Quarta-Feira de Cinzas!

Os rituais antigos não esquecem mais.
O meu tempo de menina era ritmado por essas datas
que implicavam gestos e comeres próprios.
Até o laico Carnaval!
Esses símbolos foram-se e nada os substituiu.
Os dias do ano agora são meninos de asilo
vestidos todos com o mesmo bibe.
Estes versos são talvez uma maneira de os distinguir.
O dia acordou taciturno
de cinzas mesmo.
Em menina a Quarta-feira de cinzas era o meu clandestino
Carnaval
sozinha na varanda
lançando para meu único regalo
os restos de serpentinas e confetis que tinha trazido
da festa de Terça Feira Gorda.
Agora todos os dias são magros.
É da tristeza do dia
esta melancolia
bem sei.
Dantes a minha Quarta-feira de Cinzas era alegre
porque gozava em solidão o já passado Carnaval.
“Tu gostas da solidão.
Eu não.”
Dizia a minha Mãe
e é verdade.
Vá lá saber porquê.
Mas a solidão não é triste
quando fazemos boa companhia a nós próprios.
E a melancolia toca violino.


▪ Teresa Rita Lopes
( Portugal 🇵🇹 )

SE FOSSE DEUS

Se fosse Deus, pintava um quadro:
uma porta meio aberta e a escadaria suave;
no cimo, a minha mãe.
E arranjava maneira de o sorriso dela estar a dizer:
a porta está como a deixaste e
sei que me levaste os olhos.
Não dava nome ao quadro e
todos iam entender que era o retrato do céu.

 


▪ Zef
( Portugal 🇵🇹 )

J’habite une douleur

Não entregues o cuidado de governar o coração a essas ternuras semelhantes ao outono do qual imitam o ritmo plácido e a agonia afável. O olhar enruga-se precocemente. O sofrimento conhece poucas palavras. É melhor que te deites sem fardos: sonharás com o futuro e a cama ser-te-á leve. Sonharás que a tua casa não tem vidros. Estás impaciente para te unires ao vento, ao vento que numa noite percorre um ano. Outros cantarão a encarnação melodiosa, a carne que não personifica senão o feitiço da ampulheta. Tu condenarás a gratidão que se repete. Mais tarde, identificar-te-ão a um qualquer gigante desintegrado, senhor do impossível.

E no entanto.

O que fizeste apenas aumentou o peso da tua noite. Voltaste à pesca nas muralhas, à canícula sem verão. Estás furioso contra o teu amor no centro de uma conivência aflita. Idealizas a casa perfeita que nunca verás edificada. Para quando a safra do abismo? Mas tu vazaste os olhos do leão. Tu julgas ver a beleza passar por cima das lavandas negras…

O que é que te ergueu, ainda uma vez, um pouco mais alto, sem te convencer?

Não há morada pura.

 


▪René Char
( França 🇨🇵 )
Mudado para português por Soledade Santos

A PARTIDA

Dizem que
a sua cabeça já não está grande coisa
esse é o privilégio dele
vê o que ninguém vê
um anjo branco e azul que o leva pela mão
amanhã quero ver o que dizem
os que têm a cabeça boa quando virem
que ele deixou sobre a cómoda
o Anel de Nibelungo.

 

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▪ Luís Rodrigues
( Portugal 🇵🇹 )

 

INCÊNDIO

Se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha – não te assustes

são os teu antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te

diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo – diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas – com eles no chão

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▪ Al Berto
( Portugal 🇵🇹 )