BLUES DA MORTE DE AMOR

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.

 

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▪ Vasco Graça Moura
( Portugal 🇵🇹 )
in “Antologia dos Sessenta Anos”, Edições Asa

ORAÇÕES

Mostra-mo a janela do quarto.
A luz desenha-o com pulso firme,
a claridade matiza-o
com manchas de pintor impressionista
numa tela de areia.
Mostra-o, mas não o entrega.
O espaço. O cheiro da terra húmida,
folhas dispersas pelo canal,
lampejos de limão maduro,
fragrância das rosas
quando amanhece, sinfonia
caótica de pássaros, canção
da chuva nos canos
e nos vidros. O espaço
está em mim,
embora não o possua. Em mim persiste
se o contemplo da janela.
Não me mostra o que vou vendo,
mas aquilo que sou.

 

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▪ José Ángel Cilleruelo
( Espanha 🇪🇦 )
Inédito publicado com autorização prévia do autor

Mudado para português por _ Maria Soledade Santos _ (Poeta, tradutora e professora).
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011). Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/

 

 

░ ORACIONES

 

La ventana del cuarto me lo muestra.
Lo dibuja la luz con pulso firme,
la claridad lo colorea
con manchas de pintor impresionista
sobre un lienzo de arena.
Lo enseña, pero no lo entrega.
El espacio. El olor a tierra húmeda,
hojas dispersas por el cauce,
destello de limón maduro,
fragancia de las rosas
cuando amanece, sinfonía
caótica de pájaros, canción
de la lluvia en las cañerías
y en los cristales. El espacio
está en mí
aunque no lo posea. En mí pervive
si lo contemplo desde esta ventana.
No me muestra lo que estoy viendo,
sino aquello que soy.

 

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▪ José Ángel Cilleruelo
( España 🇪🇦 )
Inédito publicado con autorización previa del autor

 

A terceira miséria é esta, a de hoje

A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.

 
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▪ Hélia Correia
( Portugal 🇵🇹 )
in “A Terceira Miséria”, Lisboa, Relógio d’Água, 2012
 

ANJOS

As noites que dormi entre rostos e palavras,
Corpos dobrados pelo vento,
Linhas para que olhei enfeitiçado
Nos confins dos meus sonhos.
Noites geladas da Europa, o meu corpo no gueto
Mas sonhando.

 

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▪ Roberto Bolaño
( Chile 🇨🇱 )
in “La Universidad Desconocida”
Mudado para português por _ Carlos Vaz Marques 🇵🇹 Jornalista, tradutor e editor português

UM DIA, SE QUISERES

Continuas aí, Norma Jeane,
a romper os espelhos de Los Angeles
à espera de uma porta que se abra
e que te diga “amo-te”?
Deves saber
que os orfanatos não têm telefones
para o silêncio.
Um dia, se quiseres,
manda-me pelo WhatsApp uma mensagem.
Sabes que estou aqui.

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▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )