Receita para fazer um poema dadaísta

Pegue num jornal.
Pegue numa tesoura.
Escolha no jornal um artigo com o comprimento que pensa dar ao seu poema.
Recorte o artigo.
Depois, recorte cuidadosamente todas as palavras que formam o artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Seguidamente, tire os recortes um por um.
Copie conscienciosamente pela ordem em que saem do saco.
O poema será parecido consigo.
E pronto: será um escritor infinitamente original e de uma adorável sensibilidade, embora incompreendido pelo vulgo.

 

▪ Tristan Tzara
( Roménia 🇷🇴)

 

 

REFEITÓRIOS

Os enfermos não têm encontros marcados
Nem jantam à luz das velas
Em mesas de toalhas de linho e pratos de porcelana
Nem bebem vinho de reserva
Em copos de cristal de pé alto
Nem são convidados para festins
Cheios de homens sábios que falam sobre Eros
Exuberantes e orgiásticos
Com Platão, Sócrates e Diotima sentados à cabeceira
Ficam calados
As mãos quietas sobre os joelhos
E histórias que deixaram esquecidas na mesinha junto à cama
Das que contaram nas horas de tédio
E que despejaram dentro de um jarro
De água
E que bebem de vez em quando
Para matar uma sede desconhecida
De vida e de beleza
De delírio
São como um enorme simpósio de silêncio
Uma voz oracular
Sem reflexões filosóficas.

 


▪  Ana Paula jardim
( Portugal 🇵🇹 )
in “Enfermaria”, Guerra e Paz Editores, 2022

TESOURO

No inverno os guardas arrancaram o cobertor da
pele dos habitantes do jardim. Um deles não verá o dia.

Na primavera foram lançadas garrafas cegas
nas casas assinaladas, que se incendiaram.

À noite busquei refúgio em teu corpo
como um menino se abriga no pé de morango.

Ouvir somente a tua respiração
apoiar-me em ti da cabeça aos pés e por um instante

não ver nuvens de veneno e de ocaso
acumulando-se pesadas.

Que mais direi.

Que és na minha pobreza o tesouro oculto
que a mão deles não alcançará.

Que eu seja na tua pobreza o tesouro oculto
que o saber deles não alcançará.

 

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▪ Tal Nitzán
( Israel  🇮🇱 )

Mudado para português do Brasil por Moacir Amancio

LA ASIMETRÍA

Dos hermanas gemelas de camino.

Quien con ellas se cruza nunca aclara
a cuál mirar. Si habla hacia la una,
piensa en la otra, pero no distingue
la que devuelve su saludo. Vistan
distinto o igual, tampoco importa mucho.
Solo se diferencian por sus hábitos.

Una sostiene el libro, otra pasa
la página. Una, el cazo; otra,
el cucharón. Una sujeta el peine,
otra estira los rizos. Y mientras una escribe,
la de enfrente dormita. Soñadora,
la que prefiere ir oculta en el bolsillo.

Dos hermanas que solo rezan juntas.

 

 

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▪ José Ángel Cilleruelo
( España 🇪🇦 )
Publicado con autorización previa del autor

UM DIA VIRÁ

Um dia virá
em que a minha porta
permanecerá fechada
em que não atenderei o telefone
em que não perguntarei
se querem comer alguma coisa
em que não recomendarei
que levem os casacos
porque a noite se adivinha fresca.

Só nos meus versos poderão encontrar
a minha promessa de amor eterno.

Não chorem; eu não morri
apenas me embriaguei
de luz e de silêncio.


▪ Rosa Lobato de Faria
( Portugal 🇵🇹 )
in ‘A Noite Inteira Já Não Chega’ | (Poesia – 1983-2010)

APRENDI

Aprendi que ninguém precisa saber que estamos tristes ou como anda a nossa vida. Aprendi que, qualquer que seja o problema que tenhamos, ele pertence só a nós.
Aprendi a guardar as dores e os momentos difíceis só pra mim. Aprendi também que os melhores textos saem sempre das mãos de quem sabe isolar-se e tem como companhia apenas o silêncio.
Aprendi igualmente que ninguém se importa como estamos, nem como foi o nosso dia. Aprendi que poucos dão valor ao que fazemos por eles, e poucos sabem valorizar a nossa companhia.
Aprendi a não me importar com a forma como agem comigo e a não guardar mágoas no coração. E, por isso, sou diferente de muitos. Aprendi a não me importar com os pensamentos de fulano ou sicrano, que não conheço, nem sabem quem sou.
E, hoje, só me importo com o bem-estar que posso proporcionar aos que amo e a viver com a felicidade no meu sorriso.


▪ Helena Sacadura Cabral
( Portugal 🇵🇹 )

Dizias que gostavas

Dizias que gostavas de poemas.
Escrevi-te, numa tarde, mais de cinco.
São muito bonitos, disseste,
hei de mostrá-los ao meu namorado.
Nunca mais confiei nos versos
nem no gosto feminil.

 

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▪ José Miguel Silva
( Portugal 🇵🇹 )
in “Vista para um pátio seguido de Desordem”

INSTANTE

 

INSTANTE

Uma boneca sem cabeça
ao colo de uma criança morta
entre destroços

uma aranha
em
seus cabelos

não há perguntas nem respostas

 
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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “A Casa da Memória”
— inédito —

 

MOMENT

A doll with no head
lolling in a dead child’s lap
among the wreckage

a spider
in
her hair

nothing to ask or to answer

 

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
in “The House of Remembrance
— unpublished —

 Translation by Lesley Saunders 🇬🇧 Poet and educationalist