░ Vejo brilhar uma estrela que,

Vejo brilhar uma estrela que,
pelos vistos, já morreu – assim a
minha vida: luminosa e, porém,
assombrada pela escuridão. Sorte a

daqueles que só conhecem a morte
pelas mãos frias – toda a vida fiz luto
por corpos ainda sãos. A felicidade

faz-me, apesar de tudo, infeliz –
é sempre a ideia do fim que traz
a música certa para os meus versos.

 

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▪ Maria do Rosário Pedreira
(Lisboa, n. 1959)
in “Poesia Reunida”, 2ª. edição, Quetzal Editores, Lisboa, 2013

░ Still Life

Os livros
abandonados no apartamento de Jan falavam
línguas distintas. Podíamos ir pela estante
(colecionando fronteiras)
tentando adivinhar quem os teria legado
(quem sabe se em desagravo
pelo rumo da história)
suponho que: pelo desvelo que impele
à partilha. Cruzando o apartamento alugado
tantos anos saudei
nos livros esquecidos a experiência do mundo
(breves rasgões na lombada
testemunhando a viagem)
o olvido por companhia cedo demais
para morrer. Nessa idade em que uma mão (a
minha a
sua: leitor) podia da vida quieta
extrair vida ainda.

 

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▪ João Luís Barreto Guimarães
(Porto, n. 1967)
in “você está aqui”, Quetzal Editores, Lisboa, 2013

░ Em Roma, onde há artérias de flores e mármores

Em Roma, onde há artérias de flores e mármores que servem
de espelho às concubinas, ela caminha entre ecos de beleza
em busca do futuro. Abandonada à melancolia das ruinas
ao estremecimento do tempo que passa.

Em Roma, onde a lua se cobre de sangue e o ombro macio do
papel se transforma em amante antigo, ela aprende a durar.

 

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▪ Maria Graciete Besse
(Almada, n. 1951)
in “Errâncias”, Escritor, Lisboa, 1992

░ Perguntando pelo caminho

Vós loucos que perguntais o que é deus
devíeis antes perguntar o que é a vida.
Descubram um porto onde floresçam limoeiros
Perguntem por sítios para beber no porto.
Informem-se sobre os bebedores.
Façam perguntas sobre os limoeiros.
Perguntem voltem a perguntar até nada mais haver para perguntar.

 

_
▪ Ko Un
(Coreia do Sul, n. 1933)
Mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho (Poeta, Tradutor e Matemático) a partir da versão inglesa de Suji Kwock Kim e Sunja Kim Kwock.



Original version / Versão original

 

░ Asking the Way

 

You fools who ask what god is
should ask what life is instead.
Find a port where lemon trees bloom.
Ask about places to drink in the port.
Ask about the drinkers.
Ask about the lemon trees.
Ask and ask until nothing’s left to ask.

 

_
▪ Ko Un
(Coreia do Sul, n. 1933)
Translated from the Korean to Suji Kwock Kim and Sunja Kim Kwock

 

░ A morte de Beverly Hills

V

 

Nas cabines telefônicas
há misteriosas inscrições desenhadas com batom
São as últimas palavras de doces garotas loiras
que com o decote ensanguentado se refugiam ali para morrer.
A última noite sob o pálido neon, último dia sob o sol alucinante,
ruas recém regadas com magnólias, faróis amarelos dos carros
de polícia no amanhecer.
Te esperarei a uma e meia, quando saíres do cinema – e a
esta hora está morta no Depósito aquela cujo
corpo era um ramo de orquídeas.
Ferida nos tiroteios noturnos, encurralada nas esquinas
pelos refletores, esbofeteada nos night-clubs,
meu verdadeiro e doce amor chora em meus braços.
Uma última claridade, a mais afilada e nítida,
parece deslizar-se dos locais fechados:
esta luz que detém os transeuntes
e lhes fala suavemente de sua infância.
Música de outro tempo, canção ao compasso cujas velhas
—– notas conhecemos uma noite à la Ava Gardner,
garota envolta em um impermeável que beijamos
—– uma vez no elevador, na escuridão entre dois andares,
—– e tinha os olhos tão azuis, falava sempre em voz
—– muito baixa – se chamava Nelly.
Feche os olhos e escute o canto das sirenes pela noite
—– prateada de anúncio luminosos.
A noite tem cálidas avenidas azuis.
Sombras abraçam sombras em piscinas e bares.
No escuro céu combatiam os astros
quando morreu de amor,
—————————- e era como se recendesse devagar um perfume.

_
▪ Pere Gimferrer
(Barcelona ESP., n. 1945)
in “La muerte en Beverly Hills”, Editorial Ciencia Nueva,- Colección El Bardo, Madrid, 1968

Mudado para português por – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil). Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

La muerte de Beverly Hills

 

V

 

En las cabinas telefónicas
hay misteriosas inscripciones dibujadas con lápiz de labios.
Son las últimas palabras de las dulces muchachas rubias
que con el escote ensangrentado se refugian allí para morir.
Última noche bajo el pálido neón, último día bajo el sol alucinante,
calles recién regadas con magnolias, faros amarillentos de
los coches patrulla en el amanecer.
Te esperaré a la una y media, cuando salgas del cine -y a
esta hora está muerta en el Depósito aquélla cuyo
cuerpo era un ramo de orquídeas.
Herida en los tiroteos nocturnos, acorralada en las esquinas
por los reflectores, abofeteada en los night-clubs,
mi verdadero y dulce amor llora en mis brazos.
Una última claridad, la más delgada y nítida,
parece deslizarse de los locales cerrados:
esta luz que detiene a los transeúntes
y les habla suavemente de su infancia.
Músicas de otro tiempo, canción al compás de cuyas viejas
—– notas conocimos una noche a Ava Gardner,
muchacha envuelta en un impermeable claro que besamos
—— una vez en el ascensor, a oscuras entre dos pisos, y
—– tenía los ojos muy azules, y hablaba siempre en voz
—– muy baja- se llamaba Nelly.
Cierra los ojos y escucha el canto de las sirenas en la noche
—– plateada de anuncios luminosos.
La noche tiene cálidas avenidas azules.
Sombras abrazan sombras en piscinas y bares.
En el oscuro cielo combatían los astros
cuando murió de amor,
————————— y era como si oliera muy despacio un perfume.

_
▪ Pere Gimferrer
(Barcelona ESP., n. 1945)
in “La muerte en Beverly Hills”, Editorial Ciencia Nueva,- Colección El Bardo, Madrid, 1968

 

░ A BORDA

Terrível é a borda, não o abismo.
Na borda
há um anjo de luz no lado esquerdo,
um longo rio escuro no direito
e um estrondo de trens que abandonam os trilhos
rumo ao silêncio.
Tudo
quanto treme na borda é nascimento.
Somente da borda vê-se a luz primeira
o branco-branco
que nos cresce no peito.
Nunca somos mais homens
que quando a borda queima nossas plantas desnudas.
Nunca estamos mais solitários.
Nunca somos mais órfãos.

 

_
▪ Piedad Bonnett
(Colômbia, n. 1951)
Poema inédito publicado com prévia autorização da autora.

Mudado para português por – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil)
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░ EN EL BORDE

 

Lo terrible es el borde, no el abismo.
En el borde
hay un ángel de luz del lado izquierdo,
un largo río oscuro del derecho
y un estruendo de trenes que abandonan los rieles
y van hacia el silencio.
Todo
cuanto tiembla en el borde es nacimiento.
Y sólo desde el borde se ve la luz primera
el blanco -blanco
que nos crece en el pecho.
Nunca somos más hombres
que cuando el borde quema nuestras plantas desnudas.
Nunca estamos más solos.
Nunca somos más huérfanos.

 

_
▪ Piedad Bonnett
(Colômbia, n. 1951)
Poema inédito publicado com prévia autorização da autora.

 

░ DEPOIS DO AMOR

Depois do amor, perguntas: “O que é o amor?”,
querendo convencer-me no teu silêncio
de que tu já o sabes,
de que tens resposta para tudo na vida,
ou pelo menos uma invejável capacidade de análise.

Eu não saberia dizer-te
se o amor é quietude, se aventura,
ou se tem outros nomes
– penumbra, labirinto, intensidade, desejo –
com os quais designá-lo vagamente.

Eu apenas poderia entreabrir a janela
desta ilha deserta que agora são os nossos corpos
e mostrar-te uma paisagem que venceu a morte.

 

_
▪ Juan Lamillar
(Sevilha ESP, n. 1957)
in “A arte das sombras”, Editorial Caja de Ahorros de Granada, Granada, Espanha, 1991

Mudado para português por – Sandra Santos, estudante de mestrado em “Estudos Editoriais” pela Universidade de Aveiro, Portugal. Desenvolve projectos na sua área de estudos. Escreve e tra/produz. Membro do colectivo artístico “Mutações Poéticas”. Co-fundou a página de facebook “Poesia em matéria fria”. Em 2016, co-coordenou o sexto número da revista de poesia “Cuaderno Ático”. A sua missão de vida é contribuir para a partilha de conhecimento, através da sua intervenção político-poética no mundo.



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░  TRAS EL AMOR

 

Tras el amor, preguntas: “¿Qué es el amor?”,
queriendo convencerme en tu silencio
de que tú ya lo sabes,
de que tienes respuesta para todo en la vida,
o al menos una envidiable capacidad de análisis.

Yo no sabría decirte
si el amor es quietud, es aventura,
o si tiene otros nombres
-penumbra, laberinto, intensidad, deseo-
con los que designarlo vagamente.

Yo tan sólo podría entreabrir la ventana
de esta isla desierta que ahora son nuestros cuerpos
y mostrarte un paisaje que ha vencido a la muerte.

 

_
▪ Juan Lamillar
(Sevilha ESP, n. 1957)
in “El arte de las sombras”, Editorial Caja de Ahorros de Granada, Granada, España, 1991

 

░ Papel amarrotado

Papel amarrotado desse chá que tomaste
na tarde de qual dia, ou o copo de vidro
depressa transformado na total transparência,
não é que inexistente, mas de mínima espessura
sobre o cais deste porto onde ninguém aporta,
não o papel rasgado, não o desfeito em fogo,
incolor, inodoro, antraz ignoto, anuro,
coisa que sim, que é, mas já não o que foi,
vazia intensidade, inútil excrescência
da vida tilintante
_____________________– eis o que tenho agora
quando o dia amanhece e cai no saco roto
da débil complacência com que já não me vejo

 

_
▪ Pedro Tamen
(Lisboa, n. 1934)
in “Retábulo das Matérias”, Editora Gótica, Lisboa, 2001

░ TORMENTO

Investia duramente
mãos arranhadas
das silvas e da ternura dilapidada.
Investia sobre as palavras,
era a intempérie/a míngua
a mais antiga das tempestades
que regressava.

 

_
▪ Soledade Santos
(Sabugal, n. 1957)
Poema inédito publicado com prévia autorização da autora