O MESTRE

Onde o poeta pára, o poema
começa. O poema só pede
que o poeta saia do caminho.

O poema se esvazia
para se preencher.

O poema está mais perto do poeta
quando o poeta lamenta
que ele sumiu para sempre.

Quando poeta desaparece
o poema se torna visível.

Que pode o poema escolher
de melhor para o poeta?
Escolherá que o poeta
não escolha por si.

_
▪ Donald Hall
(EUA 🇺🇲 )
Mudado para português do brasil por António Cícero

ALGUNS POEMAS PORTÁTEIS

 

vivo numa cidade onde a polícia se ocupa
sobretudo de vigiar pedintes
e se à noite passearmos pelas artérias principais
as cenas que se repetem são as de homens em farrapos
sozinhos com os seus cães
cobrindo as cabeças com as mãos
enquanto as carrinhas da polícia passam lentamente

eles mantêm o seu silêncio
e eu lembro-me que foi adrienne rich quem escreveu
que eu vivo num país onde os poetas não são presos
por serem poetas
são presos por serem negros, mulheres, pobres

revejo versões desta cena todas as noites
quando regresso a casa depois do trabalho
e conheço-a bem porque tenho vivido
o mesmo dia durante os últimos sete meses
e presto atenção espero pela carrinha da polícia
a dumka nos meus ouvidos não me permite negar
que o mundo é uma bola de vidro
que a estabilidade de cada peça depende
de a rotação total do globo
não ultrapassar uma certa velocidade

e penso que sou responsável sobretudo
por estas horas em que me cruzo com gente na rua
em que paro de ser um agente
ao serviço de uma corporação cujo deus
é previsivelmente de um verde monótono e jamais
cometeria o erro de um grande final vermelho

eu estou viva quieta e sou responsável
por escrever estas palavras
a caneta contra o papel
o frio na cara
o som de um violoncelo nos ouvidos
que segredo pode ser encontrado na quietude?

que temos existido exaustos
do lado de fora de paisagens previsíveis
quando a minha cara deixa de poder ser reconhecível
e reparo que nos últimos meses

a minha letra mudou
munch pintou «o grito» depois
de um ataque de pânico numa ponte em paris
um ataque sofrido na companhia de amigos

ele dizia que «o grito»
não representava um homem a gritar
mas um homem a tentar conter
como as barreiras fazem com os rios
o grito de tudo o que o rodeia

_

▪ Tatiana Faia
( Portugal 🇵🇹 )
De Um Quarto em Atenas, Tinta da China, 2018

Havia o bule a tarde o postigo

Havia o bule a tarde o postigo
(um sobrolho nocturno a sonam-
bular pela casa) os bêbados e os
loucos na taberna sempre bêbados
e sempre loucos a sonambularem
pela passagem de nível enquanto lhes
perdurasse a loucura e a bebedeira
de que nunca se curavam. Havia azeite
nas lamparinas naperons de renda e
mandalas bordadas flores murchas em
salobras jarras de água centros de mesa
e o teu sobrolho-postigo (centro de tudo)
a darem para a linha do comboio. Havia
a cancela que subia e descia consoante
as vogais das máquinas campainhassem
a desoras. Havia os carrinhos de rolamentos
(havia descarrilamentos) a guiarem sozinhos
empurrados pelo vento distraído ao volante.
Não havia o verso___ havia o inverso__ o
avesso do poema. Havia o teu lenço negro
(havia tudo em ti negro) e o teu xaile sobre
o espaldar oblíquo das costas. Havia um
arquipélago de réplicas de santos e santas
processo de multiplicar idades
de entardecer o rosto num
crescendo cujo auge se situa
prestes ao raiar do fim. A tarde
cinde noite e dia __meio-termo
sem término sem fim sem terminação. A
tarde: infância da noite que determina
a feição da claridade ___noite rubra a
amadurecer no cavo fusco da lareira. A
tarde à beira-lume: destroço da manhã.

 

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▪ Miguel Alexandre Marquez
(Portugal 🇵🇹)
in “Anuário de Poesia de autores não publicados”, Assírio & Alvim, 2015

INDESEJÁVEL

O guarda não me deixa passar.
Ultrapassei o limite de idade.
Venho de um país que já não existe.
Os meus papéis não estão em ordem.
Falta- me um carimbo.
Preciso de outra assinatura.
Não falo a língua.
Não tenho conta no banco.
Reprovei no exame de admissão.
Extinguiram o meu posto na grande fábrica.
Despediram-me hoje e para sempre.
Não tenho nenhuma influência.
Estou aqui neste mundo há muito tempo.
E os nossos chefes dizem que chegou a hora
de me calar e afundar-me no lixo.

 

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▪ José Emílio Pacheco
( México 🇲🇽 )
Mudado para português por Jorge Sousa Braga

Descrição de um lugar

Sou um reflexo no vidro. Olho-me
Fixamente, e o poema capta-me nesta atitude.
Pudesse eu conhecer-me como se conhece
o poema…
Deixo um retrato de mim, morto,
há um ano por esta altura. Que me aconteceu,
entretanto? De quem é este corpo
que me é estranho, pálido habitante de um movimento
indeciso e aparente? Quem sinto quando me toco,
quem me dorme, quem me pensa,
quem me escreve? O meu rosto encobre um pronome. Vivo
uma sintaxe corrupta no patamar marítimo
do mito. Quem me impede o sentimento? Quem me abre
um caminho que não sigo, condenado a outro
de mim próprio?
No entanto, estou aqui. Entre mim e o poema,
opaco a ambos, sem nada para dizer.

 


▪ Nuno Júdice
( Portugal 🇵🇹 )
in “Obra Poética (1972-1985), Quetzal Editores, Lisboa, 1999

Sobre a minha mãe

Não conseguiria nunca dizer nada sobre a minha mãe:
como ela repetia, vais arrepender-te um dia,
quando já cá não estiver e como eu não acreditava
nem no “não estiver” nem no “já não”,
como gostava de a observar quando lia os grandes êxitos,
começando sempre pelo último capítulo,
como na cozinha, convencida de que não era
lugar para ela, fazia o café dominical
ou, pior ainda, filetes de bacalhau,
como estudava o espelho enquanto esperava os convidados,
fazendo a cara que melhor a impedia
de se ver como era (nisto
e em mais umas tantas fraquezas saio a ela),
como falava demais sobre coisas
que não eram o seu forte e como eu estupidamente
a arreliava, por exemplo, quando
se comparava a Beethoven ao ficar surda
e eu dizia, cruelmente, mas sabes ele
era talentoso, como perdoava tudo,
como eu recordo isso e como, de Houston, fui de avião
ao seu funeral, fui incapaz de dizer uma palavra
e ainda hoje não consigo.

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▪ Adam Zagajewski
( Polónia 🇵🇱 )
Mudado para português por _ Francisco José Craveiro de Carvalho

LENÇOL BRANCO

Não sei onde anda
Essa outra metade de mim
Os jornais deixaram de dar notícias
E todos esqueceram o assunto
Não sei onde andam os meus pés
Nem os meus pensamentos
Noutro dia, acho que os encontrei, aos meus pés
Estavam na televisão
No corpo de outra pessoa
Um cadáver na morgue
Um homem da minha idade
Encontrado morto em casa
Não há suspeitas de homicídio
O coração estava do tamanho
De uma bola de futebol
Também não sei onde anda o meu coração
Mas acho que o vi ontem
No meio do relvado
Pontapeado contra a baliza
Goooolo, grita, furiosa, a dor no meu peito
Talvez seja bom não saber dos meus pensamentos
Ter a cabeça vazia. Oca.
Um lençol branco dentro dos olhos.

_

▪ Gabriela Ruivo Trindade
( Portugal 🇵🇹 )