo que somos não é aparente,
não podemos explicar o sofrimento
de onde procede este amor.
Mas eu não vim para te dizer
como as sombras mistificam
o mundo: não me perguntes nada.
Tu já és a causa por detrás da máquina
dos dias, se eu for por essa terra fora
será para chamar por ti.
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Leite negro da madrugada bebemo-lo ao entardecer
bebemo-lo ao meio-dia e pela manhã bebemo-lo de noite
bebemos e bebemos
cavamos um túmulo nos ares aí não ficamos apertados
Na casa vive um homem que brinca com serpentes escreve
escreve ao anoitecer para a Alemanha os teus cabelos de oiro Margarete
escreve e põe-se à porta da casa e as estrelas brilham
assobia e vêm os seus cães
assobia e saem os seus judeus manda abrir uma vala na terra
ordena-nos agora toquem para começar a dança
Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos pela manhã e ao meio-dia bebemos-te ao entardecer
bebemos e bebemos
Na casa vive um homem que brinca com serpentes escreve
escreve ao anoitecer para a Alemanha os teus cabelos de oiro Margarete
Os teus cabelos de cinza Sulamith cavamos um túmulo nos ares aí não ficamos apertados
Ele grita cavem mais fundo no reino da terra vocês aí e vocês outros cantem
e toquem
leva a mão ao ferro que traz à cintura balança-o azuis são os seus olhos
enterrem as pás mais fundo vocês aí e vocês outros continuem a tocar para a dança
Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te ao meio-dia e pela manhã bebemos-te ao entardecer
bebemos e bebemos
na casa vive um homem os teus cabelos de oiro Margarete
os teus cabelos de cinza Sulamith ele brinca com as serpentes
E grita toquem mais doce a música da morte a morte é um mestre que veio da Alemanha
grita arranquem tons mais escuros dos violinos depois feitos fumo subireis aos céus
e tereis um túmulo nas nuvens aí não ficamos apertados
Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te ao meio-dia a morte é um mestre que que veio da Alemanha
bebemos-te ao entardecer e pela manhã bebemos e bebemos
a morte é um mestre que veio da Alemanha azuis são os teus olhos
atinge-te com bala de chumbo acerta-te em cheio
na casa vive um homem os teus cabelos de oiro Margarete
atiça contra nós os seus cães oferece-nos um túmulo nos ares
brinca com serpentes e sonha a morte é um mestre que veio da Alemanha
os teus cabelos de oiro Margarete
os teus cabelos de cinza Sulamith
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▪ Paul Celan
(Roménia 🇹🇩)
Mudado para português por João Barrento
*
Paul Pessach Antschel, romeno-judeu-alemão, nascido em 1920, com histórico familiar de passagem por campos de concentração, e considerado uma das vozes mais radicalmente singulares da poesia de todos os tempos, adotou o nome de Paul Celan após o termo da Segunda Guerra Mundial, passando grande parte da vida, num exílio voluntário, na cidade de Paris, onde se suicidou, em 1970, atirando-se da ponte Mirabeau ao rio Sena.
Filha, se em algum momento,
enquanto estás ocupada a crescer
– dura e lícita tarefa –
puderes olhar-me nos olhos,
fá-lo.
Não deixes as perguntas
para quando for a mesma voz
a perguntar e a responder.
Olha que nesta família
temos o doloroso costume
de conhecer-nos melhor em mortos.
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▪ Ana Pérez Cañamares
( Espanha 🇪🇸 )
Conta-me uma história,
Neste século, e momento, de loucura Conta-me uma história.
Que seja uma história de lonjuras, e luz das estrelas
O nome da história será Tempo,
Mas não deves pronunciar o seu nome
Conta-me uma história de alegria imensa.
_
▪ Robert Penn Warren
(U.S.A. 🇺🇲)
Mudado para português por _ Vasco Gato
O príncipe dos lírios esta noite não vem
Não sei se o espero ainda se me calo até ti
ou me atravessa o passo só o porto onde embarque
rumo ao brilho dessa ilha em águas de ninguém
da manhã em que chegas enquanto a manhã parte
como partem as ilhas quando chega o navio
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▪ Miguel Serras Pereira
( Portugal 🇵🇹 )
Um deus irado
Batia num homem;
Espancava-o ruidosamente
Com golpes atroadores
Que soavam e ressoavam pela Terra.
Toda a gente veio a correr.
O homem gritava e procurava libertar-se,
E mordia furiosamente os pés do deus.
As pessoas exclamavam: “Ah, que homem malvado!”
E –
“Ah, que deus formidável!”
_
▪ Stephen Crane
(U.S.A. 🇺🇲)
in “Antologia de Poesia Anglo-Americana”
Mudado para português _ António Simões
Ia para todo o lado
com uma mala vazia.
Nunca se sabe quando
precisamos de partir
à pressa sem nada.
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▪ Andrea Cohen
(U.S.A. 🇺🇲)
in “Serenamente sobre lanternas”
Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho
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