HOSPITAL, ANÁLISES

De uma sala
no terceiro
andar
via-se
uma parte mínima
da cidade.
Eu passava horas ali,
com um maço
de cigarros,
olhando-a.
Não havia muito mais
a fazer.
Nem o veredicto
estava nas minhas mãos,
nem se podia recorrer.

 

_
▪ Karmelo C. Iribarren
( Espanha 🇪🇸 )
in “Estas Coisas Acontecem Sempre de Repente”
Mudado para português por José Craveiro de Carvalho

Porque agora o que mais nos inquieta

Porque agora o que mais nos inquieta
nesta funda ravina onde de rastos
o corpo declinamos suportamos onde o
canto dos pássaros se apresta ao exílio
capaz deste deserto porque agora

aquilo que nos faz voltar os olhos
e não ver além das cores o branco e
o silêncio além da música do sangue
pelos troncos e do frio nos ramos e
nas sebes que ornam o tempo ano a ano

aquilo que agora nos acode é sermos
a voz única que gravata nesta pedra
os sítios da memória os rituais
da espera porque agora reparamos e
nos frutos sentimos já os dentes com

a nova revolta chamada talvez resignação
porque temos é forçoso de aceitar que a
estação que vivemos agora e se eterniza
não é mais do que a única estação.

 

_
▪ Nuno de Figueiredo
(Coimbra, n. 1943)
in “A Única Estação”, Quasi Edições, V.N. de Famalicão, 2003

De que serviria

Aquilo que somos não é aparente,
não podemos explicar o sofrimento
de onde procede este amor.
Mas eu não vim para te dizer
como as sombras mistificam
o mundo: não me perguntes nada.
Tu já és a causa por detrás da máquina
dos dias, se eu for por essa terra fora
será para chamar por ti.

 

__

▪ Rui Pires Cabral
( Portugal 🇵🇹 )
in ”Morada”, Assírio & Alvim, Lisboa, 2015

Fuga da morte

Leite negro da madrugada bebemo-lo ao entardecer
bebemo-lo ao meio-dia e pela manhã bebemo-lo de noite
bebemos e bebemos
cavamos um túmulo nos ares aí não ficamos apertados
Na casa vive um homem que brinca com serpentes escreve
escreve ao anoitecer para a Alemanha os teus cabelos de oiro Margarete
escreve e põe-se à porta da casa e as estrelas brilham
assobia e vêm os seus cães
assobia e saem os seus judeus manda abrir uma vala na terra
ordena-nos agora toquem para começar a dança

Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos pela manhã e ao meio-dia bebemos-te ao entardecer
bebemos e bebemos
Na casa vive um homem que brinca com serpentes escreve
escreve ao anoitecer para a Alemanha os teus cabelos de oiro Margarete
Os teus cabelos de cinza Sulamith cavamos um túmulo nos ares aí não ficamos apertados
Ele grita cavem mais fundo no reino da terra vocês aí e vocês outros cantem
e toquem
leva a mão ao ferro que traz à cintura balança-o azuis são os seus olhos
enterrem as pás mais fundo vocês aí e vocês outros continuem a tocar para a dança
Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te ao meio-dia e pela manhã bebemos-te ao entardecer
bebemos e bebemos
na casa vive um homem os teus cabelos de oiro Margarete
os teus cabelos de cinza Sulamith ele brinca com as serpentes
E grita toquem mais doce a música da morte a morte é um mestre que veio da Alemanha
grita arranquem tons mais escuros dos violinos depois feitos fumo subireis aos céus
e tereis um túmulo nas nuvens aí não ficamos apertados
Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te ao meio-dia a morte é um mestre que que veio da Alemanha
bebemos-te ao entardecer e pela manhã bebemos e bebemos
a morte é um mestre que veio da Alemanha azuis são os teus olhos
atinge-te com bala de chumbo acerta-te em cheio
na casa vive um homem os teus cabelos de oiro Margarete
atiça contra nós os seus cães oferece-nos um túmulo nos ares
brinca com serpentes e sonha a morte é um mestre que veio da Alemanha
os teus cabelos de oiro Margarete
os teus cabelos de cinza Sulamith

_
▪ Paul Celan
(Roménia 🇹🇩)
Mudado para português por João Barrento

*
Paul Pessach Antschel, romeno-judeu-alemão, nascido em 1920, com histórico familiar de passagem por campos de concentração, e considerado uma das vozes mais radicalmente singulares da poesia de todos os tempos, adotou o nome de Paul Celan após o termo da Segunda Guerra Mundial, passando grande parte da vida, num exílio voluntário, na cidade de Paris, onde se suicidou, em 1970, atirando-se da ponte Mirabeau ao rio Sena.

FILHA

Filha, se em algum momento,
enquanto estás ocupada a crescer
– dura e lícita tarefa –
puderes olhar-me nos olhos,
fá-lo.

Não deixes as perguntas
para quando for a mesma voz
a perguntar e a responder.

Olha que nesta família
temos o doloroso costume
de conhecer-nos melhor em mortos.

 

_

▪ Ana Pérez Cañamares
( Espanha 🇪🇸 )