LÁ BEM NO ALTO

 
Lá bem no alto
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA

 

 

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▪ Mario Quintana
( Brasil 🇧🇷 )

 

ESTOU AQUI SENTADO NA MINHA CASA

Estou aqui sentado na minha casa
que é grande como uma mesa de mármore
tenho um pequeno espaço de trevas à frente
vejo que está cheio de mim vejo que está
num canto aborrecido do meu desespero
está sentado na minha casa prostrou-se
à minha frente e então não tenho outra vontade
que não de anunciar sente-se amigo sente-se
ao que vem sou eu disse-me sou uma história
uma diligência um mito comes carne
perguntei lá de onde estava sentado cada vez
cada vez mais me parecia um trono e ela
ela diz-me tenho estepes e perco-me de vista
e eu estava aqui sentado na minha casa
de gestos contidos sabes como quando conquistei
Paris e dei dois pulinhos de emoção contidos
como quando era criança e julgava que toda
toda a gente estava a olhar para mim e ainda pior
que afinal tinha passado desapercebido dei
dei dois passinhos de emoção rejubilei contido
e hoje passei o dia na minha mesa do tamanho
de um estádio de mármore e sussurrei
és tu és tu aqui mãe com nome de seita
estou disposto a matar por tuas mentiras
por exemplo que sou teu que me queres
lembras-te quando me fazias sentar do outro
do outro lado da mesa enquanto me negavas
um beijo lembras-te Mãe Rússia quando
à noite te pedia um sorriso sem dizer palavras
e tu quase me aconchegavas antes de apagar
antes de apagares e então estou aqui agora
sentado à espera de um botão de um erro
de uma falha de comunicação para fazer de ti
Terra das Terras Monstro dos Monstros
uma mesa bem grande de um rio ao outro
ah estou aqui sentado na minha casa
à espera que não haja hoje paredes para ela
que se possa transviar intuir rasgar
e formar muros de pedra de madeira
lembras-te como aquele que destruíste
aquele pobre carrinho aquele pobre trenó
de brincar em que me arrastava à espera de ti
à espera de uma mãe e quando já de noite
decidia que nunca iria tocar em bebida
já tu estavas sentada à minha frente e agora
que agonizo como um comum mortal que acreditou
em histórias vejo tão claramente que quis o que quis
e prostrei a meus pés os meus inimigos rijos
eram tantos como as estrelas do céu ou mais
agora aqui deitado na minha casa rodeado
por pessoas que me temem mas não me respeitam
como a Mãe Rússia e os seus cabelos de palha
e os seus cabelos de puta agora aqui deitado
ou sentado na minha casa recordo- me
inflo-me exalto-me se fosse poeta seria capaz
de escrever tudo isto subjuguei os outros
os outros que foram nossos dei cabo deles
trucidei-os desfi-los arruinei-os
porque foram ainda por cima irmãos desavindos
e com o seu sangue fiz um risco na cara
e chorei pouco ou melhor nada porque
porque desde que me deste cabo dos brinquedos
mãe ando com desejo de invadir a Polónia
os Normandos os Vikings e os Sumérios
desde que me possa sentar de novo na minha mesa
com mármore de vinte e quatro quilates
e ter alguém à espera do meu nojo isto é
do meu lamento profundo pelo passado
e pela esperança de um grandioso futuro
cheio de cadeiras e de olhares sérios e tristes
porque afinal irmão tive que vos destruir
para saberdes que sempre vos amei
aqui sentado na minha casa
de onde se vê sempre o sol morrer
e onde não há trevas que me cubram
apenas uma mesa enorme debaixo da qual
me escondo à espera que as bombas caiam
num outro país que escolhi sentado.

 

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▪ Pedro Braga Falcão
( Portugal 🇵🇹 )

 

Os teus olhos

Direi verde
do verde dos teus olhos

um rugoso mais verde
e mais sedento

Daquele não só íntimo
ou só verde

daquele mais macio
mais ave
ou vento

Direi vácuo
volume
direi vidro

Direi dos olhos verdes
os teus olhos
e do verde dos teus olhos direi vício

Voragem mais veloz
mais verde
_________ ou vinco

voragem mais crespada
ou precipício

 

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▪ Maria Teresa Horta
( Portugal 🇵🇹 )
in “Poesia Reunida”, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2009

ELES APRESSAM-SE A MORRER

Eles estão a morrer um após o outro;
lançar terra sobre eles tornou-se tão comum
como aspergir sal na comida.

São todos eles da mesma geração, a minha família,
ou mais precisamente, da mesma época,
e os filhos de uma época são como cães amarrados a um trenó:
na sua busca pelo ouro
ou correm todos ou caem juntos.

Não é matemática,
é como um pente, um pente que domará um cabelo em rebelião
após um namorico louco, ante o espelho.

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▪ Luljeta Lleshanaku
(Albânia 🇦🇱)
Poesia mudada para português por João Luis Barreto Guimarães

Uma aula de desenho

O meu filho coloca a sua caixa de pintura à minha frente
E pede-me que lhe desenhe um pássaro.
Mergulho o pincel na cor cinzenta
E traço um quadrado com fechaduras e grades.
Os seus olhos enchem-se de surpresa:

“Mas isto é uma prisão, pai,
Não sabes desenhar um pássaro?

E eu digo-lhe: “Filho, perdoa-me.
Esqueci-me da forma dos pássaros.

O meu filho coloca o livro de desenhos à minha frente
E pede-me que desenhe uma espiga de trigo.

Pego num lápis
E desenho uma arma.

O meu filho desdenha da minha ignorância,
perguntando,
“Pai, não sabes a diferença entre uma espiga de trigo e uma arma?”
Eu digo-lhe: “Filho,
uma vez usei a forma da espiga de trigo
a forma do pão
a forma da rosa
Mas nestes tempos duros
as árvores da floresta juntaram-se
aos homens da milícia
e a rosa veste uniformes escuros

Neste tempo de espigas de trigo armadas
de pássaros armados
de cultura armada
e de religião armada
não se pode comprar pão
sem encontrar uma arma no interior
não se pode colher uma rosa do campo
sem que os seus espinhos nos arranhem o rosto
não se pode comprar um livro
que não vá explodir entre os nossos dedos.”

O meu filho senta-se à beira da minha cama
e pede-me que recite um poema
Uma lágrima cai dos meus olhos para a almofada.
O meu filho apanha-a, surpreendido, dizendo:

“Mas esta é uma lágrima, pai, não é um poema!”

E eu digo-lhe:

“Quando cresceres, meu filho,
e aprenderes o ‘diwan’ da poesia árabe
descobrirás que palavra e lágrima são gémeas
e que o poema árabe
não é mais do que uma lágrima chorada por dedos que escrevem.”

O meu filho pega nos seus pincéis,
a caixa de pinturas à minha frente
e pede-me que lhe desenhe uma pátria.

O pincel treme nas minhas mãos
e eu afundo-me, chorando.

 

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▪ Nizzar Qabbani
(Síria 🇸🇾)
Mudado para português por Paulo Farah

 

III (Grande Hotel de Paris)

A morte, claro. Existem porém
dias grandes, irredutíveis a versos,
em que a indecisão da luz
nos açoita de felicidade.

São dias raros, futuras
imagens do nada, o suficiente
para que a palavra amor substitua
o primeiro cigarro da manhã.

Chegámos tarde. O quarto 203
trazia-me de novo o teu corpo.
E até a música dos sinos
vinha deitar-se connosco.

 

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▪ Manuel de Freitas
( Portugal 🇵🇹 )
in “A Flor dos Terramotos”, Edições Averno, Lisboa, 2005

O PÃO DE CENTEIO DE OSCAR WILDE

No cárcere de Reading, Oscar Wilde
escreveu na memória o pássaro
A memória é uma oficina de ossos,
com as asas quebradas
os olhos com furos de pistola
as vísceras dobradas no canto da gaveta
os pés amputados pela navalha
da guilhotina.

Na prisão, havia túmulos de horror onde nasceram flores de pelúcia.
Havia sangue pisado debaixo da língua, líquidos e
lágrimas nos arrepios da morte.

Aos domingos, atrás das grades,
nas refeições matinais,
o pão de centeio trazia o verso do perdão.
Oscar Wilde lambia os farelos caídos sobre o chão
com sua língua de fogo.

Na cela, ao sangrar a fome na garganta,
o coração de pedra escreveu as leis eternas
da humanidade
num caderno de vidro
sobre os homens que choram
sobre os homens que matam o que amam.

 

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▪ Mírian Freitas
( Brasil 🇧🇷 )