AS MÃOS DA NOITE

As mãos da noite postas sobre a mesa : uma palma
oblíqua à espera da surda cabeça da manhã:
– a outra escura como se abrem as folhas do chá.

Uma recordação e a sua névoa; um rosto indeciso
entre o sono e o sonho, entre o corpo do brilho
e a cintilação da noite :  as figuras quebradas.

A ondulação é mais pressentida que avistada. Pode
ser apenas a circulação do sangue no animal erecto,
a tremulante auréola dos fetos arbóreos. Ou

a luz que sobe da mesa onde as mãos esperam, ou
do chão sobre que dançamos a dança. Tomo
irrepetível a curva infinita de uma linha, onde

O teu corpo não cessa de ter nascido. Não cessa

 

_
▪ Manuel Gusmão
( Portugal 🇵🇹 )
in “Contra todas as evidências”  Poemas reunidos – I
Editorial Avante, Lisboa, 2013

NESTE SILÊNCIO

Neste silêncio oculto onde as tuas mãos se deslumbram a cada movimento, subsistimos com o peso do crepúsculo e a miséria da guerra.

Inútil a nossa vida, inútil a vida dos outros, quando o amor é um pássaro dentro duma gaiola no deserto. Inútil toda a simbologia funcional das imagens, porque ao homem é dado o sonho com o sentido das coisas.

De bruços sobre a areia, descanso as pálpebras no mar. A minha ociosidade é um peixe de prata adormecido nas ondas, um barco sem dono ancorado na doca. E hei-de morrer assim contigo, companheira ou ilusão do meu cansaço, porque a verdade que trouxemos é um trapézio vazio num circo em ruínas, uma flor no trapézio e muitos gatos a assistir até ao dia nunca mais do horizonte livre.

 

_
▪ António Barahona
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poemas e Pedras”, Ed. Autor, Lisboa, 1962

NO MEIO DA NOITE

Esta página é a de um morto
numa casa envenenada pelo vento.
Corre no meio da noite
em busca do poema.

E o poema esconde-se

muito puro
no silêncio de um homem aflito.

A Deus pede
o sudário de uma estrela

na agonia
do
infinito.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
— inédito —



 

NEL CUORE DELLA NOTTE

 

Questa pagina è quella di un morto
in una casa avvelenata dal vento.
Corre nel cuore della notte
in cerca della poesia.

E la poesia si nasconde

molto pura
nel silenzio di un uomo afflitto.

A Dio chiede
il sudario di una stella

nell’agonia
dell’infinito.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
— inedito —

*

Mudado para italiano por _ Daniela Di Pasquale 🇮🇹 _ tem licenciatura em Letras e doutoramento em Estudos Comparatistas. Foi bolseira de pós-doutoramento durante 7 anos no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Traduz poesia e ficção de português para italiano e o seu primeiro livro de poemas foi publicado em 2014 (Mater Babelica, Lietocolle). Actualmente trabalha na área da educação.

NA CAPARICA

 

1.

Subimos a rua dos velhos pescadores
empurrados pelo rumor dos corpos
que tudo ignoram do alfabeto
da fome.

Na loja do chinês, um girassol
ilumina os recantos da exactidão

enquanto a mulher franzina
vai bordando um naperon
de silêncios.

2.

Na travessia do poente avermelhado
surge de repente
o efémero espanto da infância

a escuridão murmurada
onde cintilam os passos de uma mãe
inacessível

onde as aves se despedem
sem ruído.

 

_
▪ Maria Graciete Besse
( Portugal 🇵🇹 )
in “Na inclinação da luz”, Licorne, Évora, 2019

ORA PRO NOBIS


(Variação de Esta é a casa dos loucos de Elisabeth Bishop)
 

pelo sobrevivente
que vem de lugares tão fundos que nunca vi;
pelo que olha o chão, como Pedro,
que hoje me disse que leva seu mal como uma culpa;
por ele que já não espera ninguém às terças e sábados;
por Nelson, que se apresenta como Margarita;
pelo soldado que faz da mesa uma trincheira;
por Melco, que chegou aqui quando tinha seis anos;
pelos que convulsionam e usam capacetes de plástico;
pelo que nunca encontra a corda salvadora,

pelos rotos, os crônicos, os tristes
aos que Deus mira das alturas.

 

_
▪ Piedad Bonnett
( Colômbia 🇨🇴 )
in ‘Los habitados’, Colección Visor de Poesía, Visor Libros, Madrid, 2017

*

Mudado para português do brasil por _ Gustavo Petter 🇧🇷 Poeta, tradutor, professor.
Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



 

ORA PRO NOBIS
(Variación de Esta es la casa de los locos de Elizabeth Bishop)
 

por el sobreviviente
que viene de lugares tan hondos que no he visto;
por el que mira al piso, como Pedro,
que hoy me dijo que lleva su mal como una culpa;
por el que ya no espera a nadie los martes y los sábados;
por Nelson, que se presenta como Margarita;
por el soldado que hace del comedor una trinchera;
por Melco, que llegó aquí cuando tenía seis años;
por los que convulsionan y llevan cascos plásticos;
por el que nunca encuentra la cuerda salvadora,

por los rotos, los crónicos, los tristes
a los que mira Dios desde su altura.

 

_
▪ Piedad Bonnett
( Colombia 🇨🇴 )
in ‘Los habitados’, Colección Visor de Poesía, Visor Libros, Madrid, 2017

A MAN MET A WOMAN

A man met a woman and loosed a flower inside her.
Drifting on the wind the flower accompanied the woman for nine months.
And the wind laden with dead leaves cried: it is time for another flower to be born.
And the memory of the flower renounced its work.
And the woman said: I want my flower back.
And she heard her voice lost in an elsewhere.
Years later the man grew old and received the gift
of a coffin.
The woman leapt from a window.
Spring, brimming with flowers, turned unbearably beautiful.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
— unpublished —

 *

Translation by Lesley Saunders 🇬🇧 Poet and educationalist 



 

UM HOMEM ENCONTROU UMA MULHER

 

Um homem encontrou uma mulher e atirou para dentro dela uma flor.
A flor acompanhou a mulher durante nove meses arrastada pelo vento.
E o vento carregado de folhas mortas gritou: é tempo de nascer outra flor.
E a memória da flor deixou-se operar.
E a mulher disse: quero a minha flor de volta.
E ouviu a sua voz perdida noutro lugar.
Anos mais tarde o homem envelheceu e recebeu de presente
um caixão.
A mulher pulou da janela.
A primavera, repleta de flores, tornou-se insuportavelmente bela.

 

_
▪ Maria Azenha
( Portugal 🇵🇹 )
— inédito —