CHEGADA

Parece que passo metade da vida a chegar a
hotéis desconhecidos –
E a perguntar se me posso ir já deitar.
E não se importa de encher a minha botija de água quente
Obrigada, assim está perfeito.
Não, não vou precisar de mais nada –
A porta desconhecida fecha-se sobre aquele desconhecido
E enfio-me depois entre os lençóis
À espera de que as sombras saiam dos recantos
E teçam uma longa, longa teia
Sobre o papel de parede mais feio de todos.

 

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▪ Katherine Mansfield
(Nova Zelândia 🇳🇿 )
Mudado para português por Inês Dias

Convite para o Kremlin (Inverno de 1405)

O ícone da Virgem de Vladimir
fixou-me nos olhos e disse:

“Procura-me no muro onde a tarde estende
a sua plumagem.

Estou atrás dos pendões de cauda
de cavalo,

por baixo das folhas e
dos frutos.

Procura-me no ar, nas
cinzas.

Estou sobre a ponte de
todos os rios,

sobre a pegada dos
lobos.

Procura-me no arco onde
o sangue se desata.

Estou sob a asa da
noite».

 

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▪ Diego Roel
( Argentina 🇦🇷 )
Mudado para português por Soledade Santos

TIVE UMA MÃE

Tive uma mãe,
viva e ardente,
sempre ausente com uma mente
incapaz de viver.
Poderia ter sido ela? Nunca dormi ao colo dela.
Era uma ave
migratória
com asas cortadas.
Portanto, não tenho piedade de mim mesma
e não tenho nada que me abrace por dentro.

 

 

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▪ Anna Maria Carpi
( Itália 🇮🇹 )

 

A ARRUMADORA

Era uma mulher que tinha sempre pressa e nem sabia bem de quê
Não podia estar parada
dizia
e por isso tinha que estar sempre a arrumar
tudo à sua volta.
Do que mais gostava era de pôr coisas no lixo.
Depois de arrumar o que já estava arrumado e ela desarrumara
para poder arrumar
punha no lixo tudo o que podia
e não podia:
toda a sua casa se queixava que lhe desapareciam coisas.
Morreu nova:
o deus que a criara imitou-a
e pô-la rapidamente
no lixo

 

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▪ Teresa Rita Lopes
( Portugal 🇵🇹 )