Havia o bule a tarde o postigo

Havia o bule a tarde o postigo
(um sobrolho nocturno a sonam-
bular pela casa) os bêbados e os
loucos na taberna sempre bêbados
e sempre loucos a sonambularem
pela passagem de nível enquanto lhes
perdurasse a loucura e a bebedeira
de que nunca se curavam. Havia azeite
nas lamparinas naperons de renda e
mandalas bordadas flores murchas em
salobras jarras de água centros de mesa
e o teu sobrolho-postigo (centro de tudo)
a darem para a linha do comboio. Havia
a cancela que subia e descia consoante
as vogais das máquinas campainhassem
a desoras. Havia os carrinhos de rolamentos
(havia descarrilamentos) a guiarem sozinhos
empurrados pelo vento distraído ao volante.
Não havia o verso___ havia o inverso__ o
avesso do poema. Havia o teu lenço negro
(havia tudo em ti negro) e o teu xaile sobre
o espaldar oblíquo das costas. Havia um
arquipélago de réplicas de santos e santas
processo de multiplicar idades
de entardecer o rosto num
crescendo cujo auge se situa
prestes ao raiar do fim. A tarde
cinde noite e dia __meio-termo
sem término sem fim sem terminação. A
tarde: infância da noite que determina
a feição da claridade ___noite rubra a
amadurecer no cavo fusco da lareira. A
tarde à beira-lume: destroço da manhã.

 

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▪ Miguel Alexandre Marquez
(Portugal 🇵🇹)
in “Anuário de Poesia de autores não publicados”, Assírio & Alvim, 2015

INDESEJÁVEL

O guarda não me deixa passar.
Ultrapassei o limite de idade.
Venho de um país que já não existe.
Os meus papéis não estão em ordem.
Falta- me um carimbo.
Preciso de outra assinatura.
Não falo a língua.
Não tenho conta no banco.
Reprovei no exame de admissão.
Extinguiram o meu posto na grande fábrica.
Despediram-me hoje e para sempre.
Não tenho nenhuma influência.
Estou aqui neste mundo há muito tempo.
E os nossos chefes dizem que chegou a hora
de me calar e afundar-me no lixo.

 

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▪ José Emílio Pacheco
( México 🇲🇽 )
Mudado para português por Jorge Sousa Braga

Descrição de um lugar

Sou um reflexo no vidro. Olho-me
Fixamente, e o poema capta-me nesta atitude.
Pudesse eu conhecer-me como se conhece
o poema…
Deixo um retrato de mim, morto,
há um ano por esta altura. Que me aconteceu,
entretanto? De quem é este corpo
que me é estranho, pálido habitante de um movimento
indeciso e aparente? Quem sinto quando me toco,
quem me dorme, quem me pensa,
quem me escreve? O meu rosto encobre um pronome. Vivo
uma sintaxe corrupta no patamar marítimo
do mito. Quem me impede o sentimento? Quem me abre
um caminho que não sigo, condenado a outro
de mim próprio?
No entanto, estou aqui. Entre mim e o poema,
opaco a ambos, sem nada para dizer.

 


▪ Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )
in “Obra Poética (1972-1985), Quetzal Editores, Lisboa, 1999

Sobre a minha mãe

Não conseguiria nunca dizer nada sobre a minha mãe:
como ela repetia, vais arrepender-te um dia,
quando já cá não estiver e como eu não acreditava
nem no “não estiver” nem no “já não”,
como gostava de a observar quando lia os grandes êxitos,
começando sempre pelo último capítulo,
como na cozinha, convencida de que não era
lugar para ela, fazia o café dominical
ou, pior ainda, filetes de bacalhau,
como estudava o espelho enquanto esperava os convidados,
fazendo a cara que melhor a impedia
de se ver como era (nisto
e em mais umas tantas fraquezas saio a ela),
como falava demais sobre coisas
que não eram o seu forte e como eu estupidamente
a arreliava, por exemplo, quando
se comparava a Beethoven ao ficar surda
e eu dizia, cruelmente, mas sabes ele
era talentoso, como perdoava tudo,
como eu recordo isso e como, de Houston, fui de avião
ao seu funeral, fui incapaz de dizer uma palavra
e ainda hoje não consigo.

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▪ Adam Zagajewski
( Polónia 🇵🇱 )
Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho

LENÇOL BRANCO

Não sei onde anda
Essa outra metade de mim
Os jornais deixaram de dar notícias
E todos esqueceram o assunto
Não sei onde andam os meus pés
Nem os meus pensamentos
Noutro dia, acho que os encontrei, aos meus pés
Estavam na televisão
No corpo de outra pessoa
Um cadáver na morgue
Um homem da minha idade
Encontrado morto em casa
Não há suspeitas de homicídio
O coração estava do tamanho
De uma bola de futebol
Também não sei onde anda o meu coração
Mas acho que o vi ontem
No meio do relvado
Pontapeado contra a baliza
Goooolo, grita, furiosa, a dor no meu peito
Talvez seja bom não saber dos meus pensamentos
Ter a cabeça vazia. Oca.
Um lençol branco dentro dos olhos.

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▪ Gabriela Ruivo Trindade
( Portugal 🇵🇹 )

 

Invenção

Se invento a tua justa densidade.
Se invento o claro-escuro dos teus olhos.
Se invento uma raiz, um fruto,
um peso alegre e brando para os teus braços.
É porque vi um dia o teu perfil exacto
num templo de alegria e de saudade.

 

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▪ João Rui de Sousa
( Portugal 🇵🇹 )
in “O Fogo Repartido” – Poesia (1960-1980), Editora Litexa,  1983

O silêncio dói como pedra na língua

O silêncio dói como pedra na língua.
A vida por vezes não tem esperanças nem sentido,
tudo parece em paz e no entanto o amor
tem sempre uma mais fria recompensa.
Desde a primeira flor, pouco ainda mudou
essa face da noite com a face do Homem.
O rouxinol canta, sim, a dor do Homem canta
e à força de a esquecer aprende-se a esquecer.
O silêncio é de passos que atormentam a noite
e que ao fundo do fogo vão buscar a luz
para fazer arder as horas até ao orvalho
onde a manhã se ri com os dentes de água.
Às vezes vagueia pelo pomar da noite
uma égua perdida numa nesga de luz,
é a dor que pergunta e procura uma casa
junto à erva do peito, sob os olhos calados.

 

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▪ Joaquim Pessoa
( Portugal 🇵🇹 )
in “O livro da noite”, Moraes Editores, Lisboa, 1982

O MUNDO ESTÁ MAL

O mundo está mal,
não estou exagerando: doente!
Leio notícias de violência
em todos os lugares há mau comportamento,
falta o sorriso da minha mãe,
as pessoas ao seu redor estão sempre
melhores
e agradecidas.
Precisamos consertar
como só minha avó sabia fazer,
reconstruir (seu avô seria um mestre)
pedra por pedra

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▪ Mariangela Mônaco
( Itália 🇮🇹 )