MUDANÇAS DE NOME

Aos amantes das belas letras
Faço chegar os meus melhores desejos
Vou mudar o nome de algumas coisas
A minha posição é esta:
O poeta não cumpre a sua palavra
Se não mudar o nome das coisas.
Por que razão o sol
Há-de continuar a chama-se sol?
Peço que se chame Micifuz
O das botas de quarenta léguas!

Os meus sapatos parecem ataúdes?
Pois saibam que de hoje em diante
Os sapatos se chamam ataúdes.
Comunique-se, anote-se e publique-se
Que os sapatos mudaram de nome:
Doravante chamam-se ataúdes.
Bem, a noite é longa
Qualquer poeta que se tenha em boa conta
Deve ter o seu próprio dicionário
E antes que me esqueça
Ao próprio deus é preciso mudar o nome
Que cada qual o chame como queira:
Esse é um problema pessoal.

 

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▪ Nicanor Parra
( Chile 🇨🇱 )
in “Acho que Vou Morrer de Poesia” – Antologia Breve, Língua Morta, Lisboa, 2015
Selecção e tradução – Miguel Filipe Mochila

O ENCONTRO

Muda mil e uma vezes de sapatos,
de blusa, de casaco, de batom…
Por fim dá um último toque
numa sobrancelha e sorri: “Já está”.
Trauteando uma velha canção,
pega no saco e sai. Feliz.
Como nunca pensou poder sentir-se.

 

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▪ Karmelo C. Iribarren
( Espanha 🇪🇸 )

in “Estas Coisas Acontecem de Repente” _
Mudado para português por Francisco José Craveiro de Carvalho

NOITES VAZIAS

Acho que me posso desintegrar;
uma noite fria
fechada em casa
Acho que posso explodir.
Talvez as minhas chamas saiam pelas janelas,
E as minhas cinzas inundem a sala
– a cor das paredes finalmente mudaria –
As minhas cartas provavelmente disparariam
violentamente até ao teto
e a fumaça perfuraria o céu –
uma dessas noites vazias.

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▪ Avgi Lilli
(🇨🇾 Chipre)

CHUVA

Chove uma grossa chuva inesperada,
Que a tarde não pediu mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
Duma vida que é chuva e não parece.
Chove, grossa e constante,
Uma paz que há-de ser
Uma gota invisível e distante
Na janela, a escorrer…

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▪Miguel Torga
( Portugal 🇵🇹 )

ELES DIRÃO

Da minha cidade, o pior que os homens dirão é isto:
Você tirou as crianças do sol e do orvalho,
E dos brilhos que brincavam na grama sob o grande céu,
E da chuva imprudente; você os coloca entre paredes
Para trabalhar, quebrados e sufocados, por pão e salário,
Para comerem poeira em suas gargantas e morrerem de coração vazio
Por um punhado de salário em algumas noites de sábado.

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▪ Carl Sandburg
(Estados Unidos 🇺🇸)

REFLEXÕES

O artista lida com a beleza invisível.
O santo lida com a graça invisível.
Mas, a respeito das mães que trabalham, os artistas e os santos são apenas diletantes : nada mais essencial que servir a infância sobre a qual repousa a arquitetura de todos os mundos invisíveis.

 


▪ Christian Bobin
( França 🇨🇵 )

Não preciso que me digam que é impuro o que escrevo

Não preciso que me digam que é impuro o que escrevo
vê-se pelas cicatrizes nos dedos da mão direita (a calosidade
amarelada de nicotina no dedo anelar é trabalhinho escravo)
também a espinha lixada e a falta de dentes o mostram bem
não tenho biografia não a procurem no canto mal cheiroso
no medo da noite (o catecismo não é igual para todos não é?)
a minha biografia se quiserem começa e acaba no registo civil
em mil novecentos e cinquenta e quatro também tive direito
a nascer numa geração rasca a de pais anónimos e mães solteiras
o que escrevo é impuro como os sangues menstruais e o mijo
a destilarem amoníaco a federem como as fábricas da cuf
na outra margem onde se escrevia em peles curtidas pelo silêncio
ou como o sangue coagulado dos mortos na guerra colonial
pestes é que não têm faltado na minha vida…
deambulo pelos sonhos onde me perco extenuado e amanheço
quase sucumbindo ao ar excessivo que me invade os pulmões
desremelo os olhos e a esbracejar inauguro o dia saído da noite
onde se pesca palavras e outros excrementos da alma.

 

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▪ Carlos Alberto Machado
( Portugal 🇵🇹 )
in “ Registo Civil. Poesia Reunida”, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010