Cortar as unhas dos pés.
Lutar contra a injustiça.
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▪ Maria Helena Nery Garcez
(Brasil 🇧🇷)
in “Poemas do Bom do Mau e do Médio Humor”, Editora Patuá, Brasil, 2013
Cortar as unhas dos pés.
Lutar contra a injustiça.
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▪ Maria Helena Nery Garcez
(Brasil 🇧🇷)
in “Poemas do Bom do Mau e do Médio Humor”, Editora Patuá, Brasil, 2013
A caminho ouvi um bater de asas assustadas. Foi tudo. A esse lu-
gar vai-se sozinho. É uma construção alta, totalmente escavacada,
um estrutura que oscila mas que nunca poderá desabar. O sol mi-
lenário penetra pelas fendas. Nesse jogo de luzes há uma lei da gra-
vidade ao invés: a casa parece estar assente no céu, e aquilo que cai,
cai de pernas para o ar. Nesse sítio temos de nos voltar para trás.
Nele é permitido estar de luto. Ali, atrevemo-nos a concordar com
grandes verdades, as quais quase sempre mantemos por desemba-
lar. Pensamentos profundos, meus, ali sobem à tona, ficam pendu-
rados como os crânios secos das palhoças de antepassados em al-
guma ilha minúscula da Melanésia. Um orvalho benéfico espalha-
-se à volta dos horríveis troféus. Quão suave pode ser a floresta!
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▪ Tomas Tranströmer
(Suécia 🇸🇪 )
in “50 Poemas”, Tradução de Alexandre Pastor, Relógio D’Água, Lisboa, 2012
Ensina-me a ouvir __ trinar os cantos
que soaram ditosos no passado:
essa harmonia que raiava quando
os gritos de crianças alcançavam
o céu que os acolhia __ deleitando-se.
Ensina-me a estender as mãos e ver
caírem nelas a brilharem estrelas
e espalhá-las depois pelos canteiros
do jardim tão florido e que no meio
tinha lagos, repuxos, cisnes tersos.
Ensina-me contando onde se cruzam
as ilusões __desilusões vividas
com frágeis confianças: que procuro
lembrar e perceber no farto livro
que fui ‘screvendo ainda que confuso.
Mas não te vou pedir que me devolvas
os cantos, as estrelas, o jardim
com lagos __ cisnes __ delicadas flores:
o que de mim agora se aproxima
é, no meio do livro, as secas folhas.
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▪ António Salvado
( Portugal 🇵🇹 )
in “Repor a Luz”, Editora Fólio Exemplar, Lisboa, 2011
Vêm aí dias difíceis
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefecem ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Do outro lado enterra-se-te a amante,
a areia sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.
Não olhes em volta.
Ata os sapatos.
Recolhe os cães.
Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!
Vêm aí dias difíceis.
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▪ Ingeborg Bachmann
( Áustria 🇦🇹 )
Mudado para português por _ Judite Berkemeier e João barrento
Chego ao hotel e peço
o quarto mais barato que tiverem,
uma cama limpa e sem vestígios de humanidade.
Quero um quarto sem cortinas
porque a lua vai cheia e as cortinas não fazem falta,
também não desejo aquecimento e odeio ar condicionado.
Quero tudo reduzido à expressão mais simples –
não preciso de espelho para lavar os dentes,
não quero telefone nem televisão.
O cinzeiro deixem-no ficar,
embora eu não fume propiciará
o justo ritual de um auto-de-fé.
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O nível médio daquilo que se publica, seja onde for, é muito baixo. Esta é a verdade em todo o mundo. As pessoas compram coisas que falam sobre o hoje e quando o hoje se tornar ontem já ninguém vai ler aquilo.
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▪ António Lobo Antunes
( Portugal 🇵🇹 )
No chão de tijoleira uma cadeira rústica,
rusticamente empalhada, e amarela sobre
a tijoleira recozida e gasta.
No assento da cadeira, um pouco de tabaco num papel
ou num lenço (tabaco ou não?) e um cachimbo.
Perto do canto, num caixote baixo,
a assinatura. A mais do que isto, a porta,
uma azulada e desbotada porta.
Vincent, como assinava, e da matéria espessa,
em que os pincéis se empastelaram suaves,
se forma o torneado, se avolumam as
travessas da cadeira como a gorda argila
das tijoleiras mal assentes, carcomidas, sujas.
Depois das deusas, dos coelhos mortos,
e das batalhas, príncipes, florestas,
flores em jarras, rios deslizantes,
sereno lusco-fusco de interiores de Holanda,
faltava esta humildade, a palha de um assento,
em que um vício modesto – o fumo – foi esquecido,
ou foi pousado expressamente como sinal de que
o pouco já contenta quem deseja tudo.
Não é no entanto uma cadeira aquilo
que era mobília pobre de um vazio quarto
onde a loucura foi piedade em excesso
por conta dos humanos que lá fora passam,
lá fora riem, mas de orelhas que ouçam
não querem mesmo numa salva rica
um lóbulo cortado, palpitante ainda,
banhado em algum sangue, o «quantum satis»
de lealdade, amor, dedicação, angústia,
inquietação, vigílias pensativas,
e sobretudo penetrante olhar
da solidão embriagadora e pura.
Não é, não foi, nem mais será cadeira:
Apenas o retrato concentrado e claro
de ter lá estado e de ter lá sido quem
a conheceu de olhá-la, como de assentar-se
no quarto exíguo que é só cor sem luz
e um caixote ao canto, onde assinou Vincent.
Um nome próprio, um cachimbo, uma fechada porta,
um chão que se esgueira debaixo dos pés
de quem fita a cadeira num exíguo espaço,
uma cadeira humilde a ser essa humildade
que lhe rói de dentro o dentro que não há
senão no nome próprio em que as crianças têm
uma fé sem limites por que vão crescendo
à beira da loucura. Há quem assine,
a um canto, num caixote, o seu nome de corvo.
E há cantos em pintura? Há nomes que resistam?
Que cadeira, mesmo não-cadeira, é humildade?
Todas, ou só esta? Ao fim de tudo,
são só cadeiras o que fica, e um modesto vício
pousado sobre o assento enquanto as cores se empastam?
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▪ Jorge de Sena
( Portugal 🇵🇹 )
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