SONHO

SONHO: estou sentado à mesa com os meus antepassados. mortos.
as crianças brincam com as bonecas de cabeça de corvo.
os meus antepassados. mortos. dão gargalhadas.
comem e brindam à vida. ao sangue acidulado das crianças e dos animais.
as crianças olham-nos. brincam com as bonecas. feitas de trapos.
brincam. com as bonecas. ao lado, as mães. tristes e velhas.
as crianças saltam. dançam. riem. não sabem que é um banquete
de mortos.
riem para dentro dos espelhos com a inocência dos animais.
deslumbrantes.
as crianças trazem em si a agilidade dos espelhos. a grande sabedoria:
sabem, não sabendo, que os mortos vivem entre nós.
que circulam em nós. como nós. nas casas. no mistério dos rostos.
na luz das velhas fotografias – persistentes e viris como um abandono.

(Breslávia, outono 2010)

 

_

▪ Luís Costa
( Portugal 🇵🇹 )
Poemas eslavos
in “Vozes periféricas”

Não gosto de contar os desastres em detalhe

Não gosto de contar os desastres em detalhe
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.

Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.

Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.

Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.

 

–

▪ Golgona Anghel
( Portugal 🇵🇹 )
in “Como uma flor de plástico na montra de um talho”, 2013

 

Retrato do Artista quando Coisa

Aprendo com abelhas mais do que com aeroplanos.
É um olhar para baixo que eu nasci tendo.
É um olhar para o ser menor, para o
insignificante que eu me criei tendo.
O ser que na sociedade é chutado como uma
barata – cresce de importância para o meu
olho.
Ainda não entendi por que herdei esse olhar
para baixo.
Sempre imagino que venha de ancestralidades
machucadas.
Fui criado no mato e aprendi a gostar das
coisinhas do chão –
antes que das coisas celestiais.
Pessoas pertencidas de abandono me comovem:
tanto quanto as soberbas coisas ínfimas.

_

▪ Manoel de Barros
( Brasil 🇧🇷 )

 

OS PRIMEIROS MOMENTOS

Amo os primeiros momentos da manhã
aqueles momentos que ainda ninguém usou
tão limpos
que deves lavar os pés antes de os habitares
aqueles momentos que cheiram como pétalas de rosa e erva cortada
e encharcam a tua roupa com orvalho

Irás chocar com segredos
descobrir milagres cobertos habitualmente pelo fumo dos autocarros
escutarás puros ecos sussurros e corridas precipitadas

Amo os primeiros momentos da manhã
quando o sol tem um só olho aberto
e o dia é como uma camisa lavada
sem vincos e pronta a usar
aqueles momentos que prendem a tua atenção
por serem tão sossegados

_

▪Coral Rumble
( Inglaterra 🇬🇧 )
Mudado para português por Jorge Sousa Braga

 

SOU COMPOSTA POR URGÊNCIAS

Sou composta por urgências:
minhas alegrias são intensas;
minhas tristezas, absolutas.
Entupo-me de ausências,
Esvazio-me de excessos.
Eu não caibo no estreito,
eu só vivo nos extremos
Pouco não me serve,
médio não me satisfaz,
metades nunca foram meu forte!
Todos os grandes e pequenos momentos,
feitos com amor e com carinho,
são pra mim recordações eternas.
Palavras até me conquistam temporariamente…
Mas atitudes me perdem ou me ganham para sempre.
Suponho que me entender
não é uma questão de inteligência
e sim de sentir,de entrar em contato…
Ou toca, ou não toca.

_

▪ Clarice Lispector
(Brasil 🇧🇷 )

MISTÉRIOS, SIM

Na verdade, vivemos com mistérios demasiado maravilhosos
para serem entendidos.
Como pode a erva ser nutritiva
na boca dos cordeiros.
Como podem os rios e as pedras estar em permanente
aliança com a gravidade
enquanto nós ansiamos elevar-nos.
Como podem duas mãos ao tocar-se firmar laços
que nunca mais se quebram.
Como é que as pessoas, vindas do prazer ou
das cicatrizes dos golpes,
chegam ao conforto de um poema.

Deixem-me manter sempre a distância
dos que pensam ter todas as respostas.

Deixem-me ficar na companhia dos que dizem
“Olhem!” e riem de assombro
e inclinam reverentes a cabeça.

 

_
▪ Mary Oliver
( E.U.A. 🇺🇲 )
Mudado para português por Soledade Santos