O MEU PAI MORREU HOJE OUTRA VEZ

O meu pai morreu hoje outra vez
ficou ali estendido no corredor
da nossa casa
já morreu três vezes
mas está sempre vivo

na catequese ouvi dizer
que Deus não teve princípio
nem terá fim

o meu pai é filho de pai incógnito
e não consegue morrer
se calhar o meu pai é Deus.

 

–
▪ Luis  Raimundo Rodrigues
( Portugal 🇵🇹 )

 

FINIS AMICITIAE

O pior de uma amizade que acaba
é vermos o metal de que era feita.
Com o fim dela, um mundo desaba
e o que se aprende não aproveita.

As fundações daquilo eram falsas,
a ternura era só investimento.
As palavras ternas dançavam valsas,
que tinham, depois, facturamento.

Numa amizade semeamos tanto!
Ela é como se fosse uma casa,
cheia de tesouros e de encanto.

Descobrir que ela é falsa arrasa:
o que foi grande e bom e já não é
desvela, em nós, um morto em pé.

 

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▪ Eugénio Lisboa
( Portugal 🇵🇹 )

Mas eu ainda não descobri outra maneira de analisar a poesia para além do secretíssimo estremeção,
como um choque eléctrico, que alguns versos que lemos descarregam sobre o nosso coração.

 

–

▪ Manuel Hermínio Monteiro
( Portugal 🇵🇹 )

UM HOMEM

Um homem
tinha sempre vontade
de irromper pelo palco
durante uma representação teatral
e fazer algo indecente.

Esse homem foi consultar
um psicólogo.
O psicólogo tinha um passatempo:
coleccionava moscas
e cabides roubados
em centros comerciais.

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▪ Jan Kaus
( Estónia 🇪🇪 )
Mudado para português por Vasco Gato

VOZES NA CIDADE

(…)

todos têm uma voz
alta, baixa, aguda, grave
rouca, intensa, suave

todos têm uma voz
só que muitos não a usam
com medo de tudo e todos

e assim deixam que outra
que não sua mas de outro
tome então o seu lugar

e saem por aí dizendo coisas
que na real não acreditam
mas que não tem força de evitar

(…)

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▪ Timo Berger
(Brasil 🇧🇷 )

 


Gravação de vozes por Maria Azenha

O TAL PRAZER DA ESCRITA

A escrita é muitas coisas mas é também uma forma de salvação: ela descobre, ela acicata a memória, fecha-nos às aflições do momento, mergulhando-nos num universo prodigioso, escudado e inacessível às turbulências exteriores.

E cura-nos, pela alegria que nos dá o encontrar as palavras certas para exprimir o inefável.

A escrita é a melhor arma de defesa e de ataque de que dispomos. Nenhuma nos defende tão bem de uma ferida ou faz, nos outros, uma ferida tão perene.

A escrita foi inventada por alguém que precisava muito dela, para registar informações. Assim, começou por ser útil e passou a ser agonicamente necessária.

Escrevo, logo existo.
Mas também: escrevo, logo não sofro.

Quando escrevo, falo de um sofrimento que já foi, mas que deixa de o ser, no momento em que o escrevo. A funda alegria de o escrever mata o sofrimento que já se sentiu, mas se apaga ante o fulgor da escrita.

Como dizia Montherlant, o escritor é aquele ser peculiar, que sofre, não sofrendo.

O Camões que escreveu o “Alma minha” não sentia, no momento em que a invocava, saudades da morta, sua amada. O que ele sentia, no momento da escrita, era a alegria de escrever uma saudade, que sentira, antes de a escrever, mas que não podia sentir, no momento em que a escrevia.

O escritor é um monstro que mata, sem escrúpulos, no momento de o celebrar, o mais profundo sentimento que antes o afligira, para melhor o poder glosar, com os utensílios da sua arte.

A alegria de escrever, o tal prazer da escrita tem muito de inumano.

O grande escritor é, na sociedade em que vive, um suspeito a vigiar, porque pode ser perigoso. Por isso, o escritor Tonio Kröger, da famosa novela de Thomas Mann, ao regressar um dia, na tarde da sua vida, coberto de glória, à sua terra natal, torna-se suspeito, aos olhos da polícia local, que o toma por um malfeitor…

Não nos esqueçamos de que o grande William Faulkner declarou um dia que seria capaz de matar meia dúzia de velhinhas, se isso lhe permitisse escrever a belíssima ODE A UMA URNA GREGA, do poeta John Keats.

Um poeta é capaz de tudo, mesmo de vender a alma ao diabo, para acertar um verso ou colocar uma vírgula no lugar certo.

Quem não compreende isto não compreende nada deste ofício nem dos seus oficiantes.

 

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▪ Eugénio Lisboa
( Portugal 🇵🇹 )

E EXISTE MESMO UM CIRCO NO CÉU?

E existe mesmo um circo no céu?
Mamãe diz que sim.
Papai ri, teve más experiências com Deus.
Se Deus fosse Deus, desceria para nos ajudar, diz.
Mas por que ele deveria descer se, afinal de contas, nós viajaremos até ele mais tarde?
Seja como for, os homens acreditam menos em Deus do que as mulheres e as crianças, por causa da concorrência. Meu pai não quer que Deus também seja meu pai.

 

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▪ Aglaja Veteranyi
( Roménia 🇹🇩 )

Mudado para português do brasil por  Fabiana Macchi