AGORA QUE O AMANHÃ

Agora que o amanhã é apenas
ficar mais velha
no meio das pausas e dos passos pelo corredor

a tua ausência não mudou o lugar de nada
e há palavras que ocupam cada vez mais espaços

vivo neste tempo de casas dispersas
e tenho medo de sair

 


▪  Maria Sousa
( Portugal 🇵🇹 )

 

 

Le problème est que nous cherchons quelqu’un pour vieillir ensemble , alors que le secret est de trouver quelqu’un avec qui rester enfant.

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▪ Charles Bukowski
( E.U.A. 🇺🇲 )

NO FINAL

No final, muito poucas são as palavras
que realmente nos magoam, e muito poucas
as que conseguem alegrar a alma.
E são também muito poucas as pessoas
que tocam nossos corações, e ainda
menos as que o fazem por muito tempo.
No final, são pouquíssimas as coisas
que realmente importam na vida:
ser capaz de amar alguém, ser amado
e não morrer antes de nossos filhos.

 

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▪ Amalia Bautista
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português do brasil por Nelson Santander

O MENINO ESTAVA A BRINCAR NA NEVE

O menino estava a brincar na neve
Passei por ali com uma lâmina de gelo
na mão
escrevendo poemas no ar
O que estás a fazer? perguntou-me o menino
que brincava na neve
Escrevo poemas no ar
não vês?
Sim, vejo
mas isso vai gelar-te a mão
disse-me o menino que estava a brincar na neve

 

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▪ Pentti Saariskoski
(Finlândia 🇫🇮)

Queria que me acompanhasses

Queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos

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▪ Ana Paula Inácio
( Portugal 🇵🇹 )
In “Poetas sem qualidades”, Edições Averno, 2002

 

A DIVISIBILIDADE DOS AROMAS

Pela janela vem o cheiro da manhã, da relva
e das rosas salpicadas de fresco que se casam com o cheiro
dos lençóis sonolentos. Ao bater a porta já só sinto
o meu perfume, o que pomos por cima das certezas
e das duvidas, por cima dos segredos que trespassam a pele.
Em breve me confundirei com o cheiro dos outros,
——————————————————  ——–daquele homem
vergado pelo saco das batatas, da florista a compor as
—————————————————–  ————–margaridas,
da peixeira à porta da vizinha mostrando as goelas
—————————————————-  ————— sangrentas
(talvez porque se tenha levantado cedo e apregoar assim
fere a garganta), das crianças a caminho da escola, de todos
os que hão-de cruzar o meu dia e de ti que hás-de cruzar
também a minha noite. Contar-te-ei todas as horas com
——————————————————–  ————-a mistura
dos aromas que me compõem e ouvirei na tua pele
a subtil diferença entre os dias. Amanhã fecharemos a porta
e o teu cheiro irá entranhado em mim até a uma
——————————————————– —–distância infinita
das rosas que cantam à janela e seguirei pela estrada
estendendo a pele às dádivas do dia.

 

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▪ Rosa Alice Branco
( Portugal 🇵🇹 )
In “Das Tripas Ao Coração”, Campo das Letras, Porto

PARTO

O poema doía
porque queria nascer.

Agora
já não está cá dentro.
Sanguinolento
já me resvala
rápido-lento.
Parteira dele
dele me aparto deixo-o partir
ao sol da lua
ao ar do vento.

Agora é ele
já não sou eu.

Já não me dói. (Só me doeu)

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▪ Ana Goês
( Portugal 🇵🇹 )
in “Queria dizer palavras