O TELEFONE NEGRO

Marquei os números antigos com um vago desejo de respostas,
sabendo já que ninguém me esperava.
Com um desejo vão de ouvir vozes amadas
e que reconhecessem também a minha voz.
Meu telefone é negro,
e na noite ainda mais negra,
somente ouvia o som que chamava uns sepulcros.
E eu sozinho em casa.
______________________ Rasga-se a manhã
nos vidros turvos. Vai chegando o Verão.
Cantam os pássaros (os mesmos?),
E não sei se há consolo.

_____ Com a luz que nua amanhece,
nu, entro em casa,
_____________________ e toca o telefone.
Apresso-me. Digo-lhe que me fale.
Continua o silêncio, sei que estão a falar.
Sai a voz de alguma boca morta,
ou, acaso, de tão só, em mim há surdez?
Oiço outra vez os pássaros. E sei que são os mesmos
que então cantavam, tão eternos e frágeis.
Tenho que falar. Com quem,
se não saem também sons da minha boca?

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▪ Francisco Brines
( Espanha 🇪🇸 )
Mudado para português por  José Bento

 

PORTUGAL

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse
oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de
África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de
rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do
Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

 
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▪ Jorge Sousa Braga
( Portugal 🇵🇹 )

 

DOIS EXTREMOS

Minha vida tem dois extremos.
No extremo esquerdo estou eu.
No extremo direito, Deus.
Deus e eu nunca nos encontramos,
embora mais de uma vez  os nossos
extremos se tenham tocado.
Enquanto ele olha para cima, eu olho para baixo,
tentando não cair.
Porque as duas pontas estão unidas por um cabo fino,
alto e esticado, como um pássaro de aço.
À noite caminho em direção ao fim de Deus,
mas assim que chego, Deus desaparece.
O vazio que fica em seu lugar é a única prova
de que existo.

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▪ Rogelio Guedea
( México 🇲🇽 )

 

AR DO TEMPO

Nuvem
Ergue-se um cavalo branco
E é madrugada na estalagem onde despertará o
primeiro que aparecer
Vais andar a vadiar no meio da gente a vida inteira
Semi-morto
Semi-adormecido
Não estás farto dos lugares comuns
As pessoas olham-te sem se rirem
Têm olhos de vidro
E tu passas
Perdes o teu tempo
Passas
Contas até cem e fazes batota para matar mais dez segundos
Estendes bruscamente o braço para morrer
Não tenhas medo
Mais tarde ou mais cedo
Só haverá mais um dia e a seguir um dia
E depois pronto
Nunca mais será preciso ver os homens nem esses abençoados
bichinhos que eles afagam de quando em vez
Nunca mais será preciso falar sozinho durante a noite
para não ouvir o lamento da lareira
Nunca mais será preciso abrir as minhas pálpebras
Nem lançar o meu sangue como um disco
Nem respirar sem ter vontade disso
Contudo não desejo morrer
O sino do meu coração canta em voz baixa uma
uma esperança muito antiga
Esta música
Bem sei
Mas a letra da canção
Que dizia a letra ao certo
Imbecil


▪ Louis Aragon
( França 🇨🇵 )
Mudado para português por Regina Guimarães

ESTADO INTERIOR

Com o mar de um lado e do outro o campo, como não pensar o símbolo e o ritual? O título da autobiografia de Woody Allen, “A Propósito de Nada”, serve de cenário ao filósofo Byung-Chul Han. Pensamento fundamental num mundo em dispersão. Alerta para as perigosíssimas consequências do esquecimento do símbolo:
“Enquanto forma de reconhecimento, a percepção simbólica percebe o duradouro. Desse modo o mundo é libertado da sua contingência e ganha algo que permanece. Ao mundo, hoje, falta muito o simbólico. Dados e informações carecem de força simbólica.
Logo não permitem nenhum reconhecimento. No vazio simbólico, as imagens e as metáforas geradoras de sentido e fundadoras de comunidade que dão estabilidade à vida perdem-se.
A experiência da duração diminui. E a contingência aumenta radicalmente. ”

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▪ Byung-Chul Han
( Coreia do Sul 🇰🇷)
in “Do Desaparecimento dos Rituais”, ed. Relógio D’Água

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“Se uma flor tivesse em si mesma a sua plenitude ôntica, não teria necessidade de que a contemplassem. O que significa que a flor tem uma carência, uma carência ôntica. O olhar amoroso, esse “conhecimento guiado pelo amor”, redime-a do estado de indigência, fazendo com que esse conhecimento venha a ser “análogo à redenção”. O conhecimento é redenção. O conhecimento entabula uma relação amorosa com o seu objeto enquanto outro.”

Byung-Chul Han

O Medo Manda

A fome come medo ao peque-almoço.
O medo ao silêncio que atordoa as ruas.
O medo ameaça.
Se ama, terá sida.
Se fuma, terá cancro.
Se respira, será contaminado.
Se bebe, terá acidentes.
Se come, terá colesterol.
Se fala, terá desemprego.
Se anda, terá violência.
Se pensa terá angústia.
Se duvida, enlouquece.
Se sentir terá solidão.

 

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▪ Eduardo Galeano
( Uruguai 🇺🇾 )