░ Adormeci num rio

Adormeci num rio, acordei num rio,
da minha misteriosa
incapacidade de morrer nada sei
dizer-te, nem
de quem me salvou ou por que razão –

Havia um silêncio imenso.
Nenhum vento. Nenhum som humano.
O século amargo

tinha chegado ao fim,
o glorioso, o duradouro,

o sol frio
persistia como uma antiqualha, um memento,
com o tempo a correr por detrás –

O céu parecia muito límpido,
como no inverno,
o solo seco, inculto,

a luz oficial atravessava
calmamente uma fresta no ar

digna, complacente,
desfazia a esperança,
subordinava imagens do futuro aos sinais da passagem do futuro –

Julgo que caí.
Só à força pude tentar levantar-me,
tão estranha me era a dor física –

Tinha esquecido
a dureza destas condições:

a terra, não obsoleta,
mas quieta, o rio frio, pouco profundo –

Do meu sono não recordo
nada. Quando gritei,
a minha voz trouxe-me um inesperado consolo.

No silêncio da consciência, perguntei-me:
porque rejeitei a minha vida? E respondi
Die Erde überwältigt mich:
a terra derrota-me.

Tentei ser exacta nesta descrição,
para o caso de alguém me seguir. Posso garantir
que o pôr-do-sol no inverno é
incomparavelmente belo e a memória dele
dura muito tempo. Julgo que isto significa

que não havia noite.
A noite estava dentro de mim.

 

__
▪ Louise Glück
(E.U.A., n. 1943)
in “Telhados de Vidro”, nº. 12, Averno, Lisboa, 2009
Tradução – Rui Pires Cabral

░ o homem que amava demais

conheci um homem que entrava pelas janelas
falava de cegueira às borboletas
e nadava em silêncio com os peixes

uma ocasião cravou no peito um poema
———————————————-disse:

————————————-sou um poço

 

___
▪ Maria Azenha
(Portugal, n. 1945)
in “Num Sapato de Dante”, Escrituras Editora, São Paulo, Brasil, 2012

░ Um suspiro

Cresci ao lado do piano de minha irmã
a pedir-lhe Um suspiro, de Liszt: as notas
desencadeadas como o mar, querendo uma
voz , uma sentença, um rastro de silêncio,

que eu, bruto e lírico, ouvia entre pedras
de marfim. O medo a cobrir-me o rosto
sempre que pedia… Era bom sentir a vida
derretendo, se os dedos de outono vestiam-se

de mãe. As cordas do tempo no Essenfelder
− já agora vejo – a se romperem eram
as do meu peito (incapazes de sofrer).

Por mil e uma noites dentro do teclado,
segui, movendo-se distante – como eu ainda
hoje −, o frágil coração de minha irmã.

 

_
▪ Sérgio Nazar David
(Brasil, n. 1964)
Da revista “Relâmpago”, nº.33, Outubro 2013

 

░ BOGOTÁ, DEPOIS DE UMA VISITA A HELENA IRIARTE

Não há relação entre as coisas
e aquilo que as encarna.
A realidade acaso é um vazio
e o reflexo nos espelhos
a evidência de sua precariedade.
Os homens vão pelo mundo
retratando a angústia de não ser o que nomeiam.
Pessoas correm perseverantes rumo aos vagões do metrô
ou dos ônibus porque a vida depende de um conceito.
Tampouco a pontualidade corresponde a sua palavra,
Pois não se pode chegar com atraso ao destino.
É possível que convivam alma e corpo?
não serão um binômio inseparável
uma só coisa que não sabemos nomear ainda?
Nestes temas, como em tantos outros,
me atropela a retórica,
e volto a me perguntar se será possível
nada mais viver.

 

_
▪ Lauren Mendinueta
(Colombia, n. 1977)
in “Del tiempo, un paso”, Editorial Denes, España, 2011

Mudado para português por _Gustavo Petter_ (Poeta e tradutor), mora em Araçatuba/SP-Brasil, trabalha como professor da rede estadual. Mantém o blog agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL /VERSIÓN ORIGINAL

 

░ BOGOTÁ, DESPUÉS DE UNA VISITA A HELENA IRIARTE

 

No hay relación entre las cosas
y aquello que las encarna.
La realidad acaso es un vacío
y el reflejo en los espejos
la evidencia de su precariedad.
Los nombres van por el mundo
retratando la angustia de no ser lo que nombran.
La gente corre afanada hacia el vagón del metro
o el autobús porque la vida depende de un concepto.
Tampoco la puntualidad corresponde a su palabra,
Pues no se puede llegar con retraso al destino.
¿Es posible que convivan alma y cuerpo?
¿no serán un binomio inseparable,
una sola cosa que no sabemos nombrar aún?
En estos temas, como en tantos otros,
me atropella la retórica,
y vuelvo a preguntarme si será posible

nada más vivir.

 

_
▪ Lauren Mendinueta
(Colômbia, n. 1977)
Poema del libro “Del tiempo, un paso”, Editorial Denes, España, 2011

 

░ O barco fantasma

Flutua
Pela rua apinhada de gente,

A sua tonelagem
Imprecisa como o vento.

Desliza
Pela tristeza

Dos bairros de lata
Para os campos da periferia.

Lentamente,
Ora junto a um boi,

Ora junto a um moinho de vento,
Vai-se deslocando.

Passando
De noite como um sonho

Da morte,
Não se consegue ouvir;

Desloca-se clandestinamente
Sob as estrelas.

Tripulação
E passageiros de olhos fixos;

Mais brancos do que os ossos
Os seus olhos

Não
Se viram ou fecham.

 

_
▪ Mark Strand
(Norte-americano nascido no Canadá, 1934-2014)
in “Reasons for Moving”, Atheneum, New York , 1968

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

 

░ The Ghost Ship

 

Through the crowded street
It floats

Its vague
Tonnage like wind.

It glides
Through the sadness

Of slums
To the outlying fields.

Slowly,
Now by an ox,

Now by a windmill,
It moves.

Passing
At night like a dream

Of death,
it cannot be heard;

under the stars
It steals.

Its crew
And passengers stare;

Whiter than bone,
Their eyes

Do not
Turn or close.

 

_
▪ Mark Strand
(North American born in Canada, 1934-2014)
From “Reasons for Moving”, Atheneum, New York , 1968

 

░ Sinto a falta de D. L.

sentado

ao
piano

descobrindo

que as mãos

já
não estão

em harmonia
…………… uma

com a outra

_
▪ Mark Young
(Nova Zelândia, n. 1941)
in “Some more strange meteorites”, Meritage & i.e. Press, California / New York, 2017

Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho_ (Poeta, Tradutor e Matemático)



ORIGINAL VERSION / VERSÃO ORIGINAL

░  I am missing D. L.

sitting

down at the
piano

finding

that the hands

are
no longer
in sympathy with

……….……..…. one
another

_
▪ Mark Young
(New Zealand, b. 1941)
From “Some more strange meteorites”, Meritage & i.e. Press, California / New York, 2017

░ HINO A SATÃ

Somente a neve sabe
a grandeza do lobo
a grandeza de Satã
vencedor da pedra desnuda
da pedra desnuda que ameaça o homem
que invoca em vão a Satã
senhor do verso, desse agulheiro
na página
por onde a realidade
cai como água morta.

 

HINO A SATÃ (2ª versão)

A grandeza do lobo
não é a penumbra
nem o ar
é somente o fulgor de uma sombra
de um animal ferido no jardim
à noite, enquanto tu choras
como no jardim um animal ferido.

 

HINO A SATÃ (3ª versão)

Os cães invadem o cemitério
e o homem sorri, inquieto
ante o mistério do lobo
e os cães invadem a rua
em seus dentes brilha a lua
mas nem tu nem ninguém, homem morto
espectro do cemitério
saberá se aproximar amanhã nem nunca
do mistério do lobo.

 

_
▪ Leopoldo María Panero
(Espanha, n. 1948 – 2014)
in “Orfebre” – Poesía Completa (1970-2000), Visor Libros, Madrid ESP, 1994

Mudado para português por _Gustavo Petter_(Araçatuba/SP, Brasil). Publica poemas e traduções na página agradaveldegradado.blogspot.com.br



VERSÃO ORIGINAL /VERSIÓN ORIGINAL

 

░ HIMNO A SATÁN

 

Sólo la nieve sabe
la grandeza del lobo
la grandeza de Satán
vencedor de la piedra desnuda
de la piedra desnuda que amenaza al hombre
y que invoca en vano a satán
señor del verso, de ese agujero
en la página
por donde la realidad
cae como agua muerta.

 

HIMNO A SATÁN (2ª versión)

La grandeza del lobo
no es la penumbra
ni aire
es sólo el fulgo de una sombra
de un animal herido en el jardín
de noche, mientras tú lloras
como en el jardín in animal herido.

 

HIMNO A SATÁN (3ª versión)

Los perros invaden el cementerio
y en hombre sonríe, extrañado
ante el misterio del lobo
y los perros invaden la calle
y en sus dientes brilla la luna
pero ni tú ni nadie, hombre muerto
espectro del cementerio
sabrá acercarse mañana ni nunca
al misterio del lobo.

 

_
▪ Leopoldo María Panero
(España, n. 1948 – 2014)
in “Orfebre” – Poesía Completa (1970-2000), Visor Libros, Madrid ESP, 1994