░ Escrever

Se me roubarem a palavra escreverei com o silêncio.
Se me roubarem a luz escreverei na escuridão.
Se perder a memória inventarei outro olvido.
Se detiverem o sol, as nuvens, os planetas,
serei eu a girar.
Se suspenderem a música cantarei sem voz.
Se queimarem o papel, se secarem as tintas,
se estourarem as telas dos computadores,
se derrubarem as paredes, escreverei no meu sopro.
Se apagarem o fogo que me ilumina
Escreverei no fumo.
E quando o fumo já não existir
escreverei nos olhares que hão de nascer sem os meus olhos.
Se me roubarem a vida escreverei com a morte.

 

            (de Poemas para los demás)

_
▪ Ángel Guinda
(Espanha, n. 1948)
in “Di Versos” Poesia e Tradução, nº. 17, Edições Sempre-em-pé, Porto, 2012

Mudado para português por _ Giselle Unti_ nasceu em São Paulo, onde viveu até aos 20 anos. Licenciou-se em Letras Modernas em França e conta vários livros publicados na área de Ciências Humanas. Actualmente vive em Lisboa e trabalho como tradutora freelancer para várias instituições e editoras.



VERSÃO ORIGINAL/ VERSIÓN ORIGINAL

 

░ Escribir

 

Si me quitan la palabra escribiré con el silencio.
Si me quitan la luz escribiré en tinieblas.
Si pierdo la memoria me inventaré otro olvido.
Si detienen el sol, las nubes, los planetas,
me pondré a girar.
Si acallan la música cantaré sin voz.
Si queman el papel, si se secan las tintas,
si estallan las pantallas de los ordenadores,
si derriban las tapias, escribiré en mi aliento.
Si apagan el fuego que me ilumina
escribiré en el humo.
Y cuando el humo no exista
escribiré en las miradas que nazcan sin mis ojos.
Si me quitan la vida escribiré con la muerte.

 

          (de Poemas para los demás)

_
▪ Ángel Guinda
(España, n. 1948)
in “Di Versos” Poesia e Tradução, nº. 17, Edições Sempre-em-pé, Porto, 2012

░ Os artistas do momento

ah, quanta da arte que agora se faz
é puro entulho: estilo baralha e volta a dar.
é só ter a compulsão de instalar
e ser um bom rapaz,
usando lixos convincentes,
e, mais do que barriga, ter bons dentes.
conquista-se espaço cultural de um jacto.
o que é preciso é ter um bom contacto.
e, o que mais interessa , pelo sim pelo não,
é aparecer na televisão.
na solene parada das vaidades,
desfila os eleitos e confrades,
qual deles o mais gabiru,
arrastando a sua instalação.

e o povoléu aplaude
e não vê que o rei vai nu.

 

_
▪ Adalberto Alves
(Lisboa, n. 1939)
in “Os indícios da palavra”, Editora Althum.com, Lisboa, 2017

░ Silêncio

O meu pai costumava dizer
“Pessoas superiores nunca fazem visitas demoradas,
não precisam que se lhes mostre o túmulo de Longfellow
nem as flores de vidro em Harvard.
Independentes como o gato —
que leva a presa para a sua intimidade,
a cauda frouxa a cair da boca como um atacador —
têm prazer por vezes na solidão e podem ficar sem palavras
roubadas por outras que os encantaram.
O sentimento mais profundo revela-se no silêncio;
não no silêncio, mas na contenção”.
Nem faltava à verdade quando dizia “Façam da minha casa a vossa estalagem.”
Estalagens não são residências.

 

_
▪ Marianne Moore
(E.U.A, 1887 – 1972)
– Poema de domínio público –

Mudado para português por _Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░ Silence

 

My father used to say,
“Superior people never make long visits,
have to be shown Longfellow’s grave
nor the glass flowers at Harvard.
Self reliant like the cat —
that takes its prey to privacy,
the mouse’s limp tail hanging like a shoelace from its mouth —
they sometimes enjoy solitude,
and can be robbed of speech
by speech which has delighted them.
The deepest feeling always shows itself in silence;
not in silence, but restraint.”
Nor was he insincere in saying, “Make my house your inn”.
Inns are not residences.

 

_
▪ Marianne Moore
(E.U.A, 1887 – 1972)
– This poem is in the public domain –

 

░ SERENIDADE

 

A Martin Heidegger

Há somente duas coisas: meu rosto desfigurado
e a dureza da pedra.
A consciência somente se acende
quando o ser está contra ela:
é assim que todo conhecimento
e a matriz de toda figura
é uma ferida,
e somente é imortal
o que chora.
A noite, mãe da sabedoria
tem a forma inacabada do pranto.

***

A luz, a luz
quando estava muito perto do mar
limite do deserto
do deserto em que florescem as rosas cruéis
famélicas do homem.

***

As palavras
constroem o bosque
uma árvore é somente uma árvore
quando tocada pelo poema.

***

Os sinos varrem o som
anunciam letra a letra o deserto
em que uma flor apodrece entre as mãos murchas
de uma velha
que chora por haver perdido seu nome.

 

_
▪ Leopoldo María Panero
(Espanha, n. 1948 – 2014)
in “Orfebre” – Poesía Completa (1970-2000), Visor Libros, Madrid ESP, 1994

Mudado para português por _Gustavo Petter_(Araçatuba/SP, Brasil). Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



Versão original /Versión original

 

░ SERENIDAD

A Martin Heidegger

Sólo hay dos cosas: mi rostro desfigurado
y la dureza de la piedra.
La conciencia sólo de enciende
cuando el ser está contra ella:
y es así que todo conocimiento
y la matriz de toda figura
es una herida,
y sólo es inmortal
lo que llora.
Y la noche, madre de la sabiduría
tiene la forma inacabable del llanto.

***

La luz, la luz
cuando estaba demasiado cerca del mar
límite del desierto
del desierto en que florecen las rosas crueles
hambrientas del hombre.

***

Las palabras
construyen el bosque
un árbol es sólo un árbol
cuando lo toca el poema.

***

Las campanas barren el sonido
enuncian letra a letra el desierto
en que una flor se pudre entre las manos ajadas
de una vieja
que llora de haber perdido su nombre.

 

_
▪ Leopoldo María Panero
(España, n. 1948 – 2014)
in “Orfebre” – Poesía Completa (1970-2000), Visor Libros, Madrid ESP, 1994

 

░ Número 8

Era uma cara que a escuridão podia matar
num instante
uma cara que o riso ou a claridade
podiam igual e facilmente ferir

‘À noite pensamos de forma diferente’
disse-me uma vez
recostando-se languidamente

e citava Cocteau

‘Sinto que há um anjo em mim’, dizia,
‘que estou sempre a escandalizar’

Depois ria, desviava o olhar,
acendia-me um cigarro,
suspirava, levantava-se

e alongava
a sua doce anatomia

deixava cair uma meia

 
_
▪ Lawrence Ferlinghetti
(E.U.A, n. 1919)
in “Pictures of the Gone World: 60th Anniversary Edition”, City Lights Books, United States, 2015
Mudado para português por _Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░ Number 8

 

It was a face which darkness could kill
in an instant
a face as easily hurt
by laughter or light

‘We think differently at night’
she told me once
lying back languidly

And she would quote Cocteau

‘I feel there is an angel in me’ she’d say
‘whom I am constantly shocking’

Then she would smile and look away
light a cigarette for me
sigh and rise

and stretch
her sweet anatomy

let fall a stocking

 

_
▪ Lawrence Ferlinghetti
(E.U.A, b. 1919)
in “Pictures of the Gone World: 60th Anniversary Edition”, City Lights Books, United States, 2015

 

░ Pode ser, que o terrível não tenha explicação

Pode ser, que o terrível não tenha explicação
E que a luz seja só a presença de silêncio.
Pode ser.

Pode ser que letra a letra se construa
O veneno insuficiente da palavra
De todo já perdida para a vida.
Pode ser.

Pode ser que eu seja peixe fora d’água
Sufocado na areia tonta de uma praia
Pode ser.

Pode ser que eu não passe
De cometa sossobrante
Num buraco escura da galáxia.
Pode ser.

Mas o que será que agora,
Para quem julgue ver-me,
Pareço neste instante ?

 

_
▪ Adalberto Alves
(Lisboa, n. 1939)
in “Os indícios da palavra”, Editora Althum.com, Lisboa, 2017

░ O tempo anterior

Chego de noite A casa é como um rio
arrasta corpos em surdina vozes
que só podemos escutar na

água, sonhos velozes
Chego de noite Sei que está presente
esse tempo total Nada esqueci

mesmo que não o lembre Oh como estende
as asas sobre mim A sua cor
incerta reconheço

 

__
▪ Gastão Cruz
(Faro, n. 1941)
in “Poemas de Gastão Cruz”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005