CAFÉ DE LA GARE, AUSTERLITZ

Passeava dois cães enormes
pela estação de comboios
vi-a muitas vezes durante duas horas
e nunca mais a encontrei
Os olhos muito grandes não se reduziam a uma cor
tinham dos minerais a natureza indecifrável
não sei que preço teriam pago por essa beleza
sem intervalos
que representava contra nós
um mundo arcaico, desmedido
Não fazia tenção de embarcar
nem esperava noite após noite
a chegada de alguém
vi-a atravessar a longa estação em silêncio
como se apenas os abismos chamassem por si
dois cães enormes a seguiam
mas inocentes dessa imensidão

 

 

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▪ José Tolentino Mendonça
(Portugal 🇵🇹)
in “De igual para igual”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001

OS MEUS LIVROS

Livros, ó mudos livros das estantes frias,
vivos no seu silêncio, ardentes na sua calma;
livros, os que consolam, veludos da alma,
e que sendo tão tristes nos dão alegria!

Ao dia afadigado as minhas mãos renderam-se;
mas à noite lá fui procurá-los, amantes,
no côncavo do muro onde, como semblantes ,
me fitam, confortando-me, aqueles que viveram.

Bíblia, tão nobre Bíblia, horizonte estupendo
onde um dia fixei os olhos longamente,
tens sobre esses teus salmos as lavas ardentes
e no seu rio de fogo o coração acendo!

Nutriste a minha gente com o teu forte vinho,
ergueste-os vigorosos no meio dos homens
e eu ergo-me enérgica ao dizer teu nome,
porque é de ti que venho, quebrei o Destino.

Depois de ti, com o seu amplo alarido eterno,
atravessou-se o sangue o sumo Florentino.
Perante a sua voz, como um junco me inclino;
e fantástica avanço nesse rubro inferno.

E para refrescar sobre o musgo orvalhado
a boca, ainda a arder com as chamas dantescas,
fui em busca das Flores de Assis, sempre tão frescas,
e na felpa deitei o peito descansado!

Eu vi Francisco, aquele tão doce como as rosas,
pelo campo passar, mais leve que um suspiro,
beijando o peito em chama e o aberto lírio,
pra beijar o Senhor, que respira das coisas.

Poema de Mistral, cheiro de sulco aberto
de manhã exalado, inspirei-te embriagada!
Vi Mireia espremer a fruta ensanguentada
do amor, e correr pelo atroz deserto.

Recordo-te também, refrão de mil doçuras,
verso de Amado Nervo, com peito de pomba,
que me suavizaste o contorno das lombas
quando te estava a ler nas minhas manhãs puras.

Nobres livros antigos, de folhas sebentas,
sois lábios sempre prontos a animar os tristes,
amargura que veste um novo manto e insiste
desde Job até Kempis nessa voz dolente!

Pròs que, tal como Cristo em Via Dolorosa,
estreitaram esses versos contra as rubras feridas,
é lenço de Verónica a estrofe dolorida;
cada livro é purpúreo qual sangrenta rosa!

Eu amo-vos, ó bocas dos poetas idos
que ainda me consolam, desfeitas em poeira,
e que falam comigo à noite, à cabeceira,
junto ao meu candeeiro, em seus doces gemidos!

Afasto o meu olhar dessa página aberta,
ó mortos! E o meu sonho tece os seus semblantes:
as pupilas febris, os lábios anelantes
lentamente desfeitos na terra encoberta.

 

 
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▪ Gabriela Mistral
(Chile 🇨🇱)
in “Antologia Poética”, Selecção, tradução e apresentação de Fernando Pinto do Amaral 🇵🇹, Editorial Teorema, Lisboa, 2002

ESTOU ATRÁS

do despojamento mais intenso
da simplicidade mais erma
da palavra mais recém-nascida
do inteiro mais despojado
do ermo mais simples
do nascimento a mais da palavra

 

28.5.69

 

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▪ Ana Cristina Cesar
(Brasil 🇧🇷)
in “Poética”, Companhia das Letras, Brasil, 2013

À Ponte de Brooklyn

Em quantas madrugadas, arrefecidas pelo repouso ondulante,
As asas da gaivota hão-de imergi-la e voar em seu redor,
Espalhando anéis brancos de tumulto, erigindo bem no alto
Sobre as águas agrilhoadas da baía a liberdade —

Então, numa curva inviolada, deixarão os nossos olhos
Tão espectrais como veleiros que cruzam
Uma página cheia de parcelas a arquivar;
— Até que os elevadores nos libertem do nosso dia…

Sonho com cinemas, truques panorâmicos
Com multidões debruçadas sobre uma cena fulgurante
Jamais revelada, mas passada de novo à pressa,
A outros olhos prometida sobre o mesmo écran;

E TU, por cima do porto, ao ritmo da prata
Como se o sol te imitasse, embora deixasse
Um gesto nunca acabado no teu rasto, —
Implicitamente ficas com a tua liberdade!

De uma abertura no metro, de uma cela ou mansarda
Um louco precipita-se para os teus parapeitos,
Oscilando aí por momentos, a garrida camisa enfunada,
E um gracejo solta-se da multidão surpreendida.

Por Wall Street, escorre o meio-dia desde a viga mestra até à rua,
Um rasgão no acetilene do céu;
Toda a tarde os guindastes envoltos pelas nuvens giram…
Os teus cabos respiram ainda o Atlântico Norte.

E é obscura, como aquele céu dos judeus,
A tua recompensa… tu conferes o louvor
De um anonimato que o tempo não pode evocar:
Testemunhas uma indulgência e um perdão vibrantes.

Harpa e altar pelo furor unidos,
(Como pôde o simples trabalho alinhar as tuas cordas cantantes!),
Medonho limiar da promessa do profeta,
Prece de um pária, e grito de um amante, —

E de novo as luzes do trânsito que deslizam pelo teu idioma
Veloz e total, imaculado suspiro de estrelas
Ornando o teu caminho, condensam a eternidade:
E vimos a noite erguida nos teus braços.

Sob a tua sombra, esperei junto dos pilares;
Apenas na escuridão é a tua sombra nítida.
Os bairros flamejantes da cidade todos inacabados,
A neve submerge já um ano de ferro…

Ó Insone como o rio lá em baixo,
Em abóbada sobre o mar, erva sonhadora das pradarias,
Desce, vem até nós, os mais humildes,
E da tua curvatura empresta a Deus um mito.

 

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▪ Hart Crane
(E.U.A. 🇺🇲)
in “A ponte”, Tradução de Maria de Lourdes Guimarães 🇵🇹, Relógio D´Água, Lisboa, 1995

Ausencia

No hay flores.
Nieva.

Solo nieva.

Nieva.
Nieva.

 

_
▪ Maria Azenha
(Portugal 🇵🇹)
in “La casa de leer en lo oscuro”,
Traducción de José Ángel Cilleruelo (🇪🇸), Edición bilingüe, Ediciones Trea, España, 2019



Versão original

 

░ Ausência

 

Não há flores.
Neva.

Apenas neva.

Neva.
Neva.

 

_
▪ Maria Azenha
(Portugal 🇵🇹)
in “La casa de leer en lo oscuro”, Tradução José Ángel Cilleruelo (🇪🇸), Edição bilingue, Ediciones Trea, Espanha, 2019

Papel de jornal

Este poema começa nas escadas de um prédio abandonado,
um grupo de rapazes em poses pouco ou nada coreográficas
de tão inevitáveis que são os gestos
dobrados sobre a seringa,
à procura da veia mais saliente, roxa
de tanto procurarem o azul, a flor
que desabrocha à sombra das raparigas.
Apenas uma os acompanha pela cidade,
pelos desvios prematuros;
as demais estiolam diante do mar.
Este poema começa na cozinha de uma casa suburbana, as mãos,
de uma mulher recém-casada, depostas numa bacia amarela;
na sala, o zumbido de uma mosca, um homem
que cambaleia até ao sofá.
Do lado de fora da vidraça uma criança arrasta uma boneca
pelo chão.
Este poema segue uma família, em tumulto, no meio da estrada
enquanto um buldozzer se prepara para demolir a casa,
ilegal e dissonante.
Este poema, na cidade de ruas que desaguam no mar, continua
por uma que termina abruptamente num muro.
Suja os dedos com papel de jornal,
aceita o empurrão das vendedoras de flores,
ajuda as peixeiras a levantarem a canastra.
E é tão útil como um solo de trompete
no Verão.

 

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▪️ Jorge Gomes Miranda
(Portugal 🇵🇹)
in “Este mundo, sem abrigo”, Relógio D’ Água, 2003

Sete dias serão, Manaus, ó sete amadas

Sete dias serão, Manaus, ó sete amadas,
Por que se integre à terra este cantor.
Ó monstruosas noites desamparadas
De mim se aparte a porta dessa dor.
O espelho dágua ostenta a aranha alada
Que me arrasta o interno aeroplano,
Tresloucada vespa, cristalizada
Inoculando o inferno do engano.
Mas chega de canção, Amor, que neste canto
As finas rimas dessa ladainha
Escondem teus morenos ombros de arpejos.
Ó franca zona! Do Teatro o manto!
Por sete dias tua canção é minha
Na invenção literária dos teus beijos.

 

_
▪️Rogel Samuel
(Brasil 🇧🇷)
_ inédito _

O grafómano andante

O rio é o autor de um incansável
arquivo em páginas de água.
Anota o olhar das árvores
ribeirinhas. Examina
a ortografia na correspondência
que chega aos pilares
da ponte. Alegra-se
com a intensidade carinhosa
dos amantes entre juncos
escondidos.

Os amantes também
querem que o rio se demore
nas suas carícias
e lhes dedique muitas linhas.
Alguns substantivos, verbo, um único
adjetivo e interjeições várias.
Com isto se contentam. Embora saibam que o texto
depressa chegará ao oceano,
biblioteca de escribas
fluviais, onde todas as histórias
de amor se confundem.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(Espanha 🇪🇸 )
in ‘Pájaros extraviados’, Prensas de la Universidad de Zaragoza, 2019

*

Mudado para português por — Maria Soledade Santos — Poeta, tradutora e professora.
Nasceu em 1957, no Sabugal. Publicou “Quatro Poetas da Net” (Edições Sete Sílabas, 2002) e “Sob os teus pés a terra” (Artefacto vertente editorial da Cossoul, 2011); participou em “Divina Música”, Antologia de Poesia sobre Música, Viseu, 2010.
Mantém os blogues de poesia e tradução: http://metade-do-mundo.tumblr.com/ e https://mdcia.wordpress.com/

 



VERSÃO ORIGINAL / VERSIÓN ORIGINAL

 

░ EL GRAFÓMANO CAMINANTE

 

El río es el autor de un incansable
dietario en páginas de agua.
Anota las miradas de los árboles
de ribera. Examina
la ortografía en la correspondencia
que llega a los sillares
del puente. Se complace
con la intensidad afectuosa
de los amantes entre juncos
ocultos.

Los amantes también
quieren que el río se detenga
en sus caricias
y les dedique muchas líneas.
Algunos sustantivos, verbo, un único
adjetivo e interjecciones varias.
Con eso se contentan. Aunque sepan que el texto
llega pronto al océano,
biblioteca de escribas
fluviales, donde todas las historias
de amor acaban confundidas.

 

_
▪ José Ángel Cilleruelo
(España 🇪🇸 )
in ‘Pájaros extraviados’, Prensas de la Universidad de Zaragoza, 2019

 

 

atrás do atrás

pode levar muito tempo
até que o escondido de suas pálpebras
deixe de ser gelo para habitar uma nova casa
atrás do atrás estão os verdadeiros motivos
que fizeram você se despir
e aceitar meu convite para tomarmos um banho
atrás de nós apenas o tempo passa
as floriculturas _ inclusive _ fecham as suas portas
porque não recebem clientes após as 22 horas
a moça diz _ sinto muito estamos fechados
o que não importa
porque não queremos nos presentear com flores

ontem quando voltei uma neblina espessa
cobria o mundo e o vidro do meu carro
podia jurar que o lugar que passo todos os dias
não era o mesmo lugar
pois havia uma nuvem branca
como o gelo que se esconde em nossas pálpebras

ninguém inventou um instrumento
para medir as expectativas do vento (ou as nossas)
nós e o vento somos os mesmos
:
vivemos e gemeremos sobre um nicho de porta
translúcida _ opaca _ ou de chumbo
nada um importa
:
o que está escondido está atrás do atrás
e vindo para a frente
como uma centena de centopéias
atrás de uma flor de açúcar
e a vida humana
atrás do atrás _ sempre atrasada
esperando um trem ou coisa parecida
para levar seus cadáveres para a bolsa de valores
haverá chuva?
alguém incomodará nosso sexo durante a tarde?
atrás do lençol deixaremos um suor petrificado
guardado como um precioso caco de vidro
que entretanto não cortará nossa pele

gosto de inventar matérias novas
para esconder as matérias velhas
de sufocar o conhecido
andar de teleférico
e fazer têmpera com areia

atrás de mim está você
e eu atrás de você
sem que ninguém saiba
quem chegou primeiro
ou quem sairá depois
quando o que estiver escondido
se revelar para sempre
como o mais visível
e sempre presente
etc.

 

_
▪ Augusto Meneghin
(Brasil 🇧🇷)
in “O mar sem nós”, 2ª edição, Editora Urutau, Brasil – Galiza – Portugal, 2019