ARTE PERFORMÁTICA

Marina Abramović é uma artista performática que iniciou sua carreira no início da década de 1970 e manteve-se em atividade desde então. Considera-se a “avó da arte da performance”. O seu trabalho explora as relações entre o artista e a plateia, os limites do corpo e as possibilidades da mente.

Nascida na Iugoslávia, Abramovic teve uma infância bem difícil, com pouco afeto maternal, que futuramente influenciaria as suas obras.

Art is present

 

 

Tudo em ruínas

Liguei-te em aflição
porque sabias tudo sobre a tristeza
mas não acolheste a minha urgência

Quando respondeste
já a minha casa estava em ruínas
e o último cisne tinha partido.

 

▪ Luís  Raimundo Rodrigues
( Portugal 🇵🇹 )

 

Mãe, outra vez

Mãe, outra vez.
A caixa de papelão onde me deito
está suja de sangue. Mas não é o meu.
É pertença
de uma taça de vidro que chora no lugar da infância.

A matéria estilhaçada entra dentro de um corpo:
transparência e ainda outra transparência
na dualidade do espírito. A razão absoluta no eco.

Canto uma canção de embalar
e os vidros adormecem
no meu colo maternal
nas mãos curvas da surpresa.
As minhas filhas estão cheias de pequenos golpes:
visões distintas nesses impulsos de choro
que tento lamber à maneira das lobas.

 

 

▪ Adília César
( Portugal 🇵🇹 )

Azul

Um dia hás-de nascer fora de ti
num sobressalto novo deste céu
onde se afoga a luz da madrugada
já sem nenhuma estrela que te aceite
a translúcida febre das palavras.
Um dia hás-de romper os cegos nós
do monstro a que chamavas coração,
o antigo labirinto que te ilude
a inocente máquina do corpo
na escuridão dos passos desastrados
em busca de um azul que te conheça.
Um dia hás-de falar sem dizer nada
que o mundo compreenda e será teu
esse primeiro azul da madrugada.

 

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▪ Fernando Pinto do Amaral
( Portugal 🇵🇹 )
in “Saudade: Revista de Poesia”, n.º 11, Associação Amarante Cultural, Amarante, 2009

O MEU PAI MORREU HOJE OUTRA VEZ

O meu pai morreu hoje outra vez
ficou ali estendido no corredor
da nossa casa
já morreu três vezes
mas está sempre vivo

na catequese ouvi dizer
que Deus não teve princípio
nem terá fim

o meu pai é filho de pai incógnito
e não consegue morrer
se calhar o meu pai é Deus.

 


▪ Luis  Raimundo Rodrigues
( Portugal 🇵🇹 )

 

FINIS AMICITIAE

O pior de uma amizade que acaba
é vermos o metal de que era feita.
Com o fim dela, um mundo desaba
e o que se aprende não aproveita.

As fundações daquilo eram falsas,
a ternura era só investimento.
As palavras ternas dançavam valsas,
que tinham, depois, facturamento.

Numa amizade semeamos tanto!
Ela é como se fosse uma casa,
cheia de tesouros e de encanto.

Descobrir que ela é falsa arrasa:
o que foi grande e bom e já não é
desvela, em nós, um morto em pé.

 

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▪ Eugénio Lisboa
( Portugal 🇵🇹 )

Mas eu ainda não descobri outra maneira de analisar a poesia para além do secretíssimo estremeção,
como um choque eléctrico, que alguns versos que lemos descarregam sobre o nosso coração.

 

▪ Manuel Hermínio Monteiro
( Portugal 🇵🇹 )

UM HOMEM

Um homem
tinha sempre vontade
de irromper pelo palco
durante uma representação teatral
e fazer algo indecente.

Esse homem foi consultar
um psicólogo.
O psicólogo tinha um passatempo:
coleccionava moscas
e cabides roubados
em centros comerciais.

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▪ Jan Kaus
( Estónia 🇪🇪 )
Mudado para português por Vasco Gato

VOZES NA CIDADE

(…)

todos têm uma voz
alta, baixa, aguda, grave
rouca, intensa, suave

todos têm uma voz
só que muitos não a usam
com medo de tudo e todos

e assim deixam que outra
que não sua mas de outro
tome então o seu lugar

e saem por aí dizendo coisas
que na real não acreditam
mas que não tem força de evitar

(…)

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▪ Timo Berger
(Brasil 🇧🇷 )

 


Gravação de vozes por Maria Azenha