Rosa de Outono

Esta manhã que entra pela janela,
com o frio que sobrou da noite e o cinzento
que vai ficar para o dia, é fabricada com pedaços de tempo, restos
de cor, estilhaços de memória,
que vou colando na superfície branca
da alma.

Por vezes, um pássaro esquecido
do verão entra pela sala vazia, agita
o espaço abstracto com o seu voo
inquieto, acordando a música que
um tecto de nuvens sufoca – e
leva consigo a perfeição do instante
que as suas asas inventam.

Comparo o pássaro e a manhã,
sabendo que a tarde me irá cobrir
com a sua túnica
de sombra; e colo aos ombros
a luz que essa imagem me abre,
tão breve como um rosa
matinal que o outono
colhe no caule
do amor.

 

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▪ Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )

ARTE PERFORMÁTICA

Marina Abramović é uma artista performática que iniciou sua carreira no início da década de 1970 e manteve-se em atividade desde então. Considera-se a “avó da arte da performance”. O seu trabalho explora as relações entre o artista e a plateia, os limites do corpo e as possibilidades da mente.

Nascida na Iugoslávia, Abramovic teve uma infância bem difícil, com pouco afeto maternal, que futuramente influenciaria as suas obras.

Art is present

 

 

Tudo em ruínas

Liguei-te em aflição
porque sabias tudo sobre a tristeza
mas não acolheste a minha urgência

Quando respondeste
já a minha casa estava em ruínas
e o último cisne tinha partido.

 

▪ Luís  Raimundo Rodrigues
( Portugal 🇵🇹 )

 

Mãe, outra vez

Mãe, outra vez.
A caixa de papelão onde me deito
está suja de sangue. Mas não é o meu.
É pertença
de uma taça de vidro que chora no lugar da infância.

A matéria estilhaçada entra dentro de um corpo:
transparência e ainda outra transparência
na dualidade do espírito. A razão absoluta no eco.

Canto uma canção de embalar
e os vidros adormecem
no meu colo maternal
nas mãos curvas da surpresa.
As minhas filhas estão cheias de pequenos golpes:
visões distintas nesses impulsos de choro
que tento lamber à maneira das lobas.

 

 

▪ Adília César
( Portugal 🇵🇹 )

Azul

Um dia hás-de nascer fora de ti
num sobressalto novo deste céu
onde se afoga a luz da madrugada
já sem nenhuma estrela que te aceite
a translúcida febre das palavras.
Um dia hás-de romper os cegos nós
do monstro a que chamavas coração,
o antigo labirinto que te ilude
a inocente máquina do corpo
na escuridão dos passos desastrados
em busca de um azul que te conheça.
Um dia hás-de falar sem dizer nada
que o mundo compreenda e será teu
esse primeiro azul da madrugada.

 

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▪ Fernando Pinto do Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Saudade: Revista de Poesia”, n.º 11, Associação Amarante Cultural, Amarante, 2009

O MEU PAI MORREU HOJE OUTRA VEZ

O meu pai morreu hoje outra vez
ficou ali estendido no corredor
da nossa casa
já morreu três vezes
mas está sempre vivo

na catequese ouvi dizer
que Deus não teve princípio
nem terá fim

o meu pai é filho de pai incógnito
e não consegue morrer
se calhar o meu pai é Deus.

 


▪ Luis  Raimundo Rodrigues
( Portugal 🇵🇹 )

 

FINIS AMICITIAE

O pior de uma amizade que acaba
é vermos o metal de que era feita.
Com o fim dela, um mundo desaba
e o que se aprende não aproveita.

As fundações daquilo eram falsas,
a ternura era só investimento.
As palavras ternas dançavam valsas,
que tinham, depois, facturamento.

Numa amizade semeamos tanto!
Ela é como se fosse uma casa,
cheia de tesouros e de encanto.

Descobrir que ela é falsa arrasa:
o que foi grande e bom e já não é
desvela, em nós, um morto em pé.

 

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▪ Eugénio Lisboa
( Portugal 🇵🇹 )

Mas eu ainda não descobri outra maneira de analisar a poesia para além do secretíssimo estremeção,
como um choque eléctrico, que alguns versos que lemos descarregam sobre o nosso coração.

 

▪ Manuel Hermínio Monteiro
( Portugal 🇵🇹 )