ÁGAPE

Hoje ninguém veio perguntar alguma coisa;
nem nesta tarde ninguém me pediu nada.

Não vi sequer uma flor de cemitério
em tão alegre procissão de luzes.
Perdoa-me Senhor: morri tão pouco!

Nesta tarde todos, todos passam
sem nada me perguntar nem pedir nada.

E não sei o que esquecem e que fica
em minhas mãos tão mal, qual coisa alheia.

Saí até à porta,
tenho vontade de gritar a todos:
Se alguma coisa lhes falta, ela está aqui!

Porque em todas as tardes desta vida,
não sei que portas nos atiram na cara
e algo estranho se apodera da minha alma.

Não veio ninguém hoje;
e que pouco hoje nesta tarde morri!

 


▪ César Vallejo
( Perú 🇵🇪 )

EU A SÓS COMIGO

Quem não aparece, esquece
– diz o povo –
mas também aborrece
quem demais aparece,
digo eu.
Por mim não gostava de aparecer nos jornais
nem na televisão constantemente.
O meu nome é meu
e ainda mais o meu eu!
Não gostava de o ver a beber e a brindar
com os que ocupam o palco do acontecer.
Preciso de estar a sós comigo
para ser eu
embora não saiba bem quem é
essa que sou.
O que preciso de escrever a toda a hora
se calhar são mensagens para esse meu
oculto eu
que amo tanto
desde sempre
– e nunca nos vimos cara a cara!

 


▪ Teresa Rita Lopes
( Portugal 🇵🇹 )

HÁ GENTE

Há gente que acredita que está viva
porque lê jornais e faz amor
com a mulher duas vezes por ano, ou por mês
ou por semana,
e toma café com os amigos
e sonha pertencer a alguma máfia.
Há gente que acredita que está viva
porque se levanta todos os ias às seis
da madrugada, para se arrastar para o trabalho,
e fuma um cigarro
e comenta o jogo de ontem
ou o último escândalo político
com os colegas. Há gente
que acredita que está viva porque tem um carro,
um apartamento e duas dúzias
de camisas e uma firme opinião
acerca de quem deveria governar este país.
há gente que acredita que está viva
porque vai tirando cursos por correspondência,
acorre a carimbar a declaração de desemprego,
chuta pr´á veia ou snifa coca ou sai para tomar
um copo ou levar no cu ao fim-de-semana,
vai ao cinema, liga a televisão,
fala ao telefone ou abre uma nova conta bancária.
Há gente que por estas coisas e algumas outras,
– quaisquer umas que queiram –
acredita que está viva e, o que é pior:
que tem algum direito à vida.

 


▪ Roger Wolfe
( Inglaterra 🇬🇧 )
in “Fazer o trabalho sujo”, Língua morta, 2020
Mudado para português por Luís Pedroso

MOSTRAS-ME O FIM DO MUNDO

MOSTRAS-ME O FIM do mundo
o Inferno de Dante
onde o Diabo nos arde na sua fogueira
com os demónios todos juntos
mesmo assim quero ir contigo
vou contigo para o fim do mundo
para o fim da Terra
para o Céu ou o Inferno
vou contigo para a fogueira do Inferno
lá quero-me arder contigo
e ardemos os dois
ao mesmo tempo trespassados pela faca do amor.

 

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▪ António Gancho
( Portugal 🇵🇹 )
in “o ar da manhã”
assírio & alvim
1995

 

POEMA ANACRÓNICO

Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
(Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s… b… de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.

Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.

Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»
(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)
Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié…

Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?
Não é viver.

É arte, lazeira, briol, poesia pura!
Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme…)
com gerações perdidas.

Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!

E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia…
Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p’ra
morrer?

Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!

Les portugueux…
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
… sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes…

Dize tu: – Já começou, porém, a racionalização do
trabalho.
Direi eu: – Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!

Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim…

Saber viver é vender a alma ao diabo,

▪ Alexandre O´Neill
( Portugal 🇵🇹 )

A MATERNIDADE NÃO ME ABORRECE

A maternidade não me aborrece e devo afirmar até que, dada a influência determinante de minha mãe, em mim, sou uma pessoa marcada pelo signo materno. Tenho um apreço muito especial pela maternidade.
Só que à mulher não compete apenas uma maternidade de tipo fisiológico. Cabe-lhe ultrapassar esse aspecto na medida em que pode conquistar uma sabedoria de tipo maternal para intervir no mundo, e orientá-lo.
Um mundo onde só o homem tem a palavra, palavra essa que é origem de tantos desmandos, guerras, conflitos e soluções precárias de carácter económico e social.
Estruturalmente, a mulher é avessa, alérgica à ideia de guerra e de conflito.
A sua própria experiência maternal a predispõe contra a guerra.
Dá vida mas não gosta de contribuir para a sua destruição.
É por uma actuação pacífica.

▪ Natália Correia
( Portugal 🇵🇹 )
in ‘Entrevista (1969)

FARMÁCIA

Eu nada sei
do mal de que padeço

e todavia confesso
o que me aflige

Sinto dores fortes
quando vejo o azul

a beleza me fere
espanta e fascina

o passar do tempo
me dá vertigem

e me prende
em suas teias irreversíveis

os pássaros me deixam
intranquilo no ocaso

e quando vejo seu rosto
meu coração dispara

Preciso de um remédio
para curar-me do mal de ter nascido.

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▪ Marco Lucchesi
( Brasil 🇧🇷 )
in “Domínios da Insônia”, Editora Patuá, 2019.