░ NINGUÉM

 

para Donaldo Mello

 

Não há princípio nem fim
na eterna diáspora
dos astros
tresloucados
deslocando-se
aos confins
do universo
em expansão.

O tempo não existe
para as estrelas
mas elas fenecem
e, de vê-las, fico triste.

Sem sombra e destino, também vagarei.
Hei de seguir o mesmo curso de ninguém.

 

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▪ Antonio Miranda
(Maranhão BR, n. 1940)
Poema inédito publicado com autorização prévia do autor.

░ A FALA DAS COISAS

Desde toda vida
descompreendi inteligentemente
o xadrez, o baralho,
os bordados nas toalhas de mesa.
O que é isto? eu dizia
como quem se ajeita pra melhor fruir.
Fruir o quê? Eu sei. A mensagem secreta,
o inefável sentido de existir.
Tia Clotilde está desesperada:
‘para a minha família Deus não olha’.
Meu amor, quando tira o dia pra chorar,
não quer saber de mim, até que fala:
‘abri a porta da rua, achei três bilhas azuis,
como recado da alegria’.
É sonho, eu sei,
mas nesse dia ele não chora mais.
Se a senhora quiser, depois do almoço,
vamos no ribeirão buscar argila,
areia fina pra arear as panelas.
Olha o céu que se estende sobre nós,
seu manto cor de anil,
sua capa de veludo negro
cravejado de estrelas.
A flor-de-maio, a cravina,
viçam na terra estercada
sobre Totônio bebe,
Válter não para no emprego,
Noêmia quer casar mas não tem sorte.
Tua dor de cabeça tem origem psíquica;
tantos com à mão,
nenhum para o esquecido calor de entre as pernas,
ai, papai, me deixa namorar,
tem duas borboletas voando agarradinhas!
Meu corpo de velha quer salmodiar.
Quer ter um menino e tece,
faz tachos de doce e borda,
tapa com buchas de pano
as frestas da janela e canta
em meio de tanta dor.
Tendo orvalhado tudo,
a madrugada orvalhou a pimenteira,
cuja flor estremeces, ó minha pobre tia.
Deus mastiga com dor a nossa carne dura,
mas nem por chorar estamos abandonados.
A água do regador alçado sobre as couves
alvoroça os insectos.
A larva na hortaliça nos distrai.
Não inventamos nada.
O ponto de cruz é iluminação do Espirito;
o rei, a dama, o valete, são sérios
farandoleiros.
Se nos mastiga com dor,
é por amor que nos come.
Vamos rezar as mantinhas.

 

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▪ Adélia Prado
(Minas Gerais BR, n. 1935)
in “Poesia Reunida”, Editora Record, Rio de Janeiro, 2015

░ Las puertas no ajustan

Las malas hierbas sospechan que has dejado la casa,
los geranios lo saben,
y la sal, que no es pura, absorbe la tristeza.
El delator cloruro de magnesio
intuye tiempo de tormenta
y se apelmaza.
Siento humedad en los nudillos de los dedos,
las lágrimas han desplazado unos milímetros las jambas
y las puertas no ajustan.
Pero oculto a la madera que ha sido cortada,
no quiero despertarla, todavía crece.
Tal vez la meza,
tal vez la arrulle
con la nana antigua de las olas.

 

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▪ Elena Soto
(n. Ponferrada, Espanha)
in “Invierno sin corazón” (Kernlose winter), Ediciones Torremozas, Madrid, 2015

░ BIPOLAR

IJuxta crucem, garganteando
altíssimo um flamenco atrevido
– eis como gosto às vezes de estar.

Outras vezes, contudo, baixo a voz
como um cão amedrontado refugia
por precaução a cauda entre as pernas,
seu modo de agitar uma bandeira branca
– e não murmuro senão sílabas contritas.

Branco e negro alternados,
honestos por igual.

 

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▪ A. M. Pires Cabral
(Macedo de Cavaleiros, n. 1941)
in “Cobra-D’ Água”, Edições Cotovia, Ldª., Lisboa, 2011

░ EMILY DICKINSON

Nasci no mesmo dia que Emily Dickinson
quase dois séculos depois
e as coisas mudaram um pouco
desde então

não tive
a sua integridade perante a dor
nem o seu ouvido subtil para as revelações

vivo num prédio alto
onde não chegam os pássaros
só um ruído de sirenes
que não canta

é uma cidade imensa
aqui somos todos Ninguém
mas não aprendemos
a guardar o segredo:

ao caminhar regamos
o nosso nada nas esquinas

Nasci com a pele escura
de um país do trópico
e vim procurá-la neste tumulto
tão distante da sua voz
que se enredava nos prados

imagino-a calando-se nos ladrilhos
vejo os seus manuscritos de letras estreitas

como ramos de tinta negra
que se quebram
em qualquer capa
na lista das compras
e se voltam a enlaçar
para inventar o mundo

Nasci num dez de dezembro como ela
e não trouxe esse silêncio

não obstante

graças ao esconjuro
de repetir os seus versos
enquanto mudam os semáforos

estou a flutuar

ainda

 

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▪ María Gómez Lara
(Colômbia, n. 1989)
in “Nó de Sombras”, Editora Glaciar, Lisboa, 2015
Tradução – Nuno Júdice

░ Raro ofício gratuito

Raro ofício gratuito__Ir perdendo o cabelo
e os dentes__ As antigas maneiras de ser educado
Estranha complacência__ (O poeta não deseja ser mais
que os outros)__Nem riqueza nem fama nem somente
poesia__ Talvez esta seja a única forma
de não ter medo__Instalar-se no medo
como quem vive dentro da lentidão
Fantasmas que todos possuímos__Simplesmente
aguardando alguém ou algo sobre as ruínas

 

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▪ Roberto Bolaño
(Chile, n. 1953-2003)
in “La Universidad Desconocida”, Editorial Anagrama, Barcelona ESP
Mudado para português por – Gustavo Petter (Araçatuba/SP, Brasil). Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br

░ Em plena noite

Também em plena noite
a neve
se derrete branca

e a chuva
cai
sem perder a sua transparência.

É ela, a noite,
a que nos livra dos reflexos,

a que nos faz expandir
as pupilas.

O que busca com o seu bastão
_____________o cego é a luz, não o caminho.

 

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▪ Hugo Mujica
(Buenos Aires, n. 1942)
in “De Sed adentro”, Editora Pre-Textos, Argentina, 2001
Tradução – Maria Azenha (https://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_Azenha)

 



CASTELHANO

En plena noche

 

También en plena noche
la nieve
se derrite blanca

y la lluvia
cae
sin perder su transparencia.

Es ella, la noche,
la que nos libra de los reflejos,

la que nos expande
las pupilas.

Lo que busca con su bastón
____________el ciego es la luz, no el camino.

_
▪ Hugo Mujica
(Buenos Aires, n. 1942)
in “De Sed adentro”, Editora Pre-Textos, Argentina, 2001

░ FAZ APENAS DIAS

há poucos dias morreu meu pai
faz apenas tanto.

caiu sem peso
como as pálpebras quando chega
a noite ou uma folha
quando o vento não arranca, embala.

hoje não eu com outras chuvas
hoje chove pela primeira vez
___________sobre o mármore de seu túmulo.

sob cada chuva
podia ser eu quem jaz, agora eu sei,
___________agora que morri em outro.

 

_
▪ Hugo Mujica
(Buenos Aires, n. 1942)
in “Noche Abierta”, Editorial Pre-Textos, Argentina, 1999
Tradução – Jorge Melícias

░ MAR NEGRO

O mar na janela do avião
A terra acaba em Espanha
Eu choro em meu café
mar negro
os montes viram bicos
cinzas seios
seis da tarde em estado bruto
Ave Maria ao pé da nuvem
assento do alemão vizinho pai de um
menininho que chora mais que eu

O mar pela janela do avião é
pouso ou
pouco é o mar da
tela com suas linhas que sequestram
sempre os olhos do Gastão
que leu o Baudelaire florestalmente
Correspondência e beijo
a Guanabara e o Tejo
o frango a França a terra acaba e o

mar desta janela do avião
e eu nadando no café mar
negro entre a Alemanha e meus
segredos
Navego eu de mãos com Iemanjá
que fez a criancinha adormecer
de ver só céu com olho baixo
aberta boca

O mar numa janela de avião
tanto que sobe que é canhão
onda que nem o Carlos Burle ou Nazaré
Fotografei a nuvem coração que
diz você
parece mesmo um mapa de mina
sem tesouro lá os seios dos morrinhos

¿Ou mar pela janela do avião é só o
café que toma a mão do homem
tipo graxa tipo
medo invento incenso num cigarro
a farda do Vasco da Gama que minha
mãe dizia ser de gala?

O mar cá na janela do avião
acaba é França o mar conclui
a terra é outra a fresta esta fronteira a linha
e o cafezinho
fraco desta aérea e não acaba

O mar numa janela de avião
supõe contar nos dedos suas espumas
montantes traças vagas furadeiras
e vê tomar café o homem nu

Mar de janela de avião
nos olha sem
perguntar nada

Ave Maria cheia de graça
da graça do mar de meter na boca

 

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▪ Luis Maffei
(Brasil, n. 1974)
Poema inédito publicado com autorização prévia do autor