Fuga da morte

Leite negro da madrugada bebemo-lo ao entardecer
bebemo-lo ao meio-dia e pela manhã bebemo-lo de noite
bebemos e bebemos
cavamos um túmulo nos ares aí não ficamos apertados
Na casa vive um homem que brinca com serpentes escreve
escreve ao anoitecer para a Alemanha os teus cabelos de oiro Margarete
escreve e põe-se à porta da casa e as estrelas brilham
assobia e vêm os seus cães
assobia e saem os seus judeus manda abrir uma vala na terra
ordena-nos agora toquem para começar a dança

Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos pela manhã e ao meio-dia bebemos-te ao entardecer
bebemos e bebemos
Na casa vive um homem que brinca com serpentes escreve
escreve ao anoitecer para a Alemanha os teus cabelos de oiro Margarete
Os teus cabelos de cinza Sulamith cavamos um túmulo nos ares aí não ficamos apertados
Ele grita cavem mais fundo no reino da terra vocês aí e vocês outros cantem
e toquem
leva a mão ao ferro que traz à cintura balança-o azuis são os seus olhos
enterrem as pás mais fundo vocês aí e vocês outros continuem a tocar para a dança
Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te ao meio-dia e pela manhã bebemos-te ao entardecer
bebemos e bebemos
na casa vive um homem os teus cabelos de oiro Margarete
os teus cabelos de cinza Sulamith ele brinca com as serpentes
E grita toquem mais doce a música da morte a morte é um mestre que veio da Alemanha
grita arranquem tons mais escuros dos violinos depois feitos fumo subireis aos céus
e tereis um túmulo nas nuvens aí não ficamos apertados
Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te ao meio-dia a morte é um mestre que que veio da Alemanha
bebemos-te ao entardecer e pela manhã bebemos e bebemos
a morte é um mestre que veio da Alemanha azuis são os teus olhos
atinge-te com bala de chumbo acerta-te em cheio
na casa vive um homem os teus cabelos de oiro Margarete
atiça contra nós os seus cães oferece-nos um túmulo nos ares
brinca com serpentes e sonha a morte é um mestre que veio da Alemanha
os teus cabelos de oiro Margarete
os teus cabelos de cinza Sulamith

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▪ Paul Celan
(Roménia 🇹🇩)
Mudado para português por João Barrento

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Paul Pessach Antschel, romeno-judeu-alemão, nascido em 1920, com histórico familiar de passagem por campos de concentração, e considerado uma das vozes mais radicalmente singulares da poesia de todos os tempos, adotou o nome de Paul Celan após o termo da Segunda Guerra Mundial, passando grande parte da vida, num exílio voluntário, na cidade de Paris, onde se suicidou, em 1970, atirando-se da ponte Mirabeau ao rio Sena.

FILHA

Filha, se em algum momento,
enquanto estás ocupada a crescer
– dura e lícita tarefa –
puderes olhar-me nos olhos,
fá-lo.

Não deixes as perguntas
para quando for a mesma voz
a perguntar e a responder.

Olha que nesta família
temos o doloroso costume
de conhecer-nos melhor em mortos.

 

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▪ Ana Pérez Cañamares
( Espanha 🇪🇸 )

O PRÍNCIPE DOS LÍRIOS

O príncipe dos lírios esta noite não vem
Não sei se o espero ainda se me calo até ti
ou me atravessa o passo só o porto onde embarque
rumo ao brilho dessa ilha em águas de ninguém
da manhã em que chegas enquanto a manhã parte
como partem as ilhas quando chega o navio

 

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▪ Miguel Serras Pereira
( Portugal 🇵🇹 )

 

UM DEUS IRADO

Um deus irado
Batia num homem;
Espancava-o ruidosamente
Com golpes atroadores
Que soavam e ressoavam pela Terra.
Toda a gente veio a correr.
O homem gritava e procurava libertar-se,
E mordia furiosamente os pés do deus.
As pessoas exclamavam: “Ah, que homem malvado!”
E –
“Ah, que deus formidável!”

 

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▪ Stephen Crane
(U.S.A. 🇺🇲)
in “Antologia de Poesia Anglo-Americana”
Mudado para português _ António Simões

CAIXA DE CHOCOLATES

Era uma desbragada comédia:
o pai oferecia caixas de chocolates
e a empregada de limpeza comia-os –

pensava-se que era uma oferta de amor,
mas ela ensinou-me que os presentes dos homens
servem para envaidecer o paladar da solidão

também eu os comi como se fossem para mim:
os doces cariavam as bonecas de porcelana
e doíam-me os seus olhos azuis de imobilidade

queria que sorrissem a minha boca suja
com as palavras que havia aprendido
quando encontrei os seus vestidos despenhados

num grande acidente doméstico, num grande
fim de aparelhos de cozinha que se avariavam
consoante o tempo passavam à espera de uma carta

foi assim que aprendi a limpar o silêncio,
à espera do tom certo para começar poemas
sobre essas vis atividades em que as mulheres

se despedem para continuarem a engrandecer as lides,
como se pudessem dizer adeus enquanto aquecem a panela:
e na mesa onde cabem muitos filhos genéticos

tiram-se os lugares suficientes para que o útero,
respire especiarias, um pouco de farinha branca
com que um dia fará as vezes de uma mãe a sós

e quando os créditos do filme passarem sob a sombra,
só a empregada se rirá do derradeiro presente:
o estômago estava cheio de um amor que não lhe era dedicado.

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▪ Lígia Reys
( Portugal 🇵🇹 )