QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa história sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

 

_
▪ Natália Correia
( Portugal 🇵🇹 )

 

3 POEMAS DE ANDREA COHEN

 
Le Danton

 

She told me the name
of the poet and the name

of the café where he wrote
on St. Germaine. Go there,

she said. See him.
So I went and saw him

that winter, sitting
outside in a black

coat and ochre scarf.
He looked like a bee

exiled from summer.
He was talking

to the packets
of sugar on

the table. Tell
me everything
, he

was saying. I was
nineteen and had

my whole life
to know nothing.

 

Le Danton

 

Ela deu-me os nomes
do poeta e do café

onde ele escrevia
em Saint-Germain. Vai lá,

disse. Olha bem para ele.
Lá fui e vi-o

nesse inverno, sentado
no exterior, casaco

preto e cachecol ocre.
Parecia uma abelha

exilada do verão.
Estava a falar

com os pacotes
de açúcar sobre

a mesa. Contem-
-me tudo
, dizia

ele. Eu tinha
dezanove anos

e a vida inteira
para nada saber.

 

*

After

 

After the accident we had
the phrase after the accident.

Also this: before the accident.
We had a drawer marked

before and after, and after
and before happenings

we’d add atrocities and
incidents and the wild

asters someone before
and after keeps leaving.

 

Depois

 

Depois do acidente tínhamos
a expressão depois do acidente.

E esta: antes do acidente.
Tínhamos uma gaveta assinalada

antes e depois e antes
e depois dos eventos

juntávamos atrocidades,
episódios e os ásteres

bravos que alguém antes
e depois continua a deixar.

 

*

No moon, but

 

I knew it was
the beekeeper

who touched me,
not because she

tasted of honey,
but because she

was unafraid
of being stung.

 

Sem lua, mas

 

Soube que foi
a apicultora

que me tocou,
não porque ela

soubesse a mel,
mas porque

não tinha medo
de ser picada.

 

_
▪ Andrea Cohen
(U.S.A. 🇺🇲)
in “Everything”, Four Way Books, New York, 2021

*

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho   Poeta, Tradutor e Matemático

 
 

OS PROFESSORES

Os professores deram connosco em loucos
com perguntas que não vinham ao caso
como se somam números complexos
se há ou não há aranhas na lua
como morreu a família do czar
será possível cantar com a boca fechada?
quem pintou bigodes na Gioconda
como se chamam os habitantes de Jerusalém
há ou não há oxigénio no ar
quantos são os apóstolos de Cristo
qual o significado da palavra consueto
quais foram as palavras que Cristo disse na cruz
quem é o autor de Madame Bovary
onde escreveu Cervantes o Quixote
como é que David matou o gigante Golias
etimologia da palavra filosofia
qual é a capital da Venezuela
quando chegaram os espanhóis ao Chile

Ninguém dirá que os nossos mestres
eram umas enciclopédias ambulantes
tudo exactamente ao contrário:
uns modestos professores primários
ou secundários já não me recordo bem
─ agora de bengala e batina
como se estivéssemos no início do século ─
não tinham por que incomodar-se
em incomodar-nos daquela maneira
excepto por razões inconfessáveis:
para quê tanto delírio pedagógico
tanta crueldade no mais negro vazio!

Dentadura do tigre
nome científico da andorinha
quantas partes tem uma missa solene
qual a fórmula do anídrico sulfúrico
como se somam fracções com denominadores diferentes
estômago dos ruminantes
árvore genealógica de Filipe II
Os Mestres Cantores de Nuremberg
Evangelho segundo São Mateus
nomeie cinco poetas finlandeses
etimologia da palavra etimologia

Lei da gravitação universal
a que família pertence a vaca
como se chamam as asas dos insectos
a que família pertence o ornitorrinco
mínimo comum múltiplo entre dois e três
há ou não há trevas na luz
origem do sistema solar
aparelho respiratório dos anfíbios
órgãos exclusivos dos peixes
tabela periódica dos elementos
autor de Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse
em que consiste o fenómeno chamado mi-ra-gens
quanto demoraria um comboio a chegar à lua
como se diz ardósia em francês
sublinhe as palavras terminadas em consoante

A verdade das coisas
é que nós sentávamo-nos indiferentes
quem ia incomodar-se com tais perguntas
no melhor dos casos apenas nos agitavam
um único defeito da cabeça
a verdade verdadeira das coisas
é que nós éramos gente de acção
a nossos olhos o mundo reduzia-se
ao tamanho de uma bola de futebol
e chutá-la era o nosso delírio
nossa razão de sermos adolescentes
houve campeonatos que se prolongaram até à noite
sempre me perseguiu
a bola invisível na obscuridade
havia que ser mocho ou morcego
para não chocar com os muros de barro
esse era o nosso mundo
as perguntas dos nossos professores
atravessavam gloriosamente os nossos ouvidos
como água pelas costas de um pato
sem perturbar a calma do universo:
partes constitutivas da flor
a que família pertence a doninha
método de preparação do ozono
testamento político de Balmaceda
surpresa de Cancha Rayada
por onde entrou o exército libertador
insectos prejudiciais à agricultura
como começa o Poema del Cid
desenhe uma roldana diferencial
e determine a condição de equilíbrio

O amável leitor compreenderá
que nos era pedido mais do que o justo
mais que o estritamente necessário:
determinar a altura de uma nuvem?
calcular o volume da pirâmide?
demonstrar que a raiz de dois é um número irracional?
aprender de memória as Coplas de Jorge Manrique?
deixem-se de baboseiras connosco
hoje temos que terminar um campeonato
mas chegavam as provas escritas
e consequentemente as provas orais
(numa de esfregar caiu Caldeira)*
com uma regularidade digna da melhor causa:

Teoria electromagnética da luz
em que se distingue o trovador do jogral
é correcto afirmar vendem-se ovos?
sabe o que é um poço artesiano?
classifique os pássaros do Chile
assassinato de Manuel Rodríguez
independência da Guiana Francesa
Simón Bolívar herói ou anti-herói
discurso de renúncia de O’Higgins
vocês estão mais bloqueados que uma ampulheta

Os professores tinham razão:
em boa verdade
o cérebro fugia-nos pelas narinas
─ só vendo como nos estalavam os dentes ─
a que se devem as cores do arco-íris
hemisférios de Magdeburgo
nome científico da andorinha
metamorfose da rã
que entende Kant por imperativo categórico
como se convertem pesos chilenos em libras esterlinas
quem introduziu o colibri no Chile
por que não cai a Torre de Pisa
por que não se afundam os jardins flutuantes de Babilónia
por que não cai a lua sobre a Terra?
municípios da província de Ñuble
como se trisseca um ângulo recto
quantos e quais são os poliedros regulares
este não faz a menor ideia de nada

Teria preferido que a terra me devorasse
a responder a estas perguntas descabeladas
sobretudo depois das prédicas moralizantes
a que nos submetiam inevitavelmente todos os dias
sabem vocês quanto custa ao estado
cada cidadão chileno
desde o momento em que entra na escola primária
até ao momento em que sai da universidade?
um milhão de pesos de seis vinténs!

Um milhão de pesos de seis vinténs
e continuavam apontando-nos o dedo:
como se explica o paradoxo hidrostático
como se reproduzem os fetos
enumere-me os vulcões do Chile
qual é o rio mais comprido do mundo
qual é o couraçado mais poderoso do mundo
como se reproduzem os elefantes
inventor da máquina de costura
inventor dos balões aerostáticos
vocês estão mais bloqueados que uma ampulheta
vão ter que ir para casa
e regressar com os vossos encarregados
para conversar com o Reitor da Escola

E entretanto a Primeira Guerra Mundial
E entretanto a Segunda Guerra Mundial
A adolescência ao fundo do pátio
A juventude debaixo da mesa
A maturidade que não se conheceu
A velhice
com suas asas de insecto.
 
_
▪ Nicanor Parra
( Chile 🇨🇱 )
in “Hojas de Parra” 1985

*

Mudado para português por _
Henrique Manuel Bento Fialho
🇵🇹

 

QUEIXAS DUM UTENTE

Pago os meus impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.

Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo, ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum.

 

_
▪ José Miguel Silva
( Portugal 🇵🇹 )
in “Ulisses Já Não Mora Aqui”, Edição revista, Língua Morta, Lisboa, 2014
 

A CASA

Distraídos não víamos
a casa a envelhecer connosco
e no entanto a casa envelhecia:
tinha dores
achaques
tropeções
incómodos pequenos
lâmpada que falhava
e uma ou outra coisa,
vertigem passageira.

Assim corria o tempo
em pequenos derrames
que a todos por dentro
corroíam: a casa e com ela
as portas que rangiam
e umas résteas de luz
já quase a apagar-se.

A casa não andava
a casa já não via,
e nós ainda achávamos
que era coisa ligeira.

Não tem mal, dizíamos,
quando chegasse a hora
umas velas acesas,
candeeiros de avó
sem perigo de incêndio:
a casa envelhecida
sempre estaria ali,
sempre resistiria.

Sem dar por isso
o nosso envelhecer
ali juntos, fechados,
embora já morrendo
seria a última prova
de um grande amor
vivido
o dessa casa antiga
às vezes ainda rindo,
outras vezes zangada,
mas dividindo connosco
o tempo que faltava

 

Lisboa, 2018

 

_
▪ Yvette K. Centeno
— Inédito

 

Alfarrabista

Hoje comprei um livro de Raul de Carvalho
por um euro, o que considero um escândalo!
Os poetas, regra geral, sempre foram pobres,
mas a sua poesia vale muito mais do que
o peso de mil resmas de rouxinol em oiro.
Isto, evidentemente, pouca gente sabe.
Se muita gente soubesse
os poetas seriam todos ricos.

 

__
▪ António Barahona
(Lisboa, n. 1939)
in Revista “Telhados de Vidro”, nº.12, 2009

PRISIONEIROS

Os prisioneiros
culpados ou não
têm sempre o mesmo ar quando são libertados:
patriarcas destronados.

Aquele acabou de atravessar o portão
de cabeça pendida apesar de não ser alto
gestos iguais aos de um beduíno
ao entrar na tenda
que acartou às costas o dia inteiro.

Cortinas de algodão, paredes de pedra, o cheiro a lima queimada
fazem-no recuar ao momento
em que a guerra fria terminou.

No outro dia penduraram o seu lençol no pátio
como se a ostentar a mancha de sangue
após a morte de núpcias.

Rostos deslustrados pelo sol
Rodeiam-no, só olhos e ouvidos:
«Com que é que sonhaste ontem à noite?»
Os sonhos de um prisioneiro
são pergaminho
sacralizado pelos seus trechos em falta.

A irmã ainda está a descobrir os seus hábitos estranhos:
os nacos de pão escondidos em bolsos e debaixo da cama
o rachar incessante da lenha para o inverno.

Porquê este medo?
Que poderá ser pior do que a vida na prisão?

Ter escolhas
Mas ser-se incapaz de escolher.

 

_
▪ Luljeta Lleshanaku
(Albânia 🇦🇱)
in “Lacrau” – Traduções e Versões de Poesia, Língua Morta, Lisboa, 2021

*

Mudado para português por _ Vasco Gato 🇵🇹  Tradutor e Poeta 

 

DIANTE DA MORTE

Diante da morte, diante de um suicida perante a morte, é de muito mau gosto lançar mão de qualquer tipo de literatura. Em tal situação, e perante um tal conviva, não tem qualquer préstimo o arsenal dos subterfúgios. Só talvez o silêncio. O silêncio que a morte faz à sua volta, quando acontece. Quando, por acaso maior ou menor e com mais ou menos solenidade, acontece.
Diante da morte, como em quase tudo, também é preciso distinguir. Há o que é importante e o que não não é.
O que não é, pôr de lado. Não deitar fora mas, resoluto, pôr de lado. Diante da morte não há tempo a perder. Frieza e paixão devem ser habitualmente doseadas.
Diante da morte o importante é sentir. Sabe-se lá como. E o quê.
A morte, provavelmente. O tempo que falta até lá. O que ainda resta.
Sentir, degustar o tempo esse como um percurso: de aprendizagem. de exaltação, de sabedoria.
Diante da morte o importante é estar.

_
▪ Rui Caeiro
( Portugal 🇵🇹 )
in “Sobre a nossa morte bem muito obrigado, Edição Alambique, 2014