Olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas.
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▪ Ana Cristina César
( Brasil 🇧🇷 )
Olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas.
_
▪ Ana Cristina César
( Brasil 🇧🇷 )
“Eu acho que a vou ter!”
disse eu, brincando entre as dores.
A parteira enrolou com competência
as mangas nos braços leitosos e corpulentos.
“Querida, tu nunca a vais ter,
mas sim pari-la”.
Um juízo que os anos revelaram ser verdadeiro.
Com certeza, eu nunca te tive,
como tu ainda me tens, Caroline.
Por que é que uma mãe precisa de uma filha?
Uma agulha no coração, refém da sorte,
o fim da liberdade. No entanto, nada é mais perfeito
do que aquele balido, aquele choro em forma de lâmina
que uma mãe passa ao seu bebé.
A pinça do cordão que segura
as suas esferas. A pequena
criança, sozinha, cria a mãe.
A vida de uma mulher é sua
até que lhe seja levada
por um primeiro e particular choro.
Então ela deixa de estar só
e passa a fazer parte das premissas
de tudo o que existe:
um tempo, uma tribo, uma guerra.
Só quando pertencemos ao mundo
nos tornamos no que somos.
_
▪ Anne Stevenson
(E.U.A. 🇺🇲 / U.K 🇬🇧)
Mudado para português por _ Jorge Sousa Braga
Digo a minha mãe que
ganhei o Prémio Nobel.
De novo? diz ela. Em qual
categoria desta vez?
É uma brincadeira
que fazemos: eu finjo
que sou alguém, ela
finge que não está morta.
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▪ Andrea Cohen
(E.U.A. 🇺🇲)
Mudado para português por _ Nelson Santander
*
The Committee Weighs In
I tell my mother
I’ve won the Nobel Prize.
Again? she says. Which
discipline this time?
It’s a little game
we play: I pretend
I’m somebody, she
pretends she isn’t dead.
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▪ Andrea Cohen
(U.S.A. 🇺🇲)
in “Nightshade”, Four Way Books, 2019
Convida-me só para jantar
E não queiras depois fazer amor.
Convida-me só para jantar
num restaurante sossegado numa mesa de canto
e fala devagar
e fala devagar
eu quero comer uma sopa quente
não quero comer mariscos
os mariscos atravancam-me o prato
e estou cansada para os afastar
fala assim devagar
devagar
não é preciso dizeres que sou bonita
mas não me fales de economia e de política
fala assim devagar
devagar
deita-me o vinho devagar
quando o meu copo estiver vazio.
Estou convalescente
sou convalescente
não é preciso que o percebas
mas por favor não faças força em mim.
Fala, estás-me a dar de jantar
estás-me a pôr recostada à almofada
estás-me a fazer sorrir ao longe
fala assim devagar
devagar
devagar
_
▪Ana Goês
( Portugal 🇵🇹 )
in “366 Poemas Que Falam de Amor“, 2004
O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo,
e as formas e as proporções exactas, mesmo das coisas que os sábios desconhecem.
Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,
e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,
com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.
Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos
e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos na luta entre as pátrias
e o movimento ululante das cidades marítimas onde se falam todas as línguas da terra
e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas
e a luz do deserto incandescente e trémula, e os gestos dos pólos, brancos, brancos,
e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram
e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando com contos-de-fada à hora da infância
e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas
e correndo pela costa de mãos jogadas pró mar amaldiçoando a tempestade:
– todas as cores, todas as formas do mundo se agitam e gritam nos olhos do poeta.
Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,
sai uma estrela voando nas trevas
tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.
E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta
que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no mundo.
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▪Manuel da Fonseca
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poemas Completos (1958)”
A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.
Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.
É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.
É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão de uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é, da relação com uma matéria, como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia a qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz «obscuro», «amplo», «barco», «pedra» é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o «obstinado rigor» do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.
E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.
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▪Sophia de Mello B. Andresen
( Portugal 🇵🇹 )
in “Geografia ( 1968)”
Um homem
de repente
como uma flor violenta
um homem com uma bomba à altura do peito
e que chora convulsivamente
um homem belo minúsculo
como uma estrela cadente
e que sangra
como uma estátua jacente
esmagada sob as asas do crepúsculo
um homem com uma bomba
como uma rosa na boca
negra surpreendente
e à espera da festa louca
onde o coração lhe rebente
um homem de face aguda
e uma bomba
cega
surda
muda
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▪ António José Forte
( Portugal 🇵🇹 )
A hiena ama os tanques de guerra
que ficam em pé nos desertos
porque a tripulação morreu.
Ela sabe esperar.
Ela espera até que mil e uma
tempestades de areia corroam o aço.
Então chega a sua hora.
A hiena é o animal heráldico da Matemática,
ela sabe que não pode ficar nenhum resto,
o seu deus é o zero.
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▪ Heiner Müller
(Alemanha 🇩🇪 )
Mudado para português por Luis Costa
Pátria sem rumo,minha voz parada
Diante do futuro!
Em que rosa-dos-ventos há um caminho
Português?
Um brumoso caminho
De inédita aventura,
Que o poeta,adivinho,
Veja com nitidez
Da gávea da loucura?
Ah, Camões, que não sou, afortunado!
Também desiludido,
Mas ainda lembrado da epopeia…
Ah, meu povo traído,
Mansa colmeia
A que ninguém colhe o mel!…
Ah, meu pobre corcel
Impaciente,
Alado
E condenado
A choutar nesta praia do Ocidente…
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▪Miguel Torga
( Portugal 🇵🇹 )
in Diário XII, 136.
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