A MATERNIDADE NÃO ME ABORRECE

A maternidade não me aborrece e devo afirmar até que, dada a influência determinante de minha mãe, em mim, sou uma pessoa marcada pelo signo materno. Tenho um apreço muito especial pela maternidade.
Só que à mulher não compete apenas uma maternidade de tipo fisiológico. Cabe-lhe ultrapassar esse aspecto na medida em que pode conquistar uma sabedoria de tipo maternal para intervir no mundo, e orientá-lo.
Um mundo onde só o homem tem a palavra, palavra essa que é origem de tantos desmandos, guerras, conflitos e soluções precárias de carácter económico e social.
Estruturalmente, a mulher é avessa, alérgica à ideia de guerra e de conflito.
A sua própria experiência maternal a predispõe contra a guerra.
Dá vida mas não gosta de contribuir para a sua destruição.
É por uma actuação pacífica.

▪ Natália Correia
( Portugal 🇵🇹 )
in ‘Entrevista (1969)

FARMÁCIA

Eu nada sei
do mal de que padeço

e todavia confesso
o que me aflige

Sinto dores fortes
quando vejo o azul

a beleza me fere
espanta e fascina

o passar do tempo
me dá vertigem

e me prende
em suas teias irreversíveis

os pássaros me deixam
intranquilo no ocaso

e quando vejo seu rosto
meu coração dispara

Preciso de um remédio
para curar-me do mal de ter nascido.

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▪ Marco Lucchesi
( Brasil 🇧🇷 )
in “Domínios da Insônia”, Editora Patuá, 2019.

 

ÀS VEZES

Às vezes sentimos que o tempo chegou ao fim, que
as portas se estão a fechar por trás de nós, que já nenhum ruído
de passos nos segue; e temos medo de nos voltar, de dar
de frente com essa sombra que não sabíamos que nos
perseguia, como se ela não andasse sempre atrás de nós,
e não fosse a nossa mais fiel companheira. Às vezes,
em tudo o que nos rodeia, encontramos essa impressão de
que não sabemos onde estamos, como se o caminho para
aqui não tivesse sido o mesmo, desde sempre, e tudo
devesse ser-nos, pelo menos, familiar. A solução é pegar
no fim e metê-lo à boca, como se fosse uma pastilha
elástica, derreter o sabor que o envolve, por amargo
que seja, e no fim pegar nesse resto que ficou e, tal
como se faz à pastilha elástica, deitá-lo fora. Para
que queremos nós o nosso próprio fim? Já bastou
tê-lo saboreado, derretido na boca, sentido o seu
amargo sabor. Então, libertos do nosso fim, veremos
que as portas se voltarão a abrir, que a gente continua
a andar à nossa volta, que a sombra já não nos mete medo,
e que se nos voltarmos teremos pela frente o rosto
desejado, o amor, a vida de que o fim nos queria ter privado.

 
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▪ Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )

 

ODE AO PACEMAKER

A minha avó era trans humanista tinha um pacemaker,
transístor acomodado na gaiola do tórax
com faísca dada por físico prodigioso
num bloco operatório soturno.
A minha avó era descrente do progresso
encomendava-se a Nossa Senhora,
cumpria cá penitência
acatava a lida austera e linear – a ciência
só empurrada
e o corpo casa alheia calcinada num incêndio.
Natural seria cortá-la prematura a gadanha
por subir em esforço a pétrea escada
numa tarde canicular – finar-se
abismada num silvado.
Natural era deixar o músculo persistir
na conduta negligente
deixá-lo fazer má figura
igual ao ébrio que a desoras desagua no recinto
e cuida acertar o passo com o ritmo
de uma fanfarra inexistente.
Mas na carne feita à imagem do eterno
Enfiou-se o pequeno artefacto
para induzir sem falha o pulsar antinatural
– ó sabotagem soez da salvação,
arrogância do artificio
e da razão!
A minha avó fora portanto melhorada
e o divino barro assim conspurcado
por exíguo gerador
e fios de cobre condutor
que jamais carne humana gerou.
À humílima pilha agradeço cada minuto
que lhe estendeu o trânsito na terra,
cada batimento que a fez subir a escada
a guiar os patos a casa
como se fora sua mãe.

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▪ Rui Lage
( Portugal 🇵🇹 )

Coloco sobre a mão a luz para que o rosto me deslumbre

Coloco sobre a mão a luz para que o rosto me deslumbre nesse jogo de sombras.
É um meridiano amargo o sangue que une agora os nossos corpos – as aves
afadigam-se sobre os ninhos, neste inverno.

A minha mão vazia segura uma escada para o teu corpo,
um tapete de lume ferido pela obscuridade –

enquanto que da alma tudo ignoramos.

 

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▪ Jorge Velhote
( Portugal 🇵🇹 )
In “Máquina de Relâmpagos”, Edições Afrontamento, 2005

VELAS (1899)

Os dias do futuro estão à nossa frente
como uma fila de velas acesas
velas douradas, quentes e vivazes.
Os dias do passado ficam para trás,
triste fila de velas apagadas;
ainda deitam fumo as mais chegadas,
mas frias, derretidas e torcidas.
Não quero vê-las, dói-me o seu aspecto
dói-me lembrar a sua luz primeira.
Olho em frente as minhas velas acesas.
Não quero voltar-me pra não ver, aterrado,
que depressa vai crescendo a fila sombria,
que depressa vão crescendo as velas apagadas.

 

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▪ Konstantinos Kaváfis
( Egipto  🇪🇬 )
Poesia mudada para português por Manuel Resende

TEORIA DA NARRATIVA FAMILIAR

Naquele tempo o meu pai trabalhava
por turnos
como herói socialista
no sector siderúrgico
e dormia com a minha mãe.
A minha mãe esfregava
a sarja encardida:
a água ficava da cor da ferrugem.
Havia, por perto, um cão
esgalgado,
sempre a rondar.
Depois, a minha irmã nasceu
e eu fui obrigado
a rever a minha mitologia privada do caos.
Entre uma coisa e outra
aprendi a mentir.
E isso, não sei se sabem, mudou tudo.

 
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▪ Luís Filipe Parrado
( Portugal 🇵🇹 )
in “Entre a Carne e o Osso”, Língua Morta, Lisboa, 2012
 

MUDANÇA

Havia meses que não escrevia
nem um único poema.
Vivia com humildade, lendo os jornais,
pensando no enigma do poder
e nas causas da obediência.
Olhava para os pores-do-sol
(escarlates, cheios de inquietação),
escutava o emudecimento das vozes dos pássaros
e o silêncio da noite.
Via os girassóis a pendurarem
as cabeças ao lusco-fusco, como se um carrasco distraído
passeasse por entre os jardins.
No parapeito recolhia-se
a doce poeira de Setembro enquanto os lagartos
se escondiam nas curvaturas dos muros.
Dava longos passeios,
sedento duma coisa só:
dum relâmpago,
duma mudança,
de ti.

 

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▪ Adam Zagajewski
( Polónia 🇵🇱 )
in “Sombras de sombras”, Selecção e Tradução de Marco Bruno 🇵🇹, Editora Tinta da China, Lisboa, 2017

DOIS POEMAS CHILENOS

Quando cheguei a Santiago
o outono fugia pelas alamedas
feito um ladrão
___________Latifúndios com nome de gente, famílias
com nome de empresas
____________________também fugiam
_________com dólares e dolores
_________no coração
_________Quando cheguei a Santiago em Maio
_________em plena revolução

II

Allende, em tua cidade
ouço cantar esta manhã os passarinhos
da primavera que chega.
Mas tu, amigo, já os podes escutar

Em minha porta, os fascistas
pintaram uma cruz de advertência.
E tu, amigo, já não a podes apagar

No horizonte gorjeiam
esta manhã as metralhadoras
da tirania que chega
_________________para nos matar
E tu, amigo,
já nem as podes escutar

 

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▪ Ferreira Gullar
( Brasil 🇧🇷 )
in “Dentro da noite veloz”, Editions Eulina Carvalho, Paris, 2003

 



 

DEUX POÈMES CHILIENS

 

I

Quand je suis arrivé à Santiago
l’ automme s’ enfuyait par les avenues
tel un voleur
__________Des latifundia portant des noms de personnes,
des familles au nom d’entreprises
___________________________s’enfuyaient aussi
_________avec des dollars et des douleurs
_________au coeur
_________Quand je suis arrive à Santiago en mai
_________en pleine révolution

II

Allende, dans ta ville
j’entends chanter ce mantin les oiseaux
le printemps que arrive.
Mais toi, ami, tu ne peux plus les écouter

Sur ma porte, les fascistes
ont peint une croix en guise d’avertissement.
Et toi, ami, tu ne peux plus I’effacer

À l’horizon gazouillent
ce matin les mitrailleuses
de la tyrannie qui arrive
___________________ pour nous tuer
Et toi, ami,
tu ne peux même plus les écouter

 

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▪ Ferreira Gullar
( Brasil 🇧🇷 )
in “Dans la nuit véloce”, Editions Eulina Carvalho, Paris, 2003
Tradução – L. Gonçalves et D. Lamaison