AGORA

Há um martelo de enigmas,
um martelo louco batendo nos nervos,
esmagando as fibras,
há um estrondo subterrâneo que sobe para as fontes,
mas não explode,
não explode esta cabeça vencida, caída sobre
a mesa,
sobre a toalha bordada entre o jejum e as
missas,
nas terras do pai.

Há um globo de magias em desuso que não
perturba quem chega, quem se senta
com as mãos abertas, com a faca atrás,
pelo lado das costas que lançam nas paredes
um vulto sinistro, em silêncio, à espera.

Eu sei porque veio, o que quer, o que faz aqui,
mas tu ergues os cálices,
tu olhas para ela e ofereces uma rosa e
repartes o pão,
e depois adormeces e entras no túnel que dá
para as colinas de Deus,
para os seus antigos.

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▪ José Agostinho Baptista
( Portugal 🇵🇹 )
in “Biografia”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000

ÚLTIMO SOL NO ROCHEDO

Último sol no rochedo.
Último horizonte vigilante
de marés e tufões.

Lembrei-me de repente daquele deus marinho
…………………………………………………………de Camões
sem nenhuma nereida que lhe aqueça
a pele petrificada do desejo,
o corpo de ostras e camarões
– a cabeça coberta
com a casca
de um caranguejo.

Só a casca?
E o resto? Quem o comeu?
– gula de águia.

Talvez aquela nuvem além no céu
com bico de vapor de água.

 

_

▪ José Gomes Ferreira
( Portugal 🇵🇹 )
in “ Poesia VI”

TRÊS POEMAS DE CHARLES SIMIC


A caixa de música

Senhoras e cavalheiros em linhas de retratos
Na sala de estar da tua casa da cidade,
Sobre uma pequena cruz e uma caixa de música
Que toca apenas silêncio nos dias de hoje
Para uma audiência de cadeiras e sofás drapeados.

Ouves a mulher sem abrigo
A confortar o cãozito assustado a seu lado
Ao estender farrapos para fazer a cama deles
Sob os degraus de mármore que os teus criados
Esfregavam todos os dias por causa das pegadas?

*

A sonhar ou acordado?

Um homem corre atrás de mim na rua
Para me vender um relógio de bolso.
Parece um pregador antigo, de outros tempos
Pálido como um fantasma e vestido de negro.

O relógio da estação de comboios
Parara nos cinco minutos para as onze.
O do banco de poupanças
Jurava serem quase três

Quando me abordou com o relógio
Cuja falta de números e ponteiros
Queria que eu examinasse e admirasse
Antes de ficar sem ar com o preço pedido.

*

O meu amigo Alguém

Por causa da repentina corrente de ar frio,
É possível, uma porta abriu-se
Algures na quietude do anoitecer.
Alguém hesita à entrada
Com um sorriso leve
De premonição feliz.

Neste dia sem data,
Numa rua secundária, escura
Tirando a luz de uma TV
Aqui e além,
E uma árvore solitária em flor
Arrastando uma cauda longa
De pétalas brancas e sombras.

 

_

▪ Charles Simic
(Sérvia 🇷🇸)
Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho _ (Poeta, Tradutor e Matemático)

SYRINX, FICÇÃO PASTORAL (III)

Debaixo do colchão tenho guardado
o coração mais limpo desta terra
como um peixe lavado pela água
da chuva que me alaga interiormente
Acordo cada dia com um corpo
que não aquele com que me deitei
e nunca sei ao certo se sou hoje
o projecto ou memória do que fui
Abraço os braços fortes mas exactos
que à noite me levaram onde estou
e, bebendo café, leio nas folhas
das árvores do parque o tempo que fará
Depois irei ali além das pontes
vender, comprar, trocar, a vida toda acesa;
mas com cuidado, para não ferir
as minhas mãos astutas de princesa.

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▪ António Franco Alexandre
( Portugal 🇵🇹 )

 

HOKUSAI

Foi o meu pai quem me iniciou
na pintura. Fê-lo com revistas,
bem editadas,daquele lugar perdido
a que chamávamos – e chamamos – a Repúplica.
desenhei e pintei durante uns anos
com a fúria inútil do converso.
Era como se vivesse dentro dos quadros
do solitário Museu d’Art Modern,
onde nunca havia ninguém. Parecia
uma cidade francesa de província.
E,de súbito,o primeiro Hokusai.
Listas oblíquas varrem toda uma ponte
e homens e mulheres com guarda-chuvas.
Agora que sou velho queria viver
dentro de uma destas paisagens de Hokusai.
Que me protegessem,ao atravessar a minha ponte,
as linhas oblíquas,tensas,rápidas.
As delicadas grades da chuva.

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▪Joan Margarit
( Espanha 🇪🇸 )
in ” Misteriosamente Feliz”, Língua Morta