POSTAIS

No início mandava-te um postal
De cada cidade que visitava.
Grüsse aus Bath, aus Birmingham,
Aus Rotterdam, aus Tel Aviv.
Mit Liebe. Os teus chegavam
Escritos em inglês, cheios de vírgulas.
Um de Hong Kong diz Hope,
you’re fine and still alive. Nessa altura
não escrevíamos com tanta frequência.

Hoje, nove anos quase separam-nos
Do lago e das montanhas azuis,
do quarto com varanda,
Mas a luz e a intensidade daqueles dias
Ainda aqui chegam de tempos a tempos.
O teu último postal vinha do Senegal,
O meu de Helsínquia. Não sei
Se nos voltaremos a ver. Sê feliz.
Se isto te chegar aos ouvidos, escreve um postal.

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▪ Wendy Cope
( Reino Unido 🇬🇧 )
Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático)

 

ESTAÇÃO DE BUPYEONG

 

A chuva de primavera cai na estação de Bupyeong.
Na paragem de autocarros do bairro,
uma mulher que coxeia
envolta em plástico branco,
vende flores até altas horas da noite,
dizendo a todos para se transformarem em primavera,
para se transformarem em flores enquanto a vida continua.
Entrega timidamente
ao jovem funcionário da estação de serviço
o último ramo de frésias amarelas,
e sai a coxear
em direção à chuva de primavera que cai branca
no meio das luzes amarelas ao longo da plataforma.
Embarca no último comboio para Incheon Oriental
apertando firmemente a mão
do filho com Síndrome de Down.

 

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▪ Jeong Ho-Seung
( Coreia do Sul 🇰🇷)
Mudado para Português por Jorge Sousa Braga

As palavras começam a ficar velhas

As palavras começam a ficar velhas: têm
dores nas articulações e rangem, de vez
em quando, sem razão; reclamam óleos
e resinas, tempo e açucares mais lentos.

Mas também eu estou velha demais para
oficinas, tão cansada de livros e papéis,
morta por viver outras coisas — por amor,

talvez espreitasse de novo nas mangas do
mundo e escrevesse uma fiada de búzios
no pulso da areia. Mas quantos dos teus
beijos perderia? Perdoem-me os que

ainda esperam por mim. Não sei se volto.

 

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▪ Maria do Rosário Pedreira

Ocupei o dia com pequenas tarefas

Ocupei o dia com pequenas tarefas
Para silenciar um pedido uma súplica
Pintei o velho alpendre consertei a cancela do jardim
Libertei o cão para que perseguisse os pássaros pelo bosque
Recusou-se a partir
Persiste onde não existe caminho
Ao meu lado
Esperando que um vento frio
Dispa de folhas todos os ramos.

 

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▪ Luís Falcão
( Portugal 🇵🇹 )
in “Pétalas Negras Ardem Nos Teus Olhos”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2007

A MÃE ASSOMA À PORTA 

A mãe gosta que lhe escrevam
quando chega o seu dia,
escrever é uma forma de impedir
a ruína da casa

A casa continua nítida apesar do tempo
e todas as coisas estão
nos seus lugares

A mãe caminha no meio dessas coisas
e tudo se mantém como sempre foi
já faltam algumas telhas,
isso é verdade
mas a casa permanece intacta

A mãe assoma à porta
e olha não se sabe para onde,
em que pensará a mãe
quando assoma à porta?

Nesse momento
tudo é feito de silêncio,
só assim a mãe é visível
duma forma tão nítida

Se houvesse qualquer barulho
a mãe não seria vista
tenho a certeza,
a mãe vê-se tão bem no silêncio

Eu acho que acontece o mesmo
com tudo o que é importante

 

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▪ Nuno Higino
( Portugal 🇵🇹 )

É BOA A GUERRA

 

Não chores, rapariga, é boa a guerra.
Lá porque o teu rapaz ergueu as mãos ao céu
E a galope o cavalo se perdeu,
Não chores, não.
É boa a guerra.

Tambores de regimento rufam roucos,
E esta gente sequiosa de lutar
Nasceu para a recruta e p’ra morrer.
A inexplicada glória os sobrevoa,
É grande o deus da guerra, e é seu reino
Um campo com milhares a apodrecer.

Não chores, criancinha, é boa a guerra.
Porque o teu pai tombou na lama da trincheira,
Esfacelado o peito e já sem vida,
Não chores, não.
É boa a guerra.

Bandeiras crepitando esvoaçantes,
Águias douradas, rubras! Esta gente
Nasceu para a recruta e p’ra morrer.
Mostrai-lhe as eficácias do massacre,
Dizei-lhe a excelência de matar,
De um campo com milhares a apodrecer.

Mãe cujo amor é qual botão mesquinho
Na esplêndida mortalha do teu filho,
Não chores, não.
É boa a guerra.

 

Stephen Crane
in Poesia do Século XX, antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena,

 

BANQUETE

Eles comem com as mãos cheias,
mastigam cifras, engolem promessas,
enxugam a boca com páginas de leis.

Nos copos, brindam ao progresso,
enquanto o povo com fome,
troca dignidade por migalhas.

Os bolsos são profundos,
os discursos, vazios.
Quando a conta chega,
não há culpados—
é o povo  que paga.


Ana Soares

POEMA DOS MOTORISTAS OFICIAIS

 

Encontram-se um pouco por todos os lugares.
Ora fumando,
orando pelos filhos junto a um deus
secretariado por magníficos
patrões.
De fato azul e gravata preta
de anel cachucho e jornal da bola,
o rabo habituado aos bons cabedais
pousado no capot ultra-reluzente.

Trazem da província em cada bolso do corpo
e estendem olhos julgadores às mulheres solitárias
de cigarro na boca em plana rua.
Às vezes são quatro ou cinco à espera do final
de um conselho em pleno parto,
de uma portaria inacabada
ou de uma reunião de economia mística.

Derramam no passeio
o ócio inexplicável de rústicos fiéis
e contam anedotas num bocejo amarelo de melancolia.
Quem lhes dera a reforma, a courela da mãe,
ou num sonho longínquo
essa noite sem lua em que engravidaram
a prima por descuido.

Sinto por todos eles um sentimento soturno
e muito gostaria
que Cesário os conhecesse
ao passear sozinho
pelas novas avenidas ao anoitecer.

 

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▪ Armando Silva Carvalho
( Portugal 🇵🇹 )